No Outubro Verde, Dr. Mauro Romero Leal Passos discute os obstáculos que atrasam o diagnóstico, o estigma nos consultórios e as oportunidades perdidas de tratamento no SUS e na rede privada
Uma ferida que não dói e desaparece sozinha pode parecer um problema resolvido. No caso da sífilis, porém, o desaparecimento dos sinais não significa cura. A infecção pode permanecer no organismo sem sintomas, enquanto a pessoa segue sem saber que precisa de tratamento. Neste sábado, 17 de outubro, o Dia Nacional de Combate à Sífilis e à Sífilis Congênita reforça a importância de tornar a testagem parte do cuidado com a saúde — antes que apareçam complicações.

Às vezes, porém, o exame é feito e a resposta está ali, sem que ninguém a reconheça. O Dr. Mauro Romero Leal Passos, ginecologista e dessetologista, fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis (SBDST), conta que recebeu uma paciente da rede privada com manchas na pele que vinham sendo tratadas como outros problemas. Ela havia passado por consultas e acumulava quase dois meses de lesões. Um resultado reagente para sífilis já constava de seus exames.
Segundo Dr. Mauro Romero Leal Passos, que também é professor titular do Setor de Doenças Sexualmente Transmissíveis da Universidade Federal Fluminense (UFF), quem a atendera havia confundido o resultado com o valor de referência do laboratório. A expressão “não reagente” indicava o parâmetro esperado, mas foi lida como se descrevesse a situação da paciente. A investigação tinha chegado à resposta; o tratamento, não. “Pensar sifiliticamente é importante para fazer o diagnóstico e propor o tratamento”, afirma o professor.
A expressão atravessa a entrevista. Significa lembrar da sífilis diante de uma ferida discreta, de uma mancha que parece alergia, de uma alteração que não melhora com o tratamento prescrito. Significa também reconhecer que renda, escolaridade, idade ou acesso à medicina privada não afastam a possibilidade de uma infecção sexualmente transmissível. Para o médico, parte das oportunidades de diagnóstico se perde justamente quando o profissional acredita que aquela hipótese não combina com a pessoa à sua frente.
A cura existe. O acesso ainda é desigual
No Brasil, o tamanho do desafio está documentado. O Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025, do Ministério da Saúde, registrou, para 2024, 256.830 casos de sífilis adquirida, 89.724 em gestantes e 24.443 de sífilis congênita. Naquele ano, foram registrados 183 óbitos por sífilis congênita em menores de um ano.
São vidas alcançadas por uma infecção para a qual há diagnóstico e tratamento. A existência desses recursos, entretanto, não conta toda a história. “Até porque mesmo tendo diagnóstico e tratamento, isso não chega às pessoas com equidade, isso não chega para todos de uma maneira uniforme”, afirma Dr. Mauro Romer. Sua crítica alcança a demora para conseguir uma consulta, a dificuldade para interpretar exames e o atendimento que termina sem assegurar o próximo passo.
“A sífilis é a doença que mais engana”, diz. A lesão inicial pode surgir em uma região pouco visível, não provocar dor e desaparecer antes que a pessoa consiga atendimento. Mais tarde, podem aparecer manchas na pele; também há períodos sem sintomas. A aparente melhora favorece o adiamento da consulta. O desaparecimento das manifestações, porém, não comprova a eliminação da bactéria. Sem tratamento, a infecção pode causar complicações, inclusive neurológicas e cardiovasculares.
O estigma também entra no consultório

Para o professor, reconhecer essa diversidade de sinais exige conhecimento, mas também disposição para conversar sobre sexualidade. Ele chama atenção para o que acontece quando pessoas de 50, 60 ou 70 anos chegam ao consultório: sua vida sexual pode simplesmente não entrar na conversa. O mesmo ocorre, observa, quando o profissional associa a sífilis apenas à juventude ou à vulnerabilidade econômica. A pergunta que não é feita pode deixar de abrir caminho para um exame necessário.
Falar sobre relações e parcerias, lembra Dr. Mauro Romero, requer privacidade e uma escuta sem julgamento. Em consultas rápidas, ou em salas que não oferecem condições para uma conversa reservada, informações importantes podem não aparecer. O constrangimento não está apenas em quem procura ajuda. Também pode estar em quem atende. Ao comentar as mudanças de nomenclatura das doenças e infecções sexualmente transmissíveis, ele resume: “a gente muda o nome, mas não muda a abordagem”.
O pré-natal entre consultas, esperas e retornos

Na gravidez, a distância entre saber o que fazer e conseguir fazê-lo aparece de maneira especialmente dura. Entre os casos de sífilis congênita notificados em 2024, 82,8% das mães tinham registro de pré-natal, segundo o boletim. No mesmo conjunto, 85,7% tiveram tratamento inadequado ou não realizado. O documento considera realização de pré-natal pelo menos uma consulta; não é possível concluir, com esse indicador, que houve acompanhamento completo. Os percentuais dizem respeito às mães das crianças notificadas com sífilis congênita, não a todas as gestantes brasileiras.
Dr. Mauro Romero Leal Passos relata acompanhar situações em que as mulheres passam por várias consultas e chegam ao parto sem o cuidado necessário. Ele descreve como o tempo pode ser consumido por sucessivos retornos: a mulher vai à unidade para marcar a consulta, depois precisa agendar a coleta de sangue, aguarda o resultado e, em alguns serviços que conhece, ainda enfrenta dificuldades para receber a medicação. Enquanto isso, precisa trabalhar, se deslocar e encontrar uma nova oportunidade de comparecer.
O médico cita a situação de quem trabalha nos mesmos horários em que o posto abre. Para uma diarista, por exemplo, cada ida pode disputar espaço com um dia de renda. Na sua avaliação, organizar a assistência sem considerar essas condições transfere para a gestante a tarefa de superar, sozinha, os obstáculos do serviço. Ele defende prioridade para o atendimento e busca ativa diante de um diagnóstico, em vez de esperar que a mulher reapareça na consulta seguinte.
Até um feriado pode expor a fragilidade desse percurso. Se a próxima aplicação da medicação está prevista para um dia em que a unidade ficará fechada, quem organiza a alternativa? Dr. Mauro Romero Leal Passos cobra que a equipe antecipe o problema, oriente a gestante e defina onde ela será atendida. O tratamento precisa caber no calendário real dos serviços e na vida de quem depende deles.
A recomendação do Ministério da Saúde é testar na primeira consulta do pré-natal, preferencialmente no primeiro trimestre, novamente no terceiro trimestre e no parto ou em caso de aborto, além de situações de exposição de risco. Para gestantes, orienta-se tratamento imediato após um teste reagente, conforme avaliação profissional. A penicilina benzatina é o medicamento com eficácia documentada para tratar a sífilis durante a gestação. Completar o esquema indicado, respeitar os intervalos e acompanhar a resposta fazem parte desse cuidado.
A parceria está presente, mas fica fora do cuidado
As oportunidades também podem ser perdidas quando a parceria sexual está dentro do serviço. O especialista conta que foi consultado sobre uma gestante que chegou à maternidade em trabalho de parto e com lesões suspeitas. O primeiro teste teve resultado negativo. Diante da discordância com o quadro clínico, ele orientou nova investigação. Segundo seu relato, o diagnóstico foi estabelecido e o bebê ficou internado para tratamento de sífilis congênita.
Dias depois, ao perguntar sobre o acompanhamento, soube que o parceiro já havia visitado a maternidade várias vezes, mas ainda não tinha sido abordado pela equipe. Estava ali, próximo da mulher e da criança, sem que sua presença se convertesse em atendimento. “Mas não pode perder a oportunidade”, afirma.
“Eu chamei o parceiro? Eu abri um espaço para o parceiro?”, questiona Dr. Mauro. Para ele, a responsabilidade dos serviços não se encerra em recomendar que a mulher avise sua parceria. É preciso organizar acolhimento, avaliação e continuidade, preservando o sigilo. Ele também defende o pré-natal do parceiro como oportunidade de cuidado em saúde, sem restringi-lo aos momentos em que há um diagnóstico de sífilis ou HIV na gestante.
“A grande dificuldade é não cumprir os protocolos”

A cobrança do professor é concreta: exames pedidos precisam ser avaliados; resultados precisam levar a condutas; retornos precisam ser acompanhados. “Cadê o checklist do atendimento da gestante no pré-natal?”, pergunta. A lista de verificação que propõe serviria para evitar que etapas conhecidas se percam na rotina. Ele relata encontrar cadernetas com informações básicas incompletas, inclusive a identificação da unidade onde o pré-natal foi realizado.
“A grande dificuldade é não cumprir os protocolos”, afirma. Dr. Mauro Romero Leal Passos defende que cada caso leve a equipe e a gestão a reconstruir o que aconteceu: quando a mulher foi atendida, se conseguiu fazer os exames, quando recebeu o resultado, se teve acesso ao medicamento e o que impediu a conclusão do tratamento. O objetivo é identificar onde o serviço precisa mudar, sem encerrar a explicação na conduta da paciente.
Essa responsabilidade, sustenta, passa pela unidade, pela supervisão e pelas diferentes instâncias de gestão. Os registros permitem reconhecer onde os casos se concentram, mas precisam orientar decisões. “Mas não adianta ter a informação se eu não trabalho essa informação”, diz. Para o médico, informatizar o sistema sem agir sobre o que ele revela mantém as oportunidades de prevenção no papel.
O acompanhamento precisa continuar
O cuidado também não termina no parto. Segundo o Ministério da Saúde, a maior parte dos bebês com sífilis congênita não apresenta sintomas ao nascer. Crianças expostas precisam ser avaliadas e acompanhadas, mesmo quando parecem saudáveis. Exposição não significa, por si só, confirmação da infecção; a investigação orienta as condutas. Quando há diagnóstico, o tratamento e o seguimento buscam a cura e a prevenção de complicações.
Para quem tem dúvidas sobre uma possível exposição, uma Unidade Básica de Saúde é um caminho para buscar orientação. O teste rápido é gratuito no SUS, com resultado em até 30 minutos. Sua interpretação considera o histórico clínico, porque alguns testes podem permanecer reagentes depois da cura. Quem já teve sífilis pode se infectar novamente. A prevenção e o acompanhamento, portanto, continuam importantes depois do tratamento.
Ao longo da entrevista, Dr. Mauro Romero Leal Passos volta a uma mesma exigência: fazer com que o conhecimento disponível mude o que acontece com as pessoas. “Toda cadeia tem que ser responsabilizada”, afirma. No caso da paciente que passou quase dois meses com manchas na pele, a resposta já estava no exame. No da parceria que visitava a maternidade, a oportunidade estava dentro do serviço. É nesses encontros que a possibilidade de cura precisa se tornar cuidado.
Outubro Verde: informação e cuidado em destaque

O Outubro Verde coloca a sífilis em pauta e ganha destaque neste sábado, 17 de outubro, Dia Nacional de Combate à Sífilis e à Sífilis Congênita. A mobilização busca ampliar o conhecimento sobre a infecção, incentivar a testagem e divulgar as formas de prevenção e tratamento.
Os temas da campanha atravessam a entrevista com Dr. Mauro Romero Leal Passos: os sinais que passam despercebidos, as dúvidas que nem sempre encontram espaço na consulta e as dificuldades entre receber um diagnóstico e concluir o tratamento. Seus relatos aproximam a discussão do cotidiano dos serviços de saúde, do acompanhamento na gestação à atenção às parcerias sexuais.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Dr. Mauro Romero
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