Plataforma reúne documentos, pesquisas, reportagens e vídeos que ajudam a reconstruir a resposta brasileira ao HIV; seminário no Rio de Janeiro debateu os desafios da prevenção, do acesso ao tratamento e dos direitos humanos
Quatro décadas de mobilização, conquistas e enfrentamento ao preconceito agora podem ser revisitadas em uma plataforma pública. A Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) lançou um Diretório Digital com mais de quatro mil materiais que documentam a história da epidemia de HIV/aids no Brasil. A iniciativa foi apresentada durante o seminário “40 Anos de Solidariedade: A ABIA, a Sociedade Civil e a Construção da Resposta à Epidemia do HIV no Brasil”, realizado nos dias 29 e 30 de outubro, no Rio de Janeiro.
O acervo reúne reportagens, documentos históricos, artigos acadêmicos, vídeos e registros produzidos pela própria instituição, por organizações da sociedade civil e por órgãos públicos. Além de preservar a memória do enfrentamento à epidemia, a plataforma foi concebida para apoiar pesquisadores, jornalistas, profissionais de saúde e movimentos sociais, oferecendo informações que contribuam para o combate ao estigma e à discriminação.
Fundada oficialmente em março de 1987, a partir de mobilizações iniciadas no ano anterior, a ABIA teve entre seus principais articuladores o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e o escritor e ativista Herbert Daniel. Desde os primeiros anos, a entidade ajudou a transformar a resposta brasileira à aids em uma questão que ultrapassa o atendimento médico, incorporando direitos humanos, participação social e acesso universal à saúde.
Durante a abertura do seminário, o presidente da ABIA, Richard Parker, resgatou essa perspectiva ao abordar o conceito de “terceira epidemia”, relacionado às consequências sociais do estigma e da discriminação.
“A epidemia não é apenas uma questão médica; uma epidemia é uma questão social e política, e você não pode pensar sobre uma epidemia sem pensar nessas dimensões”, afirmou.
Memória, prevenção e protagonismo comunitário
O encontro reuniu ativistas, pesquisadores e especialistas para discutir como atualizar as estratégias de prevenção diante das transformações sociais e dos desafios de comunicação com as novas gerações. Entre os temas estiveram o reconhecimento do prazer e do erotismo nas abordagens sobre sexualidade, o uso de novas linguagens visuais, incluindo a pós-pornografia, e a necessidade de superar discursos moralistas nas ações educativas.
Representante da Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids), Carla Almeida chamou atenção para a importância de aproximar o debate das realidades vividas pelas comunidades.
“O seminário tem um marco simbólico importante pelo momento histórico em que está acontecendo. A gente precisa pensar nos modelos que continuamos reproduzindo, tanto em termos de linguagem quanto de formatos de comunicação, garantindo que o diálogo alcance de fato as comunidades e as bases”, destacou.

O vice-presidente da ABIA, Veriano Terto Júnior, reforçou que as experiências das pessoas diretamente afetadas pelo HIV também constituem conhecimento fundamental para a construção de respostas efetivas.
“Comunidades são experts; a universidade também executa e deve cumprir com suas responsabilidades, mas nossas experiências também são formas de conhecimento”, afirmou.
Essa articulação entre conhecimento científico e mobilização social acompanha a trajetória da entidade. Segundo sua linha do tempo institucional, a ABIA participou das mobilizações pela proibição da comercialização do sangue e seus derivados, incorporada à Constituição de 1988, e criou, em 1992, um Centro de Documentação e Recursos dedicado ao HIV/aids. O trabalho de preservação e difusão de informações ganha agora uma nova dimensão com o diretório digital.
Acesso a medicamentos permanece no centro do debate
No segundo dia do seminário, as discussões se concentraram no papel do Sistema Único de Saúde (SUS), no acesso gratuito aos antirretrovirais e nos obstáculos impostos pelas regras de propriedade intelectual à disponibilidade de medicamentos.
A diretora executiva de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Brasil, Renata Reis, destacou a importância de preservar o acesso aos tratamentos como um direito fundamental.
“As principais agendas do mundo hoje são a da fome e a do medicamento, porque sem comida e sem tratamento para quem precisa, o resultado direto é a morte”, alertou.
O debate recuperou uma das principais frentes históricas de atuação da ABIA: a defesa do direito à saúde e o enfrentamento das barreiras econômicas que dificultam o acesso a medicamentos e tecnologias de prevenção.
Diretório Digital está disponível para consulta pública
O novo acervo pode ser acessado gratuitamente pelo endereço https://diretorio.abiaids.org.br/. O projeto integra uma iniciativa da ABIA voltada à mobilização social e ao enfrentamento do estigma e da discriminação, por meio da organização e disponibilização de informações fundamentadas em evidências.
A pesquisa foi conduzida por Carla Pereira, com idealização de Juan Carlos de La Concepción Raxach e coordenação de Veriano Terto Júnior e Diego Mesquita dos Santos.
Redação da Agência Aids com informaçōes da ABIA e do jornal Extra



