
A abertura da 13ª Conferência da IAS sobre Ciência do HIV (IAS 2025), realizada nesta segunda-feira (14), em Kigali, Ruanda, reuniu mais de quatro mil participantes do mundo todo em um momento crucial para a resposta global ao HIV. O evento, considerado o mais importante do mundo sobre ciência aplicada ao HIV, destacou avanços biomédicos promissores — como novas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e tecnologias de longa duração — ao mesmo tempo em que ecoou alertas de ativistas, especialistas e agências internacionais sobre os perigos da atual crise de financiamento.
Na coletiva de imprensa que antecedeu a cerimônia de abertura, o Ministro da Saúde de Ruanda, Dr. Sabin Nsanzimana, destacou o êxito do país em atingir antes do prazo as metas 95-95-95 do Unaids, graças ao foco em abordagens centradas nas pessoas e parcerias estratégicas. “Nossa responsabilidade compartilhada é garantir que essas inovações não sejam apenas desenvolvidas, mas acessíveis de forma equitativa a todos que delas necessitam”, afirmou.
Avanços científicos: lenacapavir, cabotegravir e MK-8527
Entre os anúncios mais aguardados da conferência está a nova diretriz da OMS que recomenda o uso do lenacapavir injetável de ação prolongada para prevenção do HIV, após sua recente aprovação pela FDA dos Estados Unidos. Segundo a Dra. Meg Doherty, diretora do Departamento de Programas Globais de HIV, Hepatite e IST da OMS, o momento é decisivo. “Temos as ferramentas e o conhecimento para acabar com a aids como problema de saúde pública. Agora, precisamos de uma implementação ousada dessas recomendações, fundamentadas na equidade e impulsionadas pelas comunidades.”

O Diretor-Geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, também se pronunciou: “Embora uma vacina ainda não esteja disponível, o lenacapavir representa uma das melhores opções de prevenção que temos hoje. A OMS está comprometida em garantir que essa inovação chegue às comunidades o mais rápido e seguro possível.”
Outro anúncio importante foi o acordo entre o Medicines Patent Pool e a ViiV Healthcare para expandir o licenciamento do cabotegravir de ação prolongada para o tratamento do HIV. Isso permitirá a produção de versões genéricas de baixo custo em países de baixa e média renda. “Inovação e acesso não apenas podem, como devem caminhar juntos”, afirmou Esteban Burrone, diretor do MPP.
A farmacêutica MSD também apresentou resultados promissores sobre o MK-8527, um comprimido oral experimental de uso mensal para prevenção do HIV. O medicamento agora avança para ensaios clínicos de Fase 3 na África. A pesquisadora Rebeca Plank destacou a parceria com a Fundação Gates e centros africanos como essenciais para viabilizar o estudo.
Dra. Beatriz Grinsztejn: “Nosso próximo desafio é o acesso”

Na sessão de abertura, a presidente da IAS, Dra. Beatriz Grinsztejn, reforçou a importância da cooperação internacional e do compromisso político com o acesso equitativo às novas tecnologias.
“Hoje marca um momento significativo na jornada para ampliar as opções e melhorar os resultados para pessoas vivendo com HIV e vulneráveis a ele”, declarou. “Novas diretrizes da OMS, acordos de licenciamento inovadores e pesquisas promissoras sinalizam que a prevenção e o tratamento prolongados do HIV estão se aproximando da assistência diária. Isso é prova do que é possível quando pesquisadores, indústria, instituições de saúde globais e comunidades trabalham juntos. Nosso próximo desafio é claro: os líderes devem comprometer o financiamento e os recursos necessários para integrar esses avanços aos sistemas de saúde de forma rápida e equitativa.”
Comunidade e ativistas pedem ações concretas

Ativistas presentes também deram o tom político à abertura do evento, lembrando que ciência sem acesso não transforma realidades. A sul-africana Yvette Raphael, diretora da Advocates for the Prevention of HIV and Aids, fez um apelo contundente:
“A prevenção e o tratamento de longa duração do HIV só podem transformar vidas se as pessoas puderem realmente obtê-los. Não podemos repetir os erros do passado, quando os medicamentos existiam, mas estavam fora do alcance de quem mais precisava. Precisamos de planos claros e financiamento real para garantir que esses medicamentos estejam nas nossas clínicas e sejam confiáveis em nossas comunidades.”
Financiamento: uma ameaça silenciosa
Os alertas sobre o colapso do financiamento internacional para HIV também marcaram o primeiro dia da IAS 2025. Segundo Mary Mahy, diretora de impacto de dados do Unaids, 73% das pessoas vivendo com HIV no mundo alcançaram a supressão viral até o final de 2024. No entanto, ela alertou que esse progresso está sob ameaça: “A crise de financiamento está colocando em risco conquistas que levaram décadas para serem construídas.”
Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids, também foi incisiva: “Estamos presenciando uma interrupção massiva no financiamento internacional para o HIV, o que criou um choque sistêmico na resposta global. Mas não vamos recuar. A resposta à aids nasceu em meio à crise — resistir está no nosso DNA.”
Um chamado global

A IAS 2025 segue até 17 de julho com centenas de sessões voltadas à tradução de descobertas científicas em políticas e ações práticas, com foco especial nas regiões mais afetadas e nas populações historicamente negligenciadas.
A mensagem da abertura foi clara: sem vontade política, financiamento consistente e compromisso com a equidade, nem mesmo as inovações mais promissoras serão suficientes para acabar com a epidemia de HIV. A ciência mostrou o caminho — agora, o mundo precisa garantir que ele seja acessível para todas as pessoas.
Redação da Agência de Notícias da Aids


