Acervo Bajubá: guardião da Memória LGBT+ e da epidemia de HIV/aids

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Entre 2010 e 2013, um grupo de pesquisadores de história e cultura LGBT+ deu início a uma empreitada ambiciosa e necessária: o Acervo Bajubá. Desenvolvido entre Curitiba e Brasília, o arquivo se concentra principalmente em itens que datam a partir da década de 1950, com um enfoque em materiais impressos, como livros, jornais e revistas, que documentam a existência e a vida de pessoas dissidentes de sexo e gênero nos grandes centros urbanos.  Desde 2021, a organização tem se dedicado ao projeto “Memorial Incompleto da Epidemia da Aids”, cujo objetivo é analisar os impactos sociais, políticos e culturais da epidemia de HIV/aids no Brasil.

Segundo Marcos Tolentino, educador e pesquisador no Acervo Bajubá, todos interessados podem ter acesso ao acervo. “Qualquer um pode participar de um dos mutirões de organização e catalogação, que realizamos todos os domingos na sede do Grupo de Incentivo à Vida em São Paulo, a partir das 14 horas. Além disso, é possível entrar em contato por e-mail (acervobajuba@gmail.com) para alguma consulta específica”.

O projeto também deu origem a diversas iniciativas, como a produção de áudios com mensagens anônimas a pessoas falecidas que viviam com HIV/aids, oficinas de escrita de microcontos e atividades em diversas unidades do Sesc em São Paulo. O desafio de arquivar registros sobre a epidemia de HIV/aids no Brasil é imenso, especialmente porque muitos desses materiais foram produzidos em momentos de urgência, sem a intenção de preservação a longo prazo. “Além disso, trata-se de uma memória ainda muito sensível, marcada muitas vezes pelo trauma e por perdas sociais, o que faz com que ao acessá-la encontramos alguns bloqueios, sobretudo quando produzimos relatos de história oral”, complementa Marcos.

Apesar desses desafios, o trabalho do Acervo Bajubá é de extrema relevância e tem o objetivo de contemplar a maior diversidade possível de materiais que registrem a memória das comunidades LGBT+ e os impactos da epidemia de HIV/aids no Brasil. A aquisição de itens ocorre por meio de compras em leilões e sebos, ou por doações pessoais e institucionais. A principal importância do acervo é fomentar o debate público sobre a epidemia de HIV, que ainda representa um problema social no Brasil. A coleção do Bajubá mostra como a epidemia afetou diferentes grupos da sociedade de diversas formas, registrando as imagens, os estigmas, o pânico e a violência discursiva que emergiram em resposta aos seus efeitos sociais.

Trabalhando em parceria com o Grupo de Incentivo à Vida (GIV), onde ocupa uma das salas da sede, o Acervo Bajubá realiza oficinas de escrita e publicação, que já resultaram em dois livros: “Poéticas de Vida. Escritas de Si(da)” (2022) e “Tudo o que deixei de dizer em Voz Alta” (2023). Além disso, organizam o acervo institucional do GIV. “O comentário mais comum é que é a primeira vez que a pessoa está conhecendo um arquivo. O arquivo ainda é entendido como um espaço que só é acessado por pessoas com certas formações acadêmicas. Entretanto, percebemos a importância de que um acervo comunitário como o Bajubá seja acessado pela maior variedade de perfil de pessoas, para romper com esta noção e para que as pessoas possam acessar o material que guardamos. O acesso a este material é importante para produzir outras leituras a partir do acervo e para produzir narrativas que combatam alguns estigmas que ainda temos no presente, como, por exemplo, a sorofobia|, afirma o pesquisador.

O Acervo Bajubá planeja firmar-se como um espaço de formação para a comunidade LGBT+, possibilitando que mais pessoas se integrem no mercado de trabalho e desenvolvam suas trajetórias profissionais como pesquisadoras, artistas, curadoras e arte-educadoras. Dessa forma, o Bajubá não apenas preserva memórias, mas também promove a inclusão e o desenvolvimento profissional de sua comunidade.

A integração e apoio contínuo reforçam a importância do Acervo Bajubá, não só como guardião de memórias, mas também como um agente ativo na construção de um futuro mais inclusivo e informado para todos.

Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista:

Marcos Tolentino – acervobajuba@gmail.com

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