“A prevenção nunca deve depender de uma única estratégia”, defende especialista durante debate sobre prevenção

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Enquanto os injetáveis de longa ação transformam a prevenção do HIV, especialistas defenderam que nenhuma tecnologia, isoladamente, será capaz de acabar com a epidemia.

Em um debate forte da 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), especialistas, lideranças comunitárias e pesquisadores discutiram um tema que ganha força diante da chegada dos injetáveis de longa ação para prevenção do HIV: afinal, ainda é necessário investir no desenvolvimento de uma vacina?

A mesa colocou em lados opostos defensores da continuidade dos investimentos em vacinas e participantes que argumentaram que, diante das tecnologias já disponíveis, o esforço global deveria se concentrar em ampliar o acesso às estratégias atuais de prevenção.

Apesar das posições divergentes, um ponto uniu todos os participantes: nenhuma inovação terá impacto significativo sem financiamento, acesso equitativo e participação das comunidades.

O debate partiu do reconhecimento de que os injetáveis de longa ação representam uma transformação importante na prevenção do HIV ao reduzir a necessidade do uso diário de medicamentos e oferecer mais opções às pessoas. Ao mesmo tempo, levantou questões centrais sobre equidade, sustentabilidade, autonomia, custos e prioridades de investimento em pesquisa.

Prevenção combinada exige mais de uma ferramenta

A pesquisadora Boitumelo Janet, que defendeu a continuidade das pesquisas em vacinas, afirmou que os injetáveis representam um enorme avanço, mas não resolvem, sozinhos, os desafios da epidemia.

Boitumelo Janet ressaltou que o HIV continua causando aproximadamente 1,2 milhão de novas infecções por ano no mundo, mesmo com a ampla disponibilidade da terapia antirretