Aids 2024: Especialistas discutem estratégias de comunicação para divulgar conceito de I=I ao redor do mundo

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Neste sábado (20), o centro de exposições de Munique que sediará a Aids 2024 a partir de segunda (22) recebeu alguns debates no que é conhecido como Pré-Conferência. Conduzida por Bruce Richman, Diretor Executivo e Fundador da Prevention Access Campaign “U=U” dos Estados Unidos, a mesa “Esta é a nossa vez como PVHIV: usando o I=I como uma estratégia vantajosa para garantir a saúde, os direitos e a dignidade das Pessoas Vivendo com HIV (PVHIV)” reuniu diversos ativistas do mundo para discutir possibilidades de expandir o conhecimento das populações ao redor do mundo sobre o conceito de “indetectabilidade igual a intransmissibilidade” do vírus do HIV.

Os dados mais recentes sobre a epidemia de Aids mostram que investir na saúde e bem-estar das pessoas que vivem com HIV não só as beneficia, mas também representa um grande ganho social, econômico e de saúde pública para as comunidades e países. O conceito de I=I (Indetectável=Intransmissível) é um argumento poderoso na defesa do acesso universal ao tratamento e cuidado do HIV, incluindo a luta contra a criminalização do HIV, que é injusta e prejudica a saúde pública. Falar sobre I=I é uma maneira eficaz para tratar as pessoas com HIV com dignidade e para romper as barreiras que dificultam o acesso à informação, ao tratamento e ao cuidado, com o objetivo de salvar vidas e acabar com novas transmissões. A pergunta que foi feita aos ativistas presentes foi:
“como podemos usar esse fato científico notável para fortalecer nossa defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV?”

Para Bruce Richman, os próximos passos para atingir os objetivos de difusão de I=I são:  comunicar de forma clara e inequívoca que a carga viral indetectável (ou <200 cópias/mL) significa risco zero de transmissão sexual; oferecer orientação e conforto para pessoas com carga viral entre 200 e 1.000 cópias/mL, o que significa que o risco “Quase zero” ou “Negligível”; e utilizar todas as opções de teste de carga viral para priorizar o acesso amplo, já que a carga viral indetectável pode ser confirmada por um resultado indetectável em qualquer teste ou tipo de amostra pré-qualificado pela OMS, incluindo amostras de sangue seco. Ele também afirma que I=I é um divisor de águas na resposta ao HIV, já que aumenta a qualidade de vida das pessoas, reduz o estigma, promove o alcance das metas 95-95-95, e colabora na luta contra as leis e práticas discriminatórias.

Sobre o fato de que diversos países da África não disponibilizam o teste de carga viral a seus cidadãos por não querer fazer o investimento financeiro necessário para tal, a ativista sulafricana Mandisa Dukashe afirmou que esse exame é um direito que beneficia não somente as pessoas vivendo com HIV, mas toda a sociedade. “Se o governo está investindo bilhõesem tratamento, o exame de carga viral irá informar se esse dinheiro está trazendo algum retorno”.

Florence Riako Anam, Gerente de Programa da Love Alliance da Global Network of People Living with HIV (GNP+), lembrou que muitos países preferem não investir no tratamento antiretroviral com a desculpa que é muito caro, mas que muitas meninas e mulheres da africa subsariana cotinuam se infectando de maneira massiva. “De fato, o uso de preservativos é uma forma muito econômica de prevenir a transmissão, mas a realidade é que os preservativos não são o método mais eficaz para prevenir o HIV porque as pessoas não usam preservativos. O que sabemos é que investir em tratamento para que os indivíduos alcancem uma carga viral indetectável é a maneira mais eficiente de prevenir a transmissão. É 100%, é risco zero”.

Ian Green, presidente da Salisbury NHS Foundation Trust, recordou que foi na Conferência de Durban em 2016 o anúncio da primeira parte do estudo Partner em que se constatou o I=I. Na época, ele era CEO da Terrence Higgins Trust, que foi a primeira organização global a divulgar o conceito. “Todos precisam saber que alguém em tratamento eficaz com carga viral indetectável não pode transmitir o vírus. Já na época, observamos que isso reduz o estigma e desafia leis discriminatórias. Por exemplo, graças ao trabalho da Terrence Higgins Trust, alguém com HIV pode se juntar às forças armadas do Reino Unido se tiver uma carga viral indetectável e pode pilotar aviões comerciais, o que antes não era possível”. Entretanto ele foi enfático: “o mais importante é garantir que a mensagem chegue ao público, pois sabemos que I=I, mas o público em geral às vezes tem dificuldade de entender isso. Divulgar essa mensagem em diferentes fóruns ajudará a combater o estigma e mudar a percepção que os outros têm de nós”. Ele ainda menciona quer atualmente, na tv britânica, há uma série chamada East Enders em que um dos personagensmfoi diagnosticado com HIV. “Pela primeira vez na TV britânica, I=I foi mencionado como parte importante da história e, agora, cerca de 40% das pessoas no Reino Unido já ouviram falar de I=I, de acordo com pesquisas de opinião”.

 

O jornalista de saúde e editor-sênior do TheBody.com Juan Michael Porter II afirmou que para que cada vez mais pessoas revelem seu status de HIV, é preciso que isso seja seguro. “Como conseguimos garantir segurança para as pessoas falarem publicamente que vivem com hiv? Agindo, reagindo, fazendo barulho, flertando, atuando com coragem. E assim as pessoas nos ouvem enquanto defendemos e dizemos: Eu estou aqui. Eu mereço estar aqui e não vou a lugar nenhum. Eu sou negro, gay, vivendo com HIV, tuberculose ou qualquer outra coisa. E você diz a todos que encontra, ao seu pastor da igreja, ao político, à sua mãe, seus professores, até que eles todos estejam tão envolvidos com o conceito de I=I que não consigam pensar em mais nada além de ‘Wow, I=I, você resalmente não pode transmitir, então eu de fato não preciso me preocupar com as pessoas vivendo com HIV. Não é tão simples. Eu sei que não vai acontecer da noite para o dia, mas também sei que, neste momento, estamos parados, lentamente pedindo para ser aceitos. E quero pedir a todos vocês agora, não peçam, exijam”!

Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)

* A Agência de Notícias da Aids está cobrindo esta edição da Conferência com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde e da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo. Os portais de notícias IG, Catraca Livre e a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) também receberão informações sobre o evento.

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