Agência Einstein: Autocoleta pode ampliar prevenção do câncer de colo do útero

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Medida já adotada em outros países para detectar HPV mostrou desempenho semelhante ao da coleta em consultório; A cada minuto uma pessoa é diagnosticada no mundo com um câncer associado ao vírus

A possibilidade de coletar em casa amostras de urina e material vaginal para a detecção do HPV (papilomavírus humano) pode se tornar uma estratégia importante na prevenção do câncer de colo do útero.

Um estudo liderado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e publicado no periódico Clinics indica que essas formas de autocoleta são viáveis, confiáveis e apresentam desempenho muito semelhante ao da coleta cervical (papanicolau) feita por profissionais de saúde. Embora seja altamente prevenível por meio da vacinação contra o HPV e da realização de exames de rastreamento, o câncer de colo do útero ainda causa milhares de mortes no país.

Segundo a Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), a cada minuto uma pessoa é diagnosticada no mundo com um câncer associado ao HPV. No Brasil, cerca de 19 mulheres morrem por dia em razão da doença, sendo o câncer que mais mata mulheres de até 36 anos no país.

Para avaliar alternativas que ampliem o acesso ao rastreamento, a pesquisadora Lara Termini, do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), em parceria com o ginecologista Gustavo Maciel, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), recrutou 100 mulheres com mais de 21 anos. A maioria tinha entre 30 e 39 anos e havia sido encaminhada por UBSs (Unidades Básicas de Saúde) para a realização de colposcopia, devido à presença de lesões de alto risco ou já identificadas como câncer.

No total, foram realizadas três coletas sequenciais: a de urina e a de material vaginal, feitas pelas próprias participantes, e a coleta cervical, conduzida por um médico. Antes do procedimento, todas assistiram a um vídeo educativo com orientações detalhadas e responderam a um questionário para garantir a compreensão das etapas e aumentar a adesão ao estudo.

As amostras obtidas foram analisadas para a detecção do HPV de alto risco oncogênico. Os resultados mostram que tanto a autocoleta de urina quanto a vaginal apresentaram concordância muito alta com a coleta tradicional realizada pelos médicos, inclusive para a identificação do HPV16, um dos tipos mais associados ao câncer de colo do útero.

“Nossos achados indicam que a autocoleta representa uma estratégia mais inclusiva e acessível, pois permite que qualquer pessoa com útero realize a coleta de forma autônoma, fora do ambiente clínico”, afirma Lara Termini. Fatores como medo, dificuldade em acessar os sistemas de saúde, falta de tempo, aspectos culturais e religiosos estão entre os que impedem muitas pessoas de fazerem o exame.

Entre as participantes, a coleta de urina foi a metodologia mais aceita, associada a maior conforto e menor constrangimento. Ainda assim, ambos os métodos de autocoleta tiveram alta aceitabilidade quando comparados ao exame ginecológico convencional, reforçando o potencial dessas estratégias para alcançar pessoas que hoje não realizam o rastreamento regularmente.

A autocoleta vaginal, em especial, já vem sendo utilizada de forma estruturada em diversos países com programas organizados de rastreamento. Holanda, Austrália, Suécia e Dinamarca estão entre as nações que incorporaram a estratégia aos sistemas nacionais de saúde, com impacto positivo comprovado na ampliação da cobertura populacional. Ainda não há previsão de quando estará disponível no Brasil.

“Esse tipo de iniciativa é muito relevante, pois há um movimento da Organização Mundial da Saúde [OMS] e de outras instituições que visam a erradicação do câncer do câncer de colo de útero até 2030 a partir de alta cobertura vacinal, capacidade de diagnóstico e tratamento”, ressalta o ginecologista Renato Moretti, do Einstein Hospital Israelita.

Rastreamento no Brasil

Em agosto de 2025, o SUS (Sistema Único de Saúde) passou a incorporar o teste molecular para detecção do HPV como estratégia de rastreamento do câncer de colo do útero. Segundo o Ministério da Saúde, essa tecnologia é considerada inovadora por permitir a identificação de alterações precursoras até dez anos antes do que o exame de papanicolau.

A nova metodologia está sendo implantada de forma gradual e, no futuro, deverá substituir o exame citopatológico tradicional.

A ideia é que a autocoleta vaginal também seja uma ferramenta para ampliar o acesso e a cobertura dos exames no país. A estratégia pode beneficiar mulheres com menor acesso aos serviços de saúde, desde que seja acompanhada de fluxos bem definidos para o cuidado das pacientes com resultados alterados. “Esse estudo dá abertura para novas investigações feitas em ambientes adequados e abre espaço para mulheres com menos acesso aos métodos de rastreamento do câncer do colo uterino”, comenta Moretti.

A OMS estima que, sem ações preventivas, o câncer de colo do útero pode se tornar responsável por cerca de 411 mil mortes no mundo até 2030. O tumor costuma evoluir de forma silenciosa em seus estágios iniciais, o que faz com que muitas mulheres não procurem atendimento médico precocemente. Por isso, a prevenção é fundamental e passa por diferentes estratégias.

A principal delas é a vacinação contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 19 anos. O uso de preservativos nas relações sexuais, a adoção de hábitos de vida saudáveis, como evitar o tabagismo e o consumo de álcool, e a realização regular de exames ginecológicos também ajudam a reduzir o risco da doença.

Mesmo mulheres vacinadas devem manter o acompanhamento periódico com ginecologista, já que o rastreamento é essencial para identificar alterações precocemente e garantir tratamento adequado.

Apoios