Estudos que serão apresentados na Aids 2026 confirmam a eficácia da PrEP injetável aplicada apenas duas vezes por ano e mostram resultados promissores do primeiro tratamento oral completo administrado uma vez por semana. Especialistas afirmam que as novas tecnologias podem transformar a adesão e ampliar as opções para milhões de pessoas.
A prevenção e o tratamento do HIV podem estar prestes a viver uma das maiores transformações desde a introdução da terapia antirretroviral. Depois de décadas marcadas pelo uso diário de comprimidos, estudos que serão apresentados na 26ª Conferência Internacional sobre Aids (Aids 2026), no Rio de Janeiro, mostram que novas tecnologias de longa duração caminham para mudar a rotina de milhões de pessoas em todo o mundo.
Os resultados reforçam a eficácia do lenacapavir injetável, administrado apenas duas vezes por ano como profilaxia pré-exposição (PrEP), e apresentam os primeiros dados completos de um regime experimental composto por um único comprimido semanal que combina islatravir e lenacapavir para pessoas vivendo com HIV com carga viral suprimida.
As pesquisas, selecionadas entre milhares de trabalhos científicos submetidos à conferência, indicam que a medicina caminha para oferecer alternativas capazes de reduzir significativamente a frequência das medicações, facilitar a adesão ao tratamento e ampliar as possibilidades de prevenção em diferentes populações.
Organizada pela Sociedade Internacional de Aids (IAS), a Aids 2026 acontece entre os dias 26 e 31 de julho, no Riocentro, e reunirá pesquisadores, profissionais de saúde, gestores públicos, representantes da sociedade civil e pessoas que vivem com HIV de todo o mundo para discutir os principais avanços científicos da resposta global à epidemia.
“A ciência está avançando rapidamente, proporcionando-nos ferramentas mais eficazes de prevenção e tratamento do HIV. Mas esses avanços não podem salvar vidas se nunca chegarem às pessoas que precisam deles. Isso requer financiamento robusto e estável, além de um compromisso político inabalável”, afirmou Beatriz Grinsztejn, presidente da IAS, copresidente da Aids 2026 e diretora da Unidade de Pesquisa Clínica em HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (Fiocruz).
PrEP aplicada apenas duas vezes por ano
Um dos principais destaques da conferência são os novos resultados dos estudos internacionais PURPOSE 1 e PURPOSE 2, que acompanham pessoas utilizando o lenacapavir como estratégia de prevenção ao HIV.
O medicamento, aplicado por injeção subcutânea apenas duas vezes ao ano, já havia demonstrado desempenho superior ao da PrEP oral diária nas fases anteriores dos ensaios clínicos. Agora, os pesquisadores apresentam os resultados das primeiras 52 semanas da fase de extensão aberta, etapa em que os participantes puderam escolher continuar ou iniciar o uso do medicamento.
No PURPOSE 1, realizado com mulheres cisgênero na África do Sul e em Uganda, 95,2% das participantes elegíveis optaram por receber o lenacapavir.
Durante um ano de acompanhamento, nenhuma nova infecção pelo HIV foi registrada entre as mulheres que utilizaram o medicamento. Considerando todo o período do estudo, superior a 7.178 pessoas-ano de seguimento, houve apenas um caso de infecção durante a fase randomizada. Outro diagnóstico ocorreu após uma participante trocar o lenacapavir pela PrEP oral. A adesão ao esquema foi de 96% e nenhuma nova preocupação relacionada à segurança foi identificada.
Segundo Noah Kiwanuka, da Escola de Saúde Pública da Universidade Makerere, em Uganda, os resultados consolidam o lenacapavir como uma das estratégias mais promissoras de prevenção para mulheres cisgênero.
Brasil participa de estudo internacional
O PURPOSE 2 reuniu homens cisgênero e pessoas de diversas identidades de gênero em sete países: Argentina, Brasil, México, Peru, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos.
Também nessa etapa, aproximadamente 95% dos participantes optaram por continuar utilizando o lenacapavir após o término da fase controlada do estudo.
Desde o início da pesquisa, foram registrados quatro casos de infecção pelo HIV entre mais de 5.295 pessoas-ano de acompanhamento. Três já haviam sido identificados anteriormente durante a fase randomizada. O quarto ocorreu durante a extensão aberta e continua sendo investigado pelos pesquisadores.
Mesmo assim, os resultados mantiveram elevados índices de proteção, com adesão de 92% às aplicações programadas.
Para Marcelo Losso, do Hospital General de Agudos Dr. José María Ramos Mejía, na Argentina, os dados confirmam que o lenacapavir representa uma alternativa segura e altamente eficaz para homens cisgênero e pessoas de identidades de gênero diversas.
Dra. Beatriz Grinsztejn destaca, porém, que o sucesso científico precisa ser acompanhado pelo acesso. “Se o fornecermos onde é mais necessário, o lenacapavir para prevenção do HIV tem potencial para ajudar a conter a pandemia global.”
Ela lembra que a América Latina enfrenta um desafio adicional. “Em muitos países da região, excluídos do licenciamento de medicamentos genéricos, o acesso dependerá da negociação de preços acessíveis. Precisamos superar essa barreira para que a região não fique para trás.”
Um comprimido por semana
Outra novidade aguardada na conferência vem dos estudos de fase 3 ISLEND-1 e ISLEND-2. Os ensaios avaliam um regime experimental que reúne islatravir e lenacapavir em um único comprimido administrado apenas uma vez por semana.
Caso seja aprovado pelas agências regulatórias, o medicamento poderá se tornar o primeiro tratamento oral completo semanal para pessoas vivendo com HIV.
Hoje, embora os esquemas de um comprimido por dia tenham revolucionado o tratamento da infecção, a necessidade da administração diária continua sendo um desafio para muitas pessoas. Os medicamentos injetáveis de longa duração também representam um avanço, mas exigem visitas periódicas aos serviços de saúde.
A possibilidade de um comprimido semanal busca justamente preencher esse espaço entre a praticidade e a flexibilidade.
No ISLEND-1, adultos que utilizavam diariamente bictegravir, emtricitabina e tenofovir alafenamida foram randomizados para permanecer no tratamento convencional ou migrar para o esquema semanal.
O estudo demonstrou que o novo regime foi eficaz, bem tolerado e estatisticamente não inferior ao tratamento diário.
Resultados semelhantes foram observados no ISLEND-2, realizado com pessoas que utilizavam diferentes esquemas antirretrovirais orais. Também nesse estudo, o comprimido semanal manteve eficácia comparável aos tratamentos convencionais. “Os tratamentos precisam se adaptar à vida das pessoas, e não o contrário”, afirmou Kenneth Ngure, presidente eleito da IAS.
Segundo ele, ampliar as opções terapêuticas significa permitir que cada pessoa escolha o modelo mais compatível com sua rotina. “As pessoas que vivem com HIV precisam de novas opções que ofereçam flexibilidade, e um comprimido semanal pode ampliar significativamente essas possibilidades.”
Embora ainda dependam da aprovação das autoridades regulatórias, os resultados apresentados na AIDS 2026 mostram que o futuro da resposta ao HIV caminha para esquemas cada vez mais simples, duradouros e personalizados.
Depois de décadas em que o sucesso do tratamento esteve diretamente ligado ao compromisso diário com os medicamentos, a próxima revolução poderá ser justamente tornar esse compromisso menos frequente, sem abrir mão da eficácia.
* A Agência de Notícias da Aids vai cobri a 26ª Conferência Internacional de Aids com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.
Redação da Agência de Notícias da Aids




