Aids 2024: Serviços digitais e educação entre pares impulsionam a integração dos serviços de HIV e saúde mental; preconceito ainda é um obstáculo

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Não há saúde sem saúde mental. A frase foi repetida diversas vezes durante um debate sobre a necessidade de integração entre serviços de saúde mental e HIV, realizado na Conferência Aids 2024, em Munique. Iniciativas digitais com uso de inteligência artificial e educação entre pares ganharam destaque nas trocas de experiência, mas também houve consenso sobre a necessidade de adequar as ações para públicos específicos.

O relatório “Integração de intervenções de saúde mental e HIV”, do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), traz uma série de dados que mostram correlações diretas entre saúde mental e HIV. De acordo com o documento, as condições de saúde mental aumentam o risco de infecção pelo HIV. Por outro lado, as pessoas que vivem com HIV têm um risco aumentado de problemas de saúde mental, e estão associadas a uma menor permanência nos cuidados de HIV.  O documento também afirma que algumas populações e regiões são mais impactadas. Estima-se que a prevalência de depressão entre pessoas vivendo com HIV na África Subsaariana seja de 24%, comparado com menos de 3% da população geral.

Apesar da comprovada a correlação entre HIV e saúde mental, as respostas a essas condições têm ocorrido de forma separada. “Precisamos integrar esses cuidados”, disse Meg Doherty, da OMS.

Como fazer essa integração?

A Diretora Associada para HIV/Aids do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Anurita Benz, destacou a importância de envolver agentes comunitários de saúde, assistentes sociais e pares como prestadores de serviços, além de usar plataformas digitais. “As plataformas digitais devem estar ligadas a serviços de suporte. Também devemos considerar quem está acessando essas plataformas digitais e quem ainda não tem acesso a elas”, explicou. Lindsay Hayden, da Fundação Elton John para a Aids, destacou que o uso de inteligência artificial (IA) deve ser criterioso. “A IA é uma ferramenta incrível para o bem, mas também acredito que devemos ter muito cuidado com o impacto das plataformas digitais entre os jovens, especialmente em relação à saúde mental.”

Tung Doan Thanh, da organização vietnamita Lighthouse Social Enterprise, apresentou o trabalho realizado em prol dos direitos LGBTQIA+. Tung explicou que a organização promove ações educativas online conectadas a serviços presenciais, como o envio de testes domiciliares para infecções sexualmente transmissíveis e o encaminhamento para clínicas de saúde. “Nossas atividades integram HIV/aids com direitos humanos e ativismo LGBTQIA+.”

ColocAção

Outro exemplo de ação que integra serviços de saúde mental e sexual é o ColocAção, do Instituto Multiverso. O projeto tem como foco a redução de danos para a prática de sexo químico (chemsex), que consiste em ter relações sexuais com o uso de substâncias recreativas. O Multiverso cria e distribui materiais de comunicação e também faz intervenções em festas de sexo. “Não há nenhum problema quando uma pessoa usa substâncias psicoativas para ter mais prazer no sexo. O problema é quando a pessoa não sabe como misturar as substâncias ou se torna dependente delas para transar”, explicou o coordenador de comunicação da ong, João Geraldo Netto.

João contou que algumas substâncias psicoativas que estão ligadas ao sexo alteram a consciência, aumentando a desinibição e a sensação de segurança. “A pessoa mais corajosa fica menos racional. Então, ela pode transar sem camisinha, fazer sexo por muito tempo e de forma mais violenta do que o que seria saudável.” Na visão dele, quando as pessoas que usam substâncias para transar precisam de ajuda, a intervenção entre pares seria a ideal. “Os pares se entendem, é como se houvesse um idioma próprio.”

Preconceito é entrave

Tanto Tung Doan Thanh, da experiência no Vietnã, quanto João, do Multiverso, afirmaram que o preconceito social impede que pessoas busquem serviços de saúde relacionados à saúde mental e ao uso de substâncias psicoativas. No caso das ações no Vietnã, a Lighthouse Social Enterprise educa jovens sobre a importância da saúde mental e intermedia o acesso a clínicas. Na experiência do Multiverso, há ações entre pares que também orientam onde procurar atendimento especializado. “O problema é que, no Brasil, substâncias psicoativas são tratadas como questão de proibição pela justiça, quando deveriam ser vistas como um assunto de saúde pública.”

Fabio Serrato

De Munique, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A Agência de Notícias da Aids cobriu esta edição da Conferência com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde e da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo. Os portais de notícias IG, Catraca Livre e a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) também receberão informações sobre o evento.

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