Recentemente, relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o UNAIDS, evidenciou que meninas e mulheres seguem sendo público-alvo do HIV, particularmente na África Subsaariana. A região concentra seis em cada dez novas infecções registradas entre mulheres e meninas. O cenário é preocupante entre jovens de 15 a 24 anos, faixa etária que contabilizou cerca de 160 mil novas infecções em 2025 — o equivalente a aproximadamente 3 mil novos casos por semana.
Lideranças vivendo com HIV, com reconhecido trabalho em todo o Brasil, responderam à questão feita pela Agência Aids: “O que é preciso acontecer para quebrar a cadeia de transmissão do HIV entre as meninas e mulheres na África Subsaariana?”. Acompanhe a contribuição de cada uma delas.
Silvia Almeida, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas. Mulher vivendo com HIV, mãe e avó:

“Mais uma vez vemos o determinante social comprometer a saúde de populações mais vulneráveis. É certo que a ciência e a tecnologia têm avançado imensamente nas testagens, em produções de medicamentos de ponta com menos efeitos colaterais e na melhoria do tratamento e da qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/AIDS. Entretanto, ainda há fatores que me preocupam imensamente: focar na prevenção por meios medicamentosos; os custos destas novas drogas, que muitas vezes, por serem tão caros, não chegam para a distribuição na saúde pública brasileira. Nem sempre a população mais vulnerável tem acesso a estes tratamentos. E isso, por si só, já é um grande desafio.
Por outro lado, penso que não podemos manter a prevenção do HIV apenas pelo lado medicamentoso. É claro e posto que existe a necessidade de retomarmos campanhas de prevenção mais amplas, que atinjam as populações mais afetadas, como mulheres jovens e negras, adolescentes e periféricos, para além dos grupos onde a prevenção tem sido direcionada. A meu ver, o que temos deixado de fazer é o que está fazendo com que ainda tenhamos tantos novos casos diagnosticados. Deixamos de EDUCAR PARA PREVENIR! Vejo que a informação que deixamos de dar é um dos fatores que mais contribuem para o aumento de casos de HIV e AIDS.
Se não atuarmos na prevenção de forma mais efetiva, como, por exemplo, nas escolas, enquanto não trabalhamos com a população em geral e profissionais de saúde para verdadeiramente falarmos de HIV sem preconceitos e com informações claras e efetivas, penso que teremos sempre populações mais afetadas, meninas com gravidez precoce, jovens se equivocando entre prazer e cuidado, pessoas sofrendo e sem entenderem suas vulnerabilidades para a saúde sexual. A PREP tem sido extremamente importante, entretanto precisamos olhar para a prevenção por um ângulo que não seja apenas pela medicação.”
Renata Souza, integrante do MNCP e representante das mulheres vivendo com HIV no Conselho Nacional de Saúde:

“Para interromper a transmissão do HIV entre meninas e mulheres na África Subsaariana, penso que é necessário adotar abordagens amplas que reúnam prevenção, tratamento, educação, proteção social e promoção da igualdade de gênero, pensando o território em que estas mulheres vivem. E não existe uma ação pronta.
Algumas medidas essenciais, tais como ampliar o acesso às profilaxias, o incentivo à testagem regular, ampliar a distribuição de preservativos e a prevenção da transmissão vertical, além de garantir o diagnóstico precoce e o início rápido da terapia antirretroviral, são coisas que nem sempre são possíveis, considerando as realidades e localidades em que estas mulheres vivem.
Promover ações que mantenham a carga viral indetectável tem mostrado que o acesso ao tratamento faz diferença, e o acesso às tecnologias é fundamental.
Também é central enfrentar as desigualdades de gênero, um conceito construído historicamente pelas relações sociais que está enraigado na sociedade e requer reflexão e ação.
Muitas mulheres ainda têm dificuldade para negociar o uso do preservativo e estão mais vulneráveis à violência sexual, aos casamentos precoces e à dependência econômica.
Por isso, investir na autonomia das mulheres, manter as meninas na escola e oferecer educação sexual baseada em evidências ajuda diretamente a reduzir novas infecções.
Além disso, é necessário fortalecer ações de combate à violência de gênero, garantir acesso à PEP para vítimas de violência sexual e reduzir o estigma e a discriminação, que muitas vezes afastam mulheres e jovens dos serviços de saúde.
As ações precisam ser articuladas, envolver a educação, a proteção social, a igualdade de gênero e o financiamento sustentável, mas as realidades são múltiplas e nem sempre tornam isso possível.
Sem enfrentar esses fatores mais profundos, as novas infecções continuarão afetando principalmente as jovens mulheres e, conforme aponta o boletim epidemiológico, as pretas, pobres e periféricas.”
Evalcilene Santos, ativista afro indígena, vive com HIV há 28 anos:

“O mundo precisa reagir. Não podemos aceitar, em silêncio, as ameaças de retirada de apoio financeiro que colocam em risco décadas de avanços na resposta ao HIV. Historicamente, meninas e mulheres são as últimas a ter acesso às novas tecnologias de prevenção, ao cuidado integral e às políticas que realmente protegem suas vidas e seus direitos.
Somos esquecidas. Somos vítimas da desigualdade de gênero, da violência, do estupro e do feminicídio. Somos empurradas para contextos de extrema vulnerabilidade que aumentam o risco de infecção pelo HIV e dificultam o acesso ao tratamento. Enquanto isso, milhares de infecções e mortes por AIDS, totalmente evitáveis, continuam acontecendo.
Os compromissos e acordos internacionais precisam sair do papel. É urgente investir na proteção de meninas e mulheres, garantir acesso à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento e ao enfrentamento das violências que atravessam nossas vidas. Não podemos aceitar retrocessos que ampliem a fome, a pobreza, a desigualdade e a exclusão.
Quando a vulnerabilidade se torna normalizada, a dor, o sofrimento e a morte tornam-se consequências previsíveis. E isso não pode ser aceito como inevitável. Em um mundo marcado por guerras e crises, a vida de meninas e mulheres precisa ser prioridade.
Se queremos eliminar o HIV e alcançar a cura da AIDS, devemos colocar a valorização da vida das meninas e mulheres no centro dos debates globais. Não haverá fim da epidemia sem justiça social, igualdade de gênero e investimentos sustentáveis. O futuro da resposta ao HIV depende da coragem de defender vidas agora.
Não podemos mais esperar. Nossas vidas importam. Nossos direitos importam. E nossa voz precisa ser ouvida.”
Fabiana Oliveira, Secretaria de Comunicação do MNCP, vive com HIV há 30 anos:

“Investir nos eixos recomendados pelo UNAIDS é fundamental, mas não acredito que isso seja suficiente para interromper a transmissão do HIV entre meninas e mulheres. O Brasil é um exemplo importante dessa complexidade. Possuímos um dos maiores sistemas públicos de resposta ao HIV do mundo, com acesso gratuito ao diagnóstico, ao tratamento antirretroviral, à profilaxia pré e pós-exposição (PrEP e PEP), à prevenção da transmissão vertical e à distribuição de preservativos. Também contamos com políticas de enfrentamento à violência contra a mulher, programas de proteção social e uma forte atuação da sociedade civil, especialmente das redes e movimentos de pessoas que vivem com HIV. Ainda assim, novas infecções continuam ocorrendo.
Na minha avaliação, a questão central não é apenas o que existe, mas como, para quem e em que contexto essas políticas chegam às pessoas.
Apesar dos avanços, as desigualdades persistem, o estigma continua sendo uma barreira significativa e muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para negociar práticas sexuais seguras, sobretudo aquelas que vivem relações marcadas pela dependência econômica, pela violência ou pela desigualdade de poder.
Isso demonstra que, embora essenciais, as políticas de prevenção e cuidado não serão suficientes para interromper a transmissão do HIV se não houver vontade política para enfrentar as desigualdades de gênero, financiamento sustentável e protegido de mudanças governamentais, participação ativa da sociedade civil, em especial das redes e movimentos de pessoas que vivem com HIV/AIDS, na formulação das políticas públicas, estratégias adaptadas às realidades locais e, principalmente, compromisso com os direitos sexuais e reprodutivos.
Quebrar a cadeia de transmissão do HIV entre meninas e mulheres na África Subsaariana exige ir além da oferta destes serviços de saúde. O desafio envolve verdadeiramente garantir estes pontos que cito acima. Mais do que ampliar o acesso às tecnologias de prevenção, é preciso assegurar que todas as mulheres tenham condições reais de utilizá-las.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dicas de entrevista
Evalcilene Santos
E-mail: evacilenesantos@hotmail.com
Fabiana Oliveira
E-mail: fabimncp@gmail.com



