“A responsabilidade de acabar com a aids como ameaça pública até 2030 é de cada uma e cada um de nós”- Nações Unidas

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Discurso da vice-secretária-geral Amina J. Mohammed na abertura da Reunião de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU sobre HIV/AIDS 2026, em 22 de junho.

Obrigada, senhora presidente da Assembleia Geral,

Excelências, parceiros, colegas e amigos,

Um agradecimento especial aos nossos parceiros e à sociedade civil, que estão diariamente na linha de frente, e meu profundo reconhecimento à minha irmã, Winnie Byanyima, e à sua excelente equipe pelo trabalho que realizam todos os dias.

Nos 45 anos desde que o primeiro caso de AIDS foi relatado, o mundo demonstrou uma determinação e solidariedade incomuns.
Não foi fácil.

Os primeiros dias da resposta foram marcados por uma série de obstáculos:

Falta de compreensão.

Falta de conhecimento e de base científica.

Discriminação e estigma.

E talvez o mais letal de tudo: a hesitação política.

Mas, ano após ano, essa emergência foi se transformando em um avanço expressivo na saúde pública.

Uma história de esperança escrita por pessoas que vivem com HIV, em conjunto com uma comunidade engajada e heróis da linha de frente da saúde.

Por gerações incansáveis de cientistas e pesquisadores.

Por governos que demonstraram compromisso político e determinação diante de uma pandemia em rápido crescimento e sustentaram os esforços por meio de investimentos internos crescentes.

E por parceiros globais generosos que investiram na resposta global e levaram adiante nossa missão comum.

As mortes relacionadas à AIDS foram reduzidas em 70% desde seu pico em 2004 — e em 54% em relação a 2010.
Os serviços de prevenção e tratamento do HIV reduziram as novas infecções em 40% no mesmo período.

Hoje, mais de 32 milhões de pessoas que vivem com HIV estão recebendo terapia antirretroviral que salva vidas.

E agora nos beneficiamos coletivamente das lições de saúde pública aprendidas na luta contra o HIV.

Aprendemos que liderança nacional é essencial.

Que as soluções e o impacto vêm das comunidades.

Que a inovação científica, quando financiada e apoiada, encontrará um caminho a seguir.

Que podemos oferecer testes e tratamento até mesmo às populações mais difíceis de alcançar — e abrir novos caminhos para outras intervenções essenciais.

Aprendemos a utilizar os determinantes sociais da saúde na resposta — e, acima de tudo, aprendemos que, quando o mundo age em conjunto, pode salvar vidas.

Excelências, senhoras e senhores,

Sejamos claros: a AIDS ainda não acabou. 
Conforme demonstra meu relatório recente, ainda estamos longe de atingir as metas que estabelecemos na Declaração Política de 2021.

No final de 2024, 9,2 milhões de pessoas ainda não tinham acesso ao tratamento para o HIV — e 1,3 milhão contraíram o vírus.

Mais trágico ainda: 630 mil vidas foram perdidas em mortes relacionadas à AIDS.

Os cortes no financiamento estão afetando diretamente os esforços de prevenção e os sistemas comunitários que são tão essenciais para a resposta.

Enquanto isso, as restrições financeiras e o aumento do endividamento nos países em desenvolvimento estão desviando recursos da resposta ao HIV.

Além disso, a redução do espaço cívico e o retrocesso na proteção dos direitos humanos estão colocando em risco conquistas alcançadas com muito esforço.

Excelências, senhoras e senhores,

Esta reunião está sendo realizada para encontrar soluções e, mais uma vez, mobilizar a vontade política necessária para acelerar e concluir a luta global contra o HIV.

Cinco vias de aceleração serão essenciais:

Primeiro — precisamos eliminar as disparidades cada vez maiores no acesso aos serviços de prevenção, tratamento e assistência.
Temos as ferramentas para prevenir e tratar o HIV a longo prazo.

Os governos precisam intensificar o apoio para garantir que os avanços cheguem a todas as pessoas — especialmente às comunidades e países mais marginalizados e mal atendidos.

Isso significa garantir que as respostas ao HIV sejam integradas aos sistemas de saúde pública e de desenvolvimento, a fim de construir respostas mais sustentáveis e resilientes.

Em segundo lugar — devemos continuar garantindo a liderança das comunidades na resposta ao HIV.
A nova Estratégia Global para a AIDS enfatiza a liderança nacional, serviços centrados nas pessoas e a liderança comunitária.

