Pesquisa mostrou que tratamento aplicado a cada dois meses foi eficaz e bem aceito por jovens de 12 a 17 anos
Tomar um comprimido todo dia parece simples. Mas, para um adolescente vivendo com HIV, esse gesto carrega muito mais peso do que parece. Existe o medo de ser visto, o estigma de ter que explicar, a rotina que falha, a fase da vida que desafia qualquer rotina. E é justamente aí que uma novidade científica pode fazer muita diferença.
Um estudo inédito, chamado IMPAACT 2017 (MOCHA), conduzido pela ViiV Healthcare e apresentado pela GSK no Brasil, testou pela primeira vez um tratamento injetável de longa ação em adolescentes com HIV e chegou a um resultado expressivo: 97% dos jovens participantes preferiram a injeção ao comprimido diário. E o melhor: o tratamento funcionou.
Como o estudo foi feito
A pesquisa acompanhou 144 adolescentes entre 12 e 17 anos que já estavam com o vírus controlado. Todos trocaram o remédio oral diário por uma injeção aplicada a cada dois meses, com a combinação de dois medicamentos: cabotegravir e rilpivirina.
O acompanhamento durou 96 semanas, o equivalente a quase dois anos. Ao final, 94,4% dos jovens mantiveram o vírus suprimido, sem nenhum caso de falha no tratamento. E, quanto à preferência, o número só cresceu com o tempo: na semana 96, 100% dos participantes disseram preferir a injeção.
A adolescência é uma fase de muita mudança. Identidade, grupo, independência, novos vínculos. Nesse contexto, tomar um remédio todo dia pode parecer um peso enorme, especialmente quando envolve uma condição que ainda carrega preconceito.
“O estigma associado ao uso diário de medicamentos pode, em alguns casos, impactar negativamente a continuidade do tratamento. Os resultados do estudo mostram que o regime injetável de longa ação foi amplamente aceito por essa população, com alta preferência em relação à terapia oral diária”, afirma o infectologista Ricardo Diaz, professor e pesquisador da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.
Menos frequência de uso pode significar mais adesão. E mais adesão significa manter a carga viral indetectável. No campo da saúde pública, isso tem um nome importante: indetectável é igual a intransmissível.
“Cada adolescente que adere ao tratamento injetável nos coloca mais próximos de interromper a cadeia de transmissão e avançar rumo às metas globais de controle do HIV”, destaca o infectologista Rodrigo Zilli, diretor médico de Vacinas e HIV da GSK Brasil.
Os efeitos colaterais
O tratamento foi bem tolerado pelos jovens. Os efeitos mais comuns foram tosse, dor de cabeça e dor leve no local da injeção. Em geral, os desconfortos foram passageiros e de intensidade leve a moderada, sem registros de complicações graves.
E as crianças menores?
Outro estudo apresentado no mesmo evento, o IMPAACT 2036, está testando o mesmo tratamento injetável em crianças de 2 a 11 anos. Os dados ainda são preliminares, mas os primeiros resultados mostram que o medicamento se comportou de forma semelhante ao observado em adolescentes e adultos, sem sinais de segurança novos ou inesperados. Uma perspectiva animadora para o futuro do tratamento pediátrico do HIV.
Os resultados foram apresentados na 33ª Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI 2026), realizada em Denver, nos Estados Unidos.




