Especialistas reunidos na Conferência Internacional de Aids defendem que o próximo desafio da prevenção ao HIV não é mais comprovar a eficácia da PrEP, mas garantir que ela chegue, sem barreiras desnecessárias, às populações que mais precisam
Depois de uma década consolidando evidências científicas sobre sua eficácia, a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) entra em uma nova fase da resposta global à epidemia. O desafio já não é provar que a estratégia funciona, mas garantir que ela esteja disponível para todas as pessoas que dela necessitam, independentemente de onde vivem, da renda, do gênero ou da forma como acessam os serviços de saúde. Essa foi a principal mensagem da sessão Desmedicalizando a PrEP, realizada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro.
Ao discutir modelos de cuidado mais acessíveis, pesquisadores e profissionais de diferentes países defenderam que ampliar a cobertura da PrEP exige repensar a forma como os serviços são organizados. A proposta não é reduzir a segurança clínica nem substituir o acompanhamento profissional, mas descentralizar a oferta da prevenção, levando-a para a atenção primária, farmácias, serviços comunitários e plataformas de telemedicina, reduzindo obstáculos que ainda afastam milhares de pessoas dos serviços de saúde.
O debate ocorre em um momento de profunda transformação da prevenção ao HIV. Ao mesmo tempo em que novas tecnologias, como a PrEP de longa duração, ampliam as possibilidades de proteção, especialistas alertam que a inovação científica, por si só, não reduzirá a epidemia. Para que essas ferramentas tenham impacto em saúde pública, será necessário rever modelos de atendimento ainda excessivamente burocráticos e concentrados em serviços especializados, aproximando a prevenção das comunidades e tornando o cuidado mais acessível.
Embora tenham apresentado estratégias diferentes, todos os palestrantes convergiram em uma mesma avaliação: o desafio atual não é convencer a comunidade científica sobre a eficácia da PrEP, mas adaptar os serviços para que as pessoas consigam acessá-la no momento em que precisam.
A sessão foi apresentada por pela dra. Ines Dourado, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e contou com a moderação de Rena Janamnuaysook, do Institute of HIV Research and Innovation, da Tailândia. Participaram como palestrantes Udom Likhitwonnawut, do VTC CAB, também da Tailândia, que abordou a importância da autonomia e da escolha na prevenção; Catherine Jebet Kiptinness, do KEMRI-CCR PHRD, do Quênia, que apresentou experiências de distribuição da PrEP em farmácias; Tristan Schukraft, fundador da plataforma de telemedicina MISTR, dos Estados Unidos, que discutiu o papel da telemedicina na ampliação do acesso; e Laio Magno Santos de Sousa, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que defendeu a atuação de enfermeiros como estratégia para expandir a cobertura da PrEP.
Mais opções, menos barreiras
Abrindo as apresentações, o pesquisador tailandês Udom Likhitwonnawut chamou atenção para um aspecto que, segundo ele, ainda recebe pouca atenção nas estratégias de prevenção: a autonomia das pessoas para escolherem como desejam se proteger do HIV.
Sua fala introduziu um dos principais conceitos que permeou toda a sessão: oferecer diferentes medicamentos e tecnologias não basta se as pessoas continuarem encontrando barreiras para acessá-los. Para os especialistas, a prevenção precisa ser construída a partir das necessidades de cada indivíduo, respeitando suas escolhas, seus contextos de vida e suas diferentes formas de relacionamento com os serviços de saúde.
Para o pesquisador, oferecer diferentes opções de PrEP é importante, mas isso, por si só, não garante o acesso. As escolhas são influenciadas por fatores como estigma, relações de poder, condições de vida, mudanças familiares, trabalho, gravidez e facilidade para chegar aos serviços de saúde.
“Não existe uma solução única que sirva para todos. Cada indivíduo é único”, afirmou. “Devemos nos concentrar nas pessoas, atender às suas necessidades e dialogar.”
A mensagem dialogou diretamente com o conceito de desmedicalização discutido durante a sessão. Segundo os participantes, desmedicalizar a PrEP não significa retirar o cuidado clínico da prevenção, mas adaptar os serviços às diferentes realidades das pessoas, tornando-os mais simples, próximos e capazes de responder às necessidades de quem busca proteção contra o HIV.
Levar a prevenção para onde as pessoas estão
A discussão sobre como aproximar a PrEP das populações que mais precisam ganhou um exemplo concreto na apresentação da farmacêutica e pesquisadora queniana Catherine Jebet Kiptinness, que mostrou como a descentralização da oferta pode ampliar o acesso sem comprometer a qualidade da assistência.
Segundo ela, em muitos países de baixa e média renda, as farmácias representam o primeiro ponto de contato da população com o sistema de saúde. Apesar disso, a oferta da PrEP permanece concentrada, em grande parte, em clínicas especializadas, exigindo deslocamentos, agendamentos e processos que acabam afastando justamente as pessoas em maior situação de vulnerabilidade.
A pesquisadora apresentou resultados de estudos realizados no Quênia que avaliaram modelos de distribuição da PrEP em farmácias privadas. Nessas experiências, farmacêuticos treinados passaram a oferecer a profilaxia seguindo protocolos padronizados, com apoio de supervisão clínica remota para os casos considerados mais complexos.
De acordo com Catherine, os resultados mostraram aumento tanto no início quanto na continuidade do uso da PrEP, além de alcançar públicos tradicionalmente menos presentes nos serviços especializados, como homens e pessoas solteiras. O modelo também apresentou redução dos custos operacionais em comparação com a estratégia baseada exclusivamente em clínicas.
Mais do que ampliar a cobertura, a experiência demonstrou que a descentralização pode preservar a qualidade do cuidado quando é acompanhada de protocolos clínicos bem definidos, capacitação das equipes e mecanismos de supervisão.