As organizações lideradas pela comunidade continuam sendo parceiras indispensáveis para alcançar as pessoas que estão em situação de maior vulnerabilidade.

Elas precisam de todo o nosso apoio.

Terceiro — direitos humanos.
Desde o início, as desigualdades, o estigma e a discriminação alimentaram a epidemia.

Mas também alimentaram nossa determinação em proteger e salvar vidas por meio de uma resposta eficaz, especialmente para as comunidades e populações mais vulneráveis.

Em um momento em que várias populações e comunidades vulneráveis em muitas partes do mundo — incluindo pessoas LGBTIQ+ — enfrentam estigma, discriminação e criminalização crescentes, devemos nos manter firmes na proteção de seus direitos e de sua dignidade.

Leis, políticas e exclusão social que empurram as pessoas para a margem não apenas violam os direitos humanos — elas também correm o risco de minar os esforços de saúde pública e colocar vidas em grande risco.

Os direitos humanos e a igualdade devem continuar a orientar nossa resposta.

Quarto — financiamento.
O mundo deve apoiar os países em desenvolvimento à medida que eles constroem sistemas mais sólidos de saúde e proteção social.

Agora não é hora de recuar dos investimentos na resposta.

Exorto os países a cumprirem sua promessa no âmbito do Compromisso de Sevilha:

Desbloquear financiamento;

Lidar com a dívida insustentável por meio de novas ferramentas e soluções;

E reformar o atual sistema financeiro global, injusto e ultrapassado, para que os países em desenvolvimento possam receber os recursos de que precisam — e a voz e a representação que merecem.

Por fim — precisamos retomar o espírito multilateral que vem impulsionando a resposta ao HIV desde o início.
A resposta ao HIV demonstrou que a solidariedade além das fronteiras e entre setores pode superar o medo, a desigualdade e a injustiça.

E provou que as instituições globais, regionais e locais são todas essenciais para que possamos agir em conjunto.

Em um momento em que a divisão e a desconfiança estão aumentando, esta reunião deve enviar uma mensagem forte: nenhum país ou comunidade pode acabar com a AIDS sozinho.

As Nações Unidas sempre foram uma parceira orgulhosa nessa jornada.
Nos últimos 30 anos, a equipe dedicada do UNAIDS tem se mantido inabalável em sua perseverança e compromisso com as pessoas e comunidades afetadas pelo HIV em todo o mundo.

Mas esse progresso está agora ameaçado diante de severos cortes de financiamento e perturbações sem precedentes.

Por meio da Iniciativa ONU80, estabelecemos uma visão para preservar e fortalecer a resposta da ONU ao HIV, integrando capacidade e conhecimento especializado em todo o sistema de desenvolvimento da ONU e além dele.

Essa transição visa proteger os avanços que alcançamos e garantir que o apoio continue a chegar às pessoas e comunidades que mais precisam dele.

As estruturas podem evoluir, mas as Nações Unidas nunca recuarão do compromisso de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública.

O trabalho nessa transição está avançando de forma constante — inclusive por meio do Grupo de Trabalho criado pela Junta de Coordenação do Programa da UNAIDS — para garantir uma transição segura, responsável e ordenada.

Isso significa definir uma divisão de tarefas entre as organizações copatrocinadoras para absorver as capacidades da UNAIDS, ao mesmo tempo em que se desenvolvem arranjos de governança que protejam o espaço para a sociedade civil e garantam que as vozes das principais populações continuem a ser ouvidas.

Mas isso vai além da saúde.

Trata-se de direitos humanos.

Trata-se de dignidade.

Trata-se de inclusão e de levar todos conosco nessa jornada.

E trata-se de cumprir nossa promessa de não deixar ninguém para trás.

Estou muito ansiosa pelo resultado bem-sucedido do Grupo de Trabalho e pelo envolvimento contínuo de todas as partes interessadas à medida que esse trabalho avança.

Excelências, senhoras e senhores,

Esta reunião é uma oportunidade de demonstrar que, mesmo em tempos difíceis, a comunidade internacional pode se unir, mais uma vez, em torno da ciência, da dignidade humana, da solidariedade e da responsabilidade compartilhada.

A responsabilidade de acabar com a AIDS como ameaça pública até 2030 é de cada uma e cada um de nós.
Vamos avançar juntas e juntos — com senso de urgência, solidariedade e ambição.

Obrigada.

Apoios