A sífilis, que já foi doença do passado, agora é epidemia do presente — Rico Vasconcelos para VivaBem UOL

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Existem coisas que se resolvem sozinhas, com o tempo. A epidemia de sífilis não é uma delas. A sífilis, uma infecção sexualmente transmissível (IST), é velha conhecida da medicina, que tem um tratamento curativo simples, barato e acessível, mas que ainda insiste em nos desafiar.

O novo Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025, do Ministério da Saúde, traz dados que nos obrigam a olhar para essa epidemia com o mesmo misto de alívio e inquietação de quem vê o copo meio cheio e meio contaminado.

Vamos aos dados. O Brasil registrou, em 2024, mais de 250 mil casos de sífilis transmitidos sexualmente. O número é alto, mas mostra tendência de estabilização. Depois de uma década de crescimento contínuo, a curva finalmente parece dar sinais de cansaço, o que por si só já é um avanço. E ainda mais importante: o boletim mostra redução pelo terceiro ano consecutivo dos casos de sífilis congênita, nome dado às infecções em bebes de gestantes com sífilis, a forma mais grave da doença, podendo causar sequelas neurológicas e até óbito fetal.

Por se tratar de uma doença que afeta gravemente recém-nascidos, cada caso evitado é uma vitória para o país.

O boletim aponta também que os casos de sífilis diagnosticados em gestantes seguem estáveis, mostrando que o enfrentamento da epidemia está ganhando fôlego com ações estruturantes, tais como o Programa Brasil Saudável e o Comitê Interministerial de Eliminação de Doenças Determinadas Socialmente com ações que integram esforços entre vigilância epidemiológica, atenção primária e movimentos sociais.

O processo de certificação de eliminação da transmissão vertical já alcançou 151 municípios e três estados brasileiros, e isso é muito simbólico. É o SUS se reconhecendo como vitorioso por fazer o que precisa ser feito.

Seria, no entanto, ingenuidade achar que este problema está resolvido. A sífilis transmitida entre adultos por via sexual segue disseminada e com o perfil da população mais acometida bem conhecido. Ela afeta principalmente adultos jovens (20 a 39 anos), com concentração entre homens (razão homem : mulher de 1,6), e com desigualdades escancaradas: mais da metade das notificações são em pessoas pardas e pretas, denunciando o componente social da doença.

Estados como Espírito Santo (212 casos por 100 mil habitantes), Santa Catarina (197/100 mil) e Rio de Janeiro (162/100 mil) lideram o ranking de maiores taxas de incidência. Em contraste, Piauí aparece com a menor taxa (28/100 mil), causando dúvidas se pesa mais a subnotificação ou a desigualdade do enfrentamento regional.

A sífilis congênita, por sua vez, ainda é um termômetro dolorido. Mesmo com o declínio recente, 183 bebês ainda morreram em 2024 por complicações desta infecção. Nenhum número assim devia existir em um país que garante pré natal e penicilina gratuita na rede pública.

O ciclo das sífilis em gestantes e congênita continua quando o parceiro não é testado, o tratamento é inadequado ou o diagnóstico é feito tardiamente. Um ciclo que evidencia não apenas uma falha clínica, mas a falha na rede, na vinculação e no cuidado integral.

Por outro lado, há sinais de esperança em medidas concretas. A ampliação do acesso ao teste rápido Duo HIV/Sífilis, que passou de 4,5 para 6,5 milhões de unidades distribuídas, aumentou a testagem inclusive entre populações vulneráveis fora do pré-natal. Essa é uma aposta inteligente pois diagnosticar cedo é o primeiro passo para cortar a cadeia de transmissão.

Mas talvez esteja na hora de ousar mais. Mesmo com todos esses avanços, a sífilis transmitida sexualmente segue estável em patamares altos, disseminada na população. E se a gente pudesse combinar as estratégias clássicas — testagem, tratamento e vigilância — com uma nova ferramenta de prevenção?

Estudos internacionais mostram que o uso da profilaxia pós-exposição à sífilis com doxiciclina em dose única (DoxiPEP) pode reduzir os casos dessa infecção em mais de 80% entre populações de alto risco. Sem dúvidas ainda precisamos de estudos nacionais com monitoramento de resistência bacteriana, tais como Projeto DoxiPEP-SP, liderado pela Faculdade de Medicina da USP com o apoio do Ministério da Saúde, mas será que o Brasil não poderia liderar esse debate? Imaginar DoxiPEP como parte da resposta, ao lado do pré-natal fortalecido, do tratamento de parceiros e do rastreio ampliado, é enxergar um futuro onde a sífilis deixará de ser manchete.

Enquanto isso, seguimos aqui, entre conquistas e pendências. A sífilis, que já foi doença do passado, é agora uma epidemia do presente. O desafio é que ela não se torne vergonha do futuro. O Boletim Epidemiológico de 2025 nos mostra que dá pra vencer, desde que o Brasil não se acomode com o “quase”.

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