Para Catherine, muitas das barreiras que dificultam o acesso à PrEP não são clínicas, mas organizacionais.
Questões relacionadas à cadeia de suprimentos, regulamentação profissional e capacitação das equipes, afirmou, podem ser enfrentadas por meio de novos modelos de prestação de serviços, preservando a segurança do cuidado e aproximando a prevenção das comunidades.
Sua apresentação reforçou uma das mensagens centrais da sessão: a inovação na resposta ao HIV não depende apenas do desenvolvimento de novos medicamentos, mas também da capacidade dos sistemas de saúde de reorganizar seus serviços para atender melhor quem deles necessita.
O desafio já não é a ciência, mas o acesso
A necessidade de simplificar o acesso também esteve no centro da apresentação de Tristan Schukraft, fundador da plataforma de telemedicina MISTR, nos Estados Unidos.
Ao apresentar a experiência da iniciativa, responsável atualmente por cerca de 20% das prescrições de PrEP no país, Schukraft afirmou que a principal barreira para ampliar a prevenção deixou de ser a disponibilidade de medicamentos. “O desafio hoje não é a ciência, é uma questão de acesso.”
Segundo ele, consultas online, testes realizados em casa e o envio discreto da medicação eliminaram obstáculos relacionados ao deslocamento, à burocracia e ao estigma ainda associado à busca por serviços de saúde sexual.
Os resultados apresentados mostram que **77%** dos usuários da plataforma nunca haviam utilizado PrEP antes de aderirem ao serviço, enquanto mais de um terço não possuía seguro de saúde. Para Schukraft, esses números demonstram o potencial da telemedicina para alcançar pessoas que dificilmente chegariam aos serviços convencionais.
Apesar dos avanços, ele destacou que persistem desigualdades importantes. Pessoas negras, latinas e mulheres continuam sub-representadas entre os usuários da PrEP, embora sejam grupos desproporcionalmente afetados pela epidemia de HIV.
Na avaliação do pesquisador, reduzir essas disparidades exige mais do que ampliar a oferta dos serviços. É necessário construir confiança junto às comunidades, utilizando campanhas e estratégias de comunicação conduzidas por pessoas com as quais o público se identifica e estabelecendo formas de cuidado que respeitem as diferentes realidades sociais.
A experiência da MISTR reforçou outra convergência entre os especialistas presentes na sessão: a resposta à epidemia passa cada vez menos pela produção de novas evidências científicas — já amplamente consolidadas em relação à eficácia da PrEP — e cada vez mais pela capacidade de transformar esse conhecimento em acesso real, oportuno e livre de barreiras.
Enfermeiros podem ampliar a cobertura da PrEP
Encerrando a sessão, o pesquisador brasileiro Laio Magno Santos de Sousa, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), defendeu que ampliar o papel dos enfermeiros representa uma das estratégias mais promissoras para expandir a cobertura da PrEP sem comprometer a qualidade da assistência.
Segundo ele, em diversos países os enfermeiros já iniciam e acompanham o tratamento de pessoas vivendo com HIV, mas continuam impedidos de prescrever a profilaxia pré-exposição, apesar de o manejo clínico da PrEP ser, em geral, menos complexo do que o tratamento antirretroviral.
Para o pesquisador, restringir a prescrição da PrEP exclusivamente aos médicos cria barreiras desnecessárias, aumenta o tempo de espera para iniciar a prevenção e reduz a capacidade dos sistemas de saúde de alcançar pessoas em maior situação de vulnerabilidade.
Laio ressaltou que os enfermeiros já atuam na linha de frente da atenção primária, em clínicas de infecções sexualmente transmissíveis e em serviços comunitários, desempenhando um papel estratégico para ampliar o acesso à prevenção.
Esses profissionais, de acordo com Laio, podem identificar pessoas elegíveis para a PrEP, realizar a testagem para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST), iniciar e acompanhar o uso da profilaxia, monitorar possíveis efeitos adversos e facilitar o retorno ao cuidado de pessoas que interromperam o tratamento.
Na avaliação do pesquisador, ampliar as atribuições da enfermagem representa uma mudança de paradigma na organização dos serviços de saúde. Em vez de concentrar o cuidado em poucos profissionais e em centros especializados, a proposta é distribuir competências entre equipes multiprofissionais, aproximando a prevenção das comunidades e reduzindo o intervalo entre a decisão de iniciar a PrEP e o efetivo acesso ao medicamento.
Ele, no entanto, fez um alerta: essa mudança precisa ser acompanhada por protocolos clínicos bem definidos, treinamento adequado, apoio institucional, reconhecimento profissional e investimentos que garantam condições de trabalho. “Transferir responsabilidades sem ampliar recursos e valorização compromete a sustentabilidade da estratégia”, afirmou.
Ao concluir sua apresentação, Laio sintetizou o consenso construído ao longo de toda a sessão com uma frase que resume o momento vivido pela prevenção ao HIV: “A primeira era da PrEP teve como objetivo garantir sua eficácia. A próxima era deve ser sobre equidade.”
A afirmação foi recebida como uma síntese das discussões apresentadas pelos especialistas da Tailândia, do Quênia, dos Estados Unidos e do Brasil, que, sob diferentes perspectivas, defenderam um mesmo princípio: a prevenção precisa chegar às pessoas antes que elas encontrem barreiras no caminho.
O futuro da PrEP passa pela equidade
Desmedicalizar a PrEP, na avaliação dos especialistas, não significa reduzir a qualidade da assistência ou abrir mão do acompanhamento clínico. Significa reorganizar os serviços para que sejam menos burocráticos, mais próximos das comunidades e capazes de oferecer diferentes formas de cuidado, respeitando as necessidades, os contextos e as escolhas de cada pessoa.
Bárbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




