ADOLESCENTES USUÁRIOS DE DROGAS SUBESTIMAM O RISCO DA AIDS; PARA 95% DOS MENINOS E 70% DAS MENINAS NÃO EXISTE A CHANCE DE INFECÇÃO PELO HIV, SEGUNDO PESQUISA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

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25/12/2006 – 19h10

Isso nunca vai acontecer comigo. Pode-se resumir com essa frase uma das conclusões a que chegou uma pesquisa sobre comportamento sexual dos adolescentes usuários de drogas psicotrópicas (sustâncias que alteram, de alguma maneira, a nossa psique). Segundo dados da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre os usuários do sexo masculino, 95% afirmam não haver risco de contaminação pelo HIV em suas relações sexuais. No caso das usuárias, essa porcentagem é um pouco menor, mas, ainda assim, assustadora: 70% acreditam que a Aids não faça parte da sua realidade. Mesmo entre os não-usuários, 84% afirmam não se sentirem ameaçados pelo risco de infecção.

“A pesquisa foi uma forma da gente conhecer melhor a população com a qual estava lidando”, explica o estudante do 5º ano de medicina da Unifesp, Thiago Marques Fidalgo, sobre a motivação para a realização da pesquisa. Fildalgo (22 anos), ele próprio recém-saído da adolescência, trabalha no Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), serviço ligado ao Departamento de Psiquiatria da Unifesp que trata de dependentes de substâncias lícitas ou ilícitas. O estudo, que contou com o apoio dos pesquisadores Evelyn Doering da Silveira e Dartiu Xavier da Silveira, é “parte” do seu “projeto de iniciação científica”.

Outro dado importante da pesquisa, segundo Thiago Marques Fidalgo, é o fato de que os usuários de drogas psicotrópicas têm quatro vezes mais parceiros e relações sexuais. “Apesar de o índice do uso de camisinhas não diferenciar muito entre os grupos, 55% contra 58%, respectivamente, os usuários estão mais expostos às doenças sexualmente transmissíveis justamente por apresentarem maior número médio de parceiros e de relações e, assim, menor uso proporcional do preservativo”, conclui Fidalgo. Nos dois grupos pesquisados, usuários e não-usuários, apenas 15% dos entrevistados já realizaram teste de HIV após o início da vida sexual.

O estudo, apresentado no Congresso Mundial de Psiquiatria (realizado no Cairo, capital do Egito) do ano passado, analisou 84 adolescentes com idades médias entre 15 e 18 anos (na época da pesquisa). Desses, 43 jovens eram de não-usuários, enquanto o restante era de dependentes químicos em tratamento no próprio Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad). “A gente entregou diversos questionários em escolas. A nossa preocupação era de sempre fazer essa separação [entre usuários e não-usuários]”, explica o ainda estudante de medicina Thiago Marques Fidalgo. Entre os não usuários, todos alunos de escolas da região da Vila Mariana (zona sul de São Paulo), o início da vida sexual foi entre 14,5 e 15,5 anos. Os dependentes químicos começam a vida sexual mais cedo: entre 13 e 14 anos.

Dentre os pesquisados, 52% dos não-usuários do sexo masculino já tiveram relações sexuais. No caso dos usuários de drogas psicotrópicas, esse percentual alcança 97%. Entre as mulheres, apenas 20% das não-usuárias já tinham iniciado a vida sexual (na época do levantamento), contra 80% das usuárias. “O sexo preenche uma lacuna entre os usuários. Eles procuram o autoconhecimento e uma imagem do que desejam ser. O torpor causado pela substância e pelo desejo de atingir a plenitude pode levá-los a uma vida sexual extremamente ativa e, conseqüentemente, a desenvolver comportamentos de risco”, explica Thiago Fidalgo. Ele ressalta que, “nos outros parâmetros”, os dois grupos pesquisados “são bem parecidos”. “A questão da sexualidade é uma questão da adolescência”, afirma Fidalgo.

Léo Nogueira

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