Abril revela resultados de pesquisa sobre HIV/aids feita com 15 mil internautas

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07/11/2014 – 20h

Os resultados de uma pesquisa com 15 mil e dois entrevistados sobre HIV/aids, do projeto Atitude Abril, foram apresentados na noite desta quinta-feira (6), em São Paulo. Eles fecham a primeira fase da campanha Aids, Desinformação Tem Cura, que, durante esse ano, procurou informar os leitores da Editora Abril, por meio de sites, revistas e redes sociais, sobre a doença. Ativistas, gestores, médicos, jornalistas e artistas foram ao evento.

João Ricardo de Abrahão, assessor da presidência da Abril Mídia e idealizador do projeto, disse que a pesquisa guiará os próximos passos do trabalho. “Sim, a campanha segue em 2015”, informou ele. “A mídia tem papel importante em relação à aids, porque lida com informação, a maior arma de que dispomos para combatê-la.”

Fábio Barbosa, presidente da Abril, disse que acreditava que a aids era uma doença já resolvida. Afinal, o assunto sumiu dos jornais e revistas, inclusive da Abril, nos últimos anos.

Barbosa mudou de ideia quando começou a se engajar no projeto. “Desinformação tem cura foi o mote que me convenceu”, contou. “Porque aí entram valores que a gente pode agregar e essa pesquisa busca trazer um diagnóstico para que saibamos como seguir com o tema.”

A pesquisa foi feita por meio de questionário disponibilizado via internet nos sites e nas redes sociais das revistas da Abril e de suas empresas parceiras, como as do Conselho Empresarial Nacional para a Prevenção ao HIV/Aids (Cenaids).

Dados

A maioria dos 15 mil e dois entrevistados (63%) é da classe B e 65% têm grau superior de escolaridade. Desse universo, 58% são da região sudeste, 66%, brancos, 53%, homens e 47%, mulheres. A idade média é de 34 anos; 39% são solteiros e não namoram.

Da mostra, 5% (834) se revelaram vivendo com HIV/aids, sendo 87% homens com idade média de 42 anos. Como o método usado foi o da amostragem por conveniência, ou seja, com as pessoas que o pesquisador tem à disposição (no caso os usuários da internet), os coordenadores acreditam que os soropositivos foram os mais motivados a responder o questionário.

Dos que se revelaram soropositivos, 83% já tiveram relações homossexuais e 56% disseram que usam preservativo e exigem que o parceiro use .

O infectologista e pesquisador Esper Kallás, consultor do projeto, foi chamado ao palco para comentar alguns resultados, como o de 7% de pessoas com HIV que não usam preservativo porque têm parceiros também soropositivos. “Se os dois têm carga viral indetectável, é possível fazerem isso, mas com supervisão médica”, disse.

Fábio Mesquita, coordenador do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais (DDAHV) contou para a plateia de cerca de 300 pessoas que, hoje, um dos focos da luta contra a aids é “desmistificar os testes de HIV”. Informou que já há ONGs fazendo testes rápidos e, em breve, eles estarão disponíveis nas farmácias, a exemplo do que acontece com os de gravidez.

Fábio também explicou como funcionam a profilxaia pré-exposição (PrEP), ainda em fase de estudos para ser aprovada no Brasil, e a pós-exposição (PEP).

Repercussão

Na saída da apresentação, alguns ativistas comentaram os resultados. “Os dados são bons para eles saberem o que oferecer aos leitores das revistas, mas não representam a cara da epidemia no Brasil”, disse Márcia Leão, da Secretaria Política da Articulação Nacional de Luta Contra a Aids (Anaids) e coordenadora do Fórum de Ongs/Aids do Rio Grande do Sul.

Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova, de São Paulo, considerou a pesquisa abrangente. “Ela traz informações importantes mas vamos ver como serão usadas, se vão realmente ser traduzidas em ações afirmativas para melhorar os dados da epidemia.”

Mas, a exemplo de Márcia, Américo também não reconheceu muitos dados do estudo na realidade do ativismo. “Na nossa realidade, por exemplo, muitos continuam não usando camisinha depois do diagnóstico positivo."

O ativista disse ter sentido falta de mais dados sobre os efeitos colaterais dos tratamentos, especialmente da lipodistrofia – a síndrome, que causa perda ou acúmulo da gordura corporal, tem acometido cada vez mais pessoas vivendo com HIV/aids e é considerada a nova cara da aids, sequer foi citada na pesquisa.

“Minha maior crítica é em relação a algumas falas, como a do Fábio Mesquita, que comparou o teste de HIV que o governo vai disponibilizar na farmácia ao teste de gravidez. Teste de gravidez é vida e de HIV é morte”, disse Rubens Raffo, presidente do Fórum de Ongs/Aids do Rio Grande do Sul.

“O médico (Esper Kallás) disse que não se morre mais de doenças oportunistas”, comentou Diego Calissto, da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids. “ Mas e as coinfecções de HIV com hepatites e tuberculose? A gente sabe que elas estão matando muita gente.”

Diego considera que a causa mais grave da aids está na educação e, durante a apresentação da pesquisa, um garoto apareceu no vídeo dizendo que nunca ouviu falar de aids na escola. “Essa é a realidade do país e a Editora Abril, com todos os recursos que tem na área da educação, deveria estar incidindo sobre isso.”

Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de Ongs/Aids do Estado de São Paulo, achou que a pesquisa  refletiu bem o estigma e o preconceito ainda vigentes. “Mas senti falta de informações sobre as populações mais vulneráveis e espero que isso apareça na próxima edição da pesquisa.”

Maria Hiroko e Marco Marinho, do Pela Vidda São Paulo, também gostariam de ter visto mais dados. “Para o público deles, acho que está perfeito. Para nós, do movimento de aids, deixou a desejar”, resumiu Maria.

No livro que editou com os resultados da pesquisa, os coordenadores do projeto assinalam que os “dados não representam a população brasileira na sua totalidade”.

Fábio Mesquita afirmou que, mesmo não sendo representativa da grande maioria, a pesquisa vai contribuir para com as próximas campanhas públicas de DST/aids. Maria Clara Gianna, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, é da mesma opinião. “Iniciativas como essa são sempre bem-vindas ”, disse ela.

A psicóloga Ivone de Paula, coordenadora da Área de Prevenção do Programa Estadual, elogiou o clima do evento e disse que só isso já é uma contribuição para a causa da aids. “Poder reunir gente de vários lugares, não só da área da saúde, mas de tantas outras, como aconteceu aqui, para falar sobre aids, é um avanço”, disse Ivone.

Para ver mais resultadois da pesquisa, clique aqui.

Fátima Cardeal (fatima@agenciaaids.com.br)

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