Sessão da AIDS 2026 propõe substituir abordagens baseadas no medo por políticas que reconheçam o prazer sexual como direito humano e ferramenta para ampliar a prevenção, reduzir o estigma e fortalecer o cuidado.
Durante décadas, a resposta ao HIV foi construída em torno da ideia de risco. Consultas focadas em comportamentos considerados perigosos, campanhas marcadas pelo medo da infecção e uma abordagem centrada quase exclusivamente na prevenção de doenças ajudaram a salvar milhões de vidas. Mas, para os especialistas reunidos na 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), essa estratégia deixou uma dimensão essencial da sexualidade praticamente invisível: o prazer.
Foi justamente essa reflexão que orientou a sessão “Resgatando o prazer sexual”, que reuniu pesquisadores, profissionais de saúde e representantes da sociedade civil em defesa de uma mudança de paradigma. A proposta é reconhecer o prazer sexual como parte integrante da saúde e dos direitos humanos, entendendo que ele pode fortalecer a adesão às tecnologias de prevenção, aproximar usuários dos serviços de saúde e contribuir para reduzir o estigma que ainda acompanha o HIV.
Ao longo do debate, uma mensagem se repetiu entre os palestrantes: prazer e prevenção não são conceitos opostos. Na era da prevenção biomédica, eles podem — e devem — caminhar juntos.
Quando o prazer vira tabu
A pesquisadora Sarah Kate Calabrese, da George Washington University, chamou atenção para um aspecto frequentemente ignorado nas discussões sobre HIV: o estigma em torno do próprio prazer sexual.
Segundo ela, o sexo por prazer continua sendo socialmente aceito apenas para determinados grupos. Mulheres, pessoas vivendo com HIV, homens gays e bissexuais, pessoas trans e outras populações mais afetadas pela epidemia ainda têm sua sexualidade julgada e frequentemente tratada como inadequada.
Para a pesquisadora, esse julgamento influencia inclusive a forma como novas tecnologias de prevenção são recebidas. Ela argumentou que críticas dirigidas à PrEP e a outras estratégias biomédicas muitas vezes aparecem sustentadas por preocupações aparentemente técnicas, como compensação de risco ou resistência antimicrobiana. No entanto, essas justificativas podem esconder preconceitos e valores morais sobre quem utiliza essas ferramentas.
“Na era biomédica atual, prazer e prevenção são compatíveis; eles se reforçam mutuamente”, afirmou.
Calabrese defendeu que pesquisadores, formuladores de políticas públicas e profissionais de saúde têm um compromisso ético de incorporar o prazer à resposta ao HIV. Para ela, pessoas vivendo com o vírus e outras populações-chave frequentemente sacrificaram sua vida sexual em nome da prevenção e da proteção de suas comunidades.
Da prevenção baseada no medo à prevenção baseada na confiança

Se Sarah Calabrese apresentou os fundamentos científicos dessa mudança de paradigma, o infectologista Vinicius Borges, do Canal Doutor Maravilha, da ONG Instituto Multiverso e integrante do Comitê de Prevenção do Ministério da Saúde, mostrou como essa transformação pode acontecer na prática.
Segundo ele, a resposta ao HIV evoluiu ao longo das últimas décadas, mas ainda carrega uma herança baseada no medo. “O risco gera medo. O medo começa com vergonha, silêncio e evitação”, afirmou.
Para Borges, uma prevenção efetiva depende da substituição dessa lógica por outra baseada na confiança, no diálogo, na empatia e no direito de escolha.
Isso significa deixar de enxergar cada pessoa apenas como alguém que precisa receber uma tecnologia específica e passar a compreender sua realidade, seus relacionamentos e suas diferentes formas de viver a sexualidade.
“Temos uma pizza inteira de opções, mas muitas vezes oferecemos apenas uma ou duas fatias”, observou, ao se referir à prevenção combinada, que reúne diferentes estratégias, como preservativos, PrEP, PEP, vacinação, redução de danos e a mensagem de que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV (I=I).
Na avaliação do pesquisador, a pergunta central não deveria ser apenas qual tecnologia está disponível, mas qual delas faz sentido para cada pessoa.
A prevenção precisa sair dos consultórios
Outro ponto defendido por pelo dr. Vinicius Borges foi a necessidade de levar profissionais de saúde para os espaços onde as pessoas realmente vivem sua sexualidade.
Segundo ele, limitar a prevenção aos consultórios e hospitais significa desperdiçar oportunidades de diálogo.
O pesquisador citou experiências desenvolvidas em organizações comunitárias, festas voltadas ao público LGBTQIA+, aplicativos de relacionamento, saunas e outros espaços de convivência como exemplos de ambientes onde informações sobre PrEP, PEP, vacinação, redução de danos e outras estratégias podem ser compartilhadas de maneira mais acolhedora.
A lógica, explicou, é simples: nesses locais as pessoas costumam estar mais confortáveis para conversar sobre sexo e, consequentemente, mais abertas para discutir formas de prevenção.
Essa abordagem também passa pelo reconhecimento da diversidade das experiências sexuais e dos corpos.
Durante sua apresentação, Borges defendeu que profissionais atualizem sua formação para atender pessoas trans, intersexo e outras populações historicamente invisibilizadas nos serviços de saúde. Também chamou atenção para a necessidade de reconhecer o ânus e o reto como órgãos sexuais e tratar essas questões sem preconceito.
Segundo ele, frases aparentemente pequenas ou comentários inadequados durante uma consulta podem afastar usuários dos serviços de saúde.
“Você foi a primeira pessoa que me perguntou sobre prazer”
Um dos momentos mais marcantes da apresentação ocorreu quando o dr. Vinicius Borges relatou mensagens que costuma receber em seu consultório e nas redes sociais.
Segundo ele, muitas pessoas afirmam nunca terem encontrado um espaço seguro para conversar sobre seus desejos e sua vida sexual. “Todos os médicos perguntavam apenas sobre sintomas. Você foi a primeira pessoa que me perguntou sobre o que me dá prazer”, contou ao reproduzir um relato frequente de pacientes.
Para Borges, essa escuta transforma completamente a relação entre profissionais e usuários.
Em vez de reduzir o atendimento a exames laboratoriais, sintomas e prescrições, ele defendeu uma abordagem que considere a pessoa em sua totalidade, incluindo afetos, desejos, relações e formas de intimidade.
Também ressaltou que sexo não se resume à penetração e que o prazer é construído por fatores emocionais, culturais e relacionais, e não apenas pela anatomia.
Mulheres reivindicam o direito ao prazer

