Aids 2024: Ativismo latino-americano se fortalece em Munique com o Hub Latino, reivindicando maior visibilidade para a região

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De iniciativa da ONG baiana Motirô, estande foi criado para conectar instituições brasileiras com outras da América Latina, oferecendo um ponto de encontro para ativistas da região.

Este ano, o espaço dedicado à sociedade civil e pessoas vivendo com HIV da Conferência Internacional de Aids, Global Village, contou com uma novidade marcante: o Hub Latino, um estande criado para conectar instituições do Brasil com outras da América Latina e proporcionar um ponto de encontro para ativistas da região. Henrique Ávila, ativista baiano e coordenador do Centro de Serviços Chica Manicongo em Salvador, compartilhou a trajetória e o impacto dessa iniciativa.

“O Hub Latino foi a ideia da gente conectar o movimento do HIV/aids do Brasil com o resto da América Latina e também ter um ponto de encontro no evento. Esta já é minha sexta conferência, eu venho de um longo caminho de ativismo desde minha descoberta do diagnóstico,” relatou. O estande também recebeu a exposição fotográfica “DRAG-SE: Prevenção Combinada ao HIV”, do fotógrafo Ton Shübber, que propôs um convite à reflexão sobre a luta dos movimentos sociais em resposta ao HIV/aids nos últimos 40 anos.

Psicólogo e bacharel em saúde pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Henrique enfatiza que a luta das pessoas vivendo com HIV é um caminho horizontal onde não há espaço para competição, já que a união os fortalece. “Juntos no mesmo espaço, a gente pôde discutir sobre caminhos de como ampliar a nossa participação no universo do HIV/aids, a nossa força enquanto América Latina, enquanto organizações, enquanto ativistas, e de que maneira podemos construir algo em conjunto para a nossa região”, afirmou.

No Centro de Serviços Chica Manicongo, em Salvador, Henrique coordena um projeto que fornece atendimento à população LGBT+ e pessoas vivendo com HIV, como apoio psicológico, suporte jurídico, encaminhamento para o mercado de trabalho e orientação profissional. O ativista ressaltou a necessidade de parcerias para aumentar a participação de latino-americanos em eventos como a Conferência Internacional de Aids. “Sabemos que é um evento que fala inglês, e na nossa região, nem todo mundo tem acesso. As populações-chave estão ligadas a pessoas com pouca renda e historicamente marginalizadas.”

O Hub Latino no Global Village em Munique simbolizou a união e a força coletiva dos ativistas latino-americanos, destacando a diversidade, energia e potencial da região. “É muito importante mostrar a cara da América Latina para todo mundo, para que entendam como somos essas cores e esses sabores,” concluiu Henrique.

Confira os depoimentos de alguns ativistas da América Latina que participaram do espaço no Global Village:

Matias Mendieta, Paraguai

“Para mim, é muito importante ter participado como representante de um país que geralmente não figura em questões de direitos humanos, por ser governado por pessoas que ainda não entendem que sem direitos humanos garantidos não se pode haver desenvolvimento real dos territórios e das pessoas. Como jovem e pessoa vivendo com HIV, minha participação no Global Village da Conferência Internacional de Aids 2024 foi necessária e valiosa. Conheci pessoas, estabeleci redes de contato, troquei experiências e observei como minha luta se complementa com as ações globais. Além disso, o que faço pode ser um exemplo, e aprendi muito com as experiências de outras pessoas ao redor do mundo. Foi uma experiência extremamente enriquecedora!”

Liam Winslet, Equador

“Sou uma mulher trans latinx, ativista, trabalhadora sexual, pessoa vivendo com HIV, imigrante e morando em Nova York. Esta não é minha primeira Conferência; na verdade, é a sexta onde posso fazer conexões com outros ativistas da região e do mundo. É crucial essa representação como mulher trans, trabalhadora sexual, migrante e pessoa vivendo com HIV, pois permite visibilizar as necessidades da nossa comunidade, que trabalha arduamente em todo o mundo e na América Latina, especialmente para desestigmatizar e descriminalizar o HIV. Participar da Conferência me possibilita discutir a importância dos testes de HIV abertamente, sem preconceitos, criando um ambiente seguro. Enfrentamos desafios como imigrantes trans em Nova York, lidando com discriminação e vulnerabilidade. Criar espaços saudáveis para discutir e educar sobre nossos direitos e identidades é essencial. A experiência no evento foi magnífica, abrindo portas para mais líderes latinos. Esperamos que a próxima conferência seja na América Latina, permitindo uma maior participação da comunidade Latinx.”

Alejandro Czernikier, Argentina

“Desde a ascensão de Javier Milei à presidência da Argentina, os setores públicos de Saúde, Ciência e Educação têm sofrido cortes orçamentários severos. Para o sistema científico argentino, isso é praticamente uma sentença de morte, já que depende majoritariamente de financiamento estatal. Muitas pesquisas na área de ciência básica, que não são facilmente financiadas por outros setores, estão paralisadas. A redução de 56% no orçamento do ano passado afetou projetos relacionados à resposta ao HIV/Aids, que foram congelados. A Argentina e a América Latina estão em desvantagem na resposta ao HIV, especialmente em pesquisas para uma cura. Acreditamos que a pesquisa deve ser conduzida também pelos países periféricos, que não devem se limitar a fornecer amostras biológicas ou ser locais de testes experimentais. É crucial desenvolver respostas locais para a epidemia, considerando as particularidades regionais do vírus.”

Mário Campos, El Salvador

“Tenho 28 anos e sou de El Salvador. Vivo em Washington, D.C., nos Estados Unidos, há 7 anos e, de lá continuo a atuar pelo meu país. Foi uma honra e um privilégio representar El Salvador na 25ª Conferência Internacional da Aids, sendo o primeiro salvadorenho a participar. Representar nosso país e a comunidade latina, ocupando espaços e fazendo nossa voz ser ouvida, é fundamental. Minha participação também tem um impacto político, criando novas leis e projetos acessíveis a todos. A cobertura mediática em El Salvador trouxe visibilidade aos temas relacionados ao HIV, permitindo discussões e maior conscientização. Em El Salvador, há pouco debate sobre HIV, e a falta de informação dificulta o acesso a serviços para a comunidade LGBTQ e pessoas vivendo com HIV. Minha presença na conferência abre espaço para discussões políticas, promovendo saúde sexual e prevenção. Planejo criar projetos para que El Salvador faça parte da rede contra a discriminação ao HIV/aids. É essencial que médicos e a sociedade falem abertamente sobre esses temas, promovendo educação e combatendo estigmas. Conhecimento e educação são poderosos e podem tirar um país do estancamento econômico, político e social.”

Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)

* A Agência de Notícias da Aids cobriu esta edição da Conferência com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde e da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo. Os portais de notícias IG, Catraca Livre e a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) também receberão informações sobre o evento.

Dicas de entrevista:

Henrique Avila

E-mail: motirobahia@gmail.com

Matias Mendieta

E-mail: mendieta.dani12@gmail.com

Liam Winslet

E-mail: winslet@ourvoicesarefree.org

Alejandro Czernikier

E-mail: a.czernikier@gmail.com

Mário Campos

E-mail: mariocampos.lopez1995@gmail.com

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