Aids 2024: Ampliação do acesso à PrEP depende da criação de serviços inovadores com as comunidades

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

 

Desde que a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) foi recomendada pela primeira vez –  em 2012, nos EUA – ela tem sido direcionada para os mais vulneráveis ao HIV. Com o passar dos anos, os serviços de PrEP expandiram mundialmente. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2021, 144 países relataram ter adotado as recomendações da OMS sobre PrEP oral nas diretrizes nacionais. Apesar dessa ampliação, o acesso de populações-chave a PrEP continua sendo um desafio. Financiadores de saúde, ministérios da saúde e representantes de comunidades discutiram na Pré-conferência de Aids 2024, em Munique, os desafios para promover a equidade no acesso à PrEP.  A Pré-conferência foi realizada este sábado e domingo, e a Conferência ocorre ao longo da semana, até o dia 26.

Participaram das discussões neste domingo representantes do Fundo Global de Luta Contra a Aids, Tuberculose e Malária (Suíça), do Plano de Emergência do Presidente dos EUA para a Luta Contra a Aids (PEPFAR) e da Fundação de Investimento em Crianças (CIFF, do Reino Unido), entre outros. Os principais debates foram as barreiras para expandir o acesso à PrEP, como o desafio de encontrar equilíbrio entre custo-efetividade e equidade ao planejar e executar políticas de saúde. Também houve apresentações de casos considerados inovadores e críticas às formas como ensaios clínicos para a implementação de serviços são planejados e executados.

Uma das formas de ampliar a equidade no acesso à PrEP, de acordo com os debatedores, é incluir a participação de comunidades-chave nos processos de criação e execução de serviços. O diretor do Programa de HIV do Quênia (NASCOP), Jonah Onentiah, enfatizou que não existe um modelo único de oferta e PrEP que atenda à demanda de todas as populações. “É preciso cocriar serviços diversificados com as comunidades”, disse. “Criar inovações envolve identificar subpopulações, incluí-las, co-criar, co-desenhar a intervenção e, então, ser capaz de implantá-las e implementá-las”.

Diferentes debatedores citaram ações e políticas que contam com a participação de comunidades e ampliam serviços de oferta à PrEP em várias partes do continente africano. Por exemplo, clínicas móveis, serviços online via WhatsApp, e, em relação a meninas e mulheres jovens, a articulação de serviços com seus parceiros, pais, professores, pastores e outros membros da comunidade.

Em relação às críticas de como como estudos para implantação de serviços de saúde são conduzidos e às formas de evidências que são aceitas nesses estudos, Chris Obermeyer, do Fundo Global, defendeu “mudanças radicais”. Para ele, “muitas vezes, os estudos são organizados de forma que duram vários anos, com alguns resultados intermediários que poucas vezes divulgados”. Para Obermeyer, é possível integrar feedbacks de participantes aos ensaios para acelerar a implantação de programas. “Não precisa necessariamente ser um estudo de vários anos com o mesmo número de pessoas no ensaio. Poucos meses seriam suficientes. Pausamos, aprendemos. Ampliamos para que se tenha um caminho para a oferta de serviços que vão trazer as reduções de custo que todos nós desesperadamente queremos ver”.

A critica de Chris foi ecoada por Robyn Eakle, da PEPFAR, que afirmou ser preciso encontrar maneiras de otimizar ensaios clínicos. “Precisamos superar isso de alguma forma. Como poderíamos produzir mais rapidamente e eficientemente evidências que serão aceitas e depois incorporadas em políticas que as pessoas irão adotar sem exigir ensaios clínicos randomizados de três ou cinco anos?”.

Divergências sobre a condução de testes clínicos e as formas de evidência cientificas que são validas vieram à tona recentemente no processo de implantação da PrEP na Inglaterra. Em 2014, a Unidade de Ensaios Clínicos do Conselho de Pesquisa Médica (MRC CTU) e a Saúde Pública da Inglaterra concluíram o estudo piloto PROUD. A pesquisa comprovou que as clínicas de saúde sexual do país facilmente adaptaram a PrEP em sua rotina de prevenção ao HIV, que houve redução de 86% das chances de infecção por homens que fazem sexo com homens e que o serviço seria custo-efetivo. Apesar disso, em meio a uma disputa na Corte inglesa sobre quem seria responsável pela implantação da PrEP – o serviço nacional de saúde (NHS) ou as subprefeituras – o NHS iniciou um ensaio clínico de três anos chamado Impact, com o objetivo de financiar a PrEP para 10.000 pessoas para estabelecer como a rotina de implantação da PrEP deveria ocorrer. Para ativistas do movimento de aids, parte de pesquisadores e profissionais de saúde, não havia razão para esse novo ensaio clínico. Porém, de acordo com informações do site oficial do NHS publicadas em 2016, “o serviço público de saúde inglês destacou questões significativas de implementação pendentes que devem ser respondidas antes de usar a PrEP de forma sustentada em uma escala substancial na Inglaterra. Estas questões serão respondidas pelo ensaio clínico, abrindo caminho para uma implantação completa”.

Outros debates sobre a ampliação da oferta da PrEP estarão presentes ao longo da Conferência, e a Agência Aids vai acompanhar as discussões.

Fabio Serrato

De Munique, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A Agência de Notícias da Aids está cobrindo esta edição da Conferência com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde e da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo. Os portais de notícias IG, Catraca Livre e a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) também receberão informações sobre o evento.

 

Apoios