Nem a chuva que esteve presente na capital paulista praticamente o dia inteiro, nem o frio que também fez parte do cenário deste domingo, impediram que os muitos amigos e amigas fossem homenagear o médico Paulo Roberto Teixeira que foi velado entre 10 e 14 hs, no Cemitério do Araçá, em São Paulo.Um momento ímpar de reencontro, boas lembranças e honrarias. Cada amigo, amiga colaborador, pessoas que encontraram e puderam trabalhar com o Dr. Paulo, lembraram de importantes e bons momentos da convivência com ele. Generoso, elegante, atento, dando força para que a idéia ou intenção de um novo projeto saísse do papel e virasse política pública. Assim, as lembranças e as muitas histórias foram descritas. Assim Paulo Roberto foi reverenciado, consagrado e lembrado pelos que foram se despedir. Não houve um culto religioso. Paulo era ateu. Os amigos foram falando sobre a importância dele na história de cada um. Sua distinção e bom gosto foram evidenciados,
”Quando assumi a diretoria do Depto. de Aids, passei a usar terno e gravata, como o Paulo fazia”, comentou o médico Fábio Mesquita. “ Devemos ao Paulo o fato do Brasil não ter índices alarmantes como a África tem quando falamos sobre as infecções pelo HIV. Além de visionário, ele foi consequente, ousado, lúcido e corajoso ao insistir e teimar em construir um Programa de Aids, a partir de São Paulo”, disse a colega de profissão Marinella Della Negra. “ O Paulo não mediu esforços para tornar a idéia inicial de criar um Programa, realidade. Conversou muito nos gabinetes, nas outras chefias e mostrou com dados e argumentos inteligentes e concretos a importância da organização oficial de um Programa, até convencer o próprio Secretário de Saúde, na época”, lembrou a amiga e disciípula Maria Clara Gianna. Dra. Rosana Del Bianco, foi mais uma amiga que falou para homenagear Paulo Roberto. Ela coordenou diretamente as enfermeiras e os cuidados paliativos que o colega recebeu. Ele morreu em casa, assistido pela própria médica. Ela lembrou que, nos anos 80, início da epidemia, no Hospital Emílio Ribas, outros médicos e profissionais de saúde chegaram a não cumprimentá-la e “ao Paulo por medo de se infectarem. Trabalhamos muito para conseguir quartos aonde os pacientes com HIV fossem acolhidos e tratados . Depois conseguimos que uma rede de cuidados fosse formada e expandida em outros hospitais públicos”. Eduardo Barbosa, do Movimento Paulistano de Luta Contra à Aids, ressaltou “o respeito, carinho e gratidão”que o movimento brasileiro sempre nutriu pelo dermatologista. Terezinha Pinto relembrou que “ o Paulo sempre nos deu força para realizarmos o Educaids”, encontros com professores e educadores que trazia o tema prevenção e acolhimento para profissionais da rede pública de ensino. A cada testemunho feito, respeito, deferência e agradecimento pela entrega e trajetória construídas.
“O SUS para os que não conseguem”
Paulo Roberto Teixeira enfrentou a dependência do álcool, em seu cotidiano, nos últimos anos de vida. Um dos depoimentos mais contundentes veio do amigo Alexandre Grangeiro, que substituiu-o à frente do Departamento de Aids no Ministério da Saúde. O pesquisador lembrou que Paulo preferiu, depois de internações, tratamento domiciliar por considerar as abordagens “violentas” e dizia ao amigo, de mais de quarenta anos, que existe um desafio presente a ser considerado e resolvido : a construção “do SUS para os que não conseguem”. Em sua brilhante, amorosa, generosa e visionária trajetória, Paulo Roberto Teixeira deixou ensinamentos e ideias, projetos que viraram políticas públicas. Trouxe também provocações, desejos e desafios. Como este que o pesquisador Alexandre, ao se despedir do amigo, revelou para todos nós: o amparo pelo Sistema Único de Saúde para as patologias que, como a aids, carece sempre de acolhimento, compreensão e empatia. Jamais de julgamentos.Paulo Roberto Teixeira: um homem que viveu, sempre, muito à frente de seu tempo!
Roseli Tardelli, Redação Agência Aids
Galeria de fotos:
As imagens são do arquivo pessoal da psicóloga Emi Shimma e foram cedidas para publicação.
Com Arthur Kalichaman durante Campanha Fique Sabendo, na Avenida Paulista

Na cerimônia de celebração dos 25 anos do CRT/Aids de SP

Com os médicos Louis Loures, Rosana Del Bianco e Pedro Chequer: 25 anos do CRT

No lançamento do livro Histórias da Aids no Brasil

Outro momento do lançamento com a co-autora ,a socióloga Lindinalva Teodorescu

Com as colaboradoras e amigas durante o lançamento

No mesmo lançamento, com Emi Shimma