A discussão ganhou outra dimensão com a participação de Ciarra Brown e Olivia Ford, representantes do The Well Project, organização que atua com mulheres vivendo com HIV e mulheres vulneráveis ao vírus.
Durante a apresentação conjunta, elas defenderam que o prazer sexual seja reconhecido como um direito humano e incorporado às políticas públicas de saúde voltadas para mulheres de todo o espectro de gênero, incluindo mulheres trans e pessoas não binárias acolhidas pela organização.
As representantes apresentaram iniciativas voltadas para educação em saúde sexual, apoio comunitário e produção de materiais destinados tanto às mulheres quanto aos profissionais de saúde.
Uma das principais dificuldades identificadas pelo The Well Project é justamente iniciar conversas sobre sexualidade durante as consultas.
Segundo elas, muitas mulheres não sabem como abordar o tema com seus profissionais de saúde, enquanto muitos profissionais também não se sentem preparados para iniciar esse diálogo.
Para enfrentar essa lacuna, a organização desenvolveu recursos voltados aos dois públicos, estimulando conversas abertas, livres de julgamento e centradas na autonomia das mulheres.
Muito além da carga viral
As representantes também apresentaram os resultados de uma consulta realizada com especialistas de diferentes áreas para identificar prioridades na incorporação do prazer às políticas relacionadas ao HIV.
Entre os principais pontos levantados estavam a necessidade de capacitar profissionais para discutir prazer sexual e diferentes formas de relacionamento sem julgamento; fortalecer a autonomia corporal; ampliar processos de descriminalização relacionados ao HIV, ao trabalho sexual, ao aborto e à maternidade; garantir a participação de mulheres vivendo com HIV na elaboração de políticas públicas; e substituir uma linguagem centrada exclusivamente no risco por uma abordagem que reconheça as razões pelas quais as pessoas vivem sua sexualidade.
Outro aspecto destacado foi a necessidade de superar a ideia de que a carga viral é o único indicador de sucesso no cuidado em HIV.
Segundo elas, saúde também envolve qualidade de vida, bem-estar, autonomia, relacionamentos e a possibilidade de viver a sexualidade de forma segura e satisfatória.
Os resultados da consulta também apontaram que crenças culturais profundamente enraizadas, o desconforto de profissionais para abordar sexualidade e a ausência do prazer como componente da saúde sexual continuam sendo algumas das principais barreiras para essa transformação.
Um novo paradigma para a prevenção

Reconhecer o prazer não significa abandonar preservativos, PrEP, PEP ou qualquer outra tecnologia de prevenção. Pelo contrário. Significa compreender que essas estratégias tornam-se mais eficazes quando dialogam com a vida real das pessoas.
Ao defender que profissionais perguntem não apenas sobre riscos, mas também sobre desejos, relações, formas de intimidade e escolhas, os participantes da sessão propuseram uma mudança de paradigma na resposta ao HIV.
Barbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




