
Por ocasião do evento Aids 2024, o ativista e fotógrafo baiano Ton Shübber levou à Munique, na Alemanha, a exposição “DRAG-SE: Prevenção Combinada ao HIV”. Ele foi selecionado pelo coletivo Motirô Bahia para representar o Brasil na 25a Conferência Internacional da Aids no espaço denominado “Hub Latino”, que acolheu ativistas e artistas de toda a América Latina. A mostra é um convite à reflexão sobre a luta dos movimentos sociais em resposta ao HIV/Aids nos últimos 40 anos e o papel fundamental da comunidade LGBTQIAPN+ através de sua diversidade e expressão artística.
A ideia da exposição surgiu em colaboração com um grupo de drags que estava propondo fazer a defesa do SUS através da sua arte. Ton enfatiza a relevância de abordar o HIV/aids através da produção artística e cultural para combater o estigma persistente em torno da doença, afinal a epidemia já não possui o mesmo apelo comercial ou a comoção popular. “Existe um rechaço à pauta do HIV/aids devido à associação com a imoralidade e à ideia de que a doença está ligada à promiscuidade. Essa visão errônea faz com que muitas pessoas acreditem que ter um comportamento “menos promíscuo” as protegerá da infecção, o que é usado até como forma de prevenção. Nós, artistas, utilizamos a arte como uma plataforma que comunica de maneira universal, alcançando muitas pessoas ao mesmo tempo. Dessa forma, conseguimos disseminar conceitos e fundamentos importantes, mostrando que a prevenção combinada e os insumos para prevenção estão disponíveis para todos”, afirma.
Atualmente, além do preservativo externo, existem diversas opções de prevenção, como o preservativo interno, géis lubrificantes, PrEP, PEP, vacinas, testagens e o tratamento contínuo para pessoas vivendo com HIV. Essas estratégias ampliam significativamente as formas de se prevenir contra a infecção. “Se não comunicarmos essas informações, as pessoas continuarão achando que só o preservativo externo é eficaz, não acessando as políticas públicas e direitos que incluem outras formas de prevenção. A arte é uma forma eficaz de comunicar essas opções e conscientizar a população”.
O encontro com o Artivismo
Ton conta que se encontrou como artista através do artivismo, já que o trouxe um propósito claro: combater o estigma e informar sobre a prevenção do HIV/aids. Ele observa que a arte, muitas vezes considerada supérflua, mostrou seu valor durante a pandemia da Covid-19, ao proporcionar alívio durante o confinamento. Essa mesma arte tem desempenhado um papel crucial na história do combate ao HIV, especialmente desde o início da epidemia na década de 1980. “Se não fossem artistas como Madonna e as próprias drag queens, no início do boom da Aids, não teríamos a evolução que tivemos. O vírus surgiu acompanhado de um grande preconceito, especialmente a homofobia, sendo associado à comunidade LGBT como a ‘peste gay”, relembra..
Shübber destaca que, ao utilizar a arte como plataforma de comunicação, é possível disseminar informações de forma universal e acessível. A arte tem a capacidade de alcançar e educar muitas pessoas simultaneamente, promovendo conceitos fundamentais de prevenção combinada e informando sobre a disponibilidade de diversos insumos preventivos, como preservativos internos e externos, géis lubrificantes, chuvas, PrEP, PEP, vacinação, testagem e tratamento contínuo para pessoas vivendo com HIV.
Ele observa que, sem uma comunicação eficaz, a população pode erroneamente acreditar que apenas o uso do preservativo externo é suficiente, ignorando outras formas de prevenção que estão disponíveis através das políticas públicas e dos direitos de saúde. A arte, segundo Shübber, tem o poder de suavizar o tema do HIV/AIDS, permitindo uma abordagem mais leve e acessível, dissociada do medo da morte ou da infecção compulsória.
Além disso, Shübber menciona que a evolução rápida dos tratamentos não foi acompanhada por uma disseminação proporcional das informações, principalmente devido ao preconceito. Ele acredita que a arte pode funcionar como um meio eficaz para superar essa lacuna, possibilitando que as pessoas compreendam que é possível viver uma vida plena e saudável, mesmo convivendo com o HIV, e que a prevenção é multifacetada e acessível a todos.
Para ele, o mais especial que traz de volta ao Brasil foi levar à Munique, através de sua arte, um grupo formado por pessoas de diversas trajetórias de sua cidade natal, Salvador, e que contribuem de maneira significativa para a proteção e o apoio coletivos. “Cresci enquanto ativista lá, ajudando as pessoas da minha comunidade LGBT e também as outras pessoas fora da comunidade, mas que estavam atreladas à pauta do HIV/Aids, nesse insistente combate contra o estigma”, explicou.
Mais do que fotografias: Uma história de vida e superação
Aos 37 anos, Ton Shübber carrega uma história de vida marcada pela superação do estigma que atinge pessoas que vivem com HIV (PVHIV). Diagnosticado em 2017, ele encontrou no “artivismo” (ativismo + arte) a principal ferramenta para transformar sua experiência em algo positivo e inspirador. Através da fotografia, ele se aproximou das artistas transformistas da cena soteropolitana, o que possibilitou a criação do “ColetHIVo Drag X – Drag Queens em Defesa do SUS”. Esse grupo de artistas da cultura drag queen funciona como uma tecnologia pedagógica, disseminando conhecimento e combatendo o preconceito através da arte.
A exposição fotográfica “DRAG-SE: Prevenção Combinada do HIV” vai muito além da beleza estética característica da cultura brasileira e do universo drag. As fotografias conceituais são protagonizadas pelas artistas Ferah Sunshine, Towanda Verde Frita e Verenna Drag, que produziram roupas e maquiagens inspiradas na “Mandala da Prevenção Combinada”, incorporando em suas montações insumos de diferentes métodos preventivos, como preservativos, pílulas e seringas. Mais do que celebrar a diversidade, a exposição serve como uma tecnologia educativa, tornando a Prevenção Combinada do SUS acessível e visualmente atrativa.
O projeto recebeu apoio da Coalizão Baiana dos Movimentos Sociais em HIV/Aids, RNP+ Bahia, GAPA/BA, Motirô BA, HTLVida, Fervo 2k20, Atração Bahia, Site Dois Terços, Dezembro Vermelho Salvador, Umbrella Consultoria e Queen Lounge – MG, SN.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)
Foto de capa: Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA
* A Agência de Notícias da Aids cobriu esta edição da Conferência com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde e da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo. Os portais de notícias IG, Catraca Livre e a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) também receberão informações sobre o evento.
Dica de entrevista
Ton Shübber
E-mail: t.shubber@gmail.com
Instagram: @ton_shubber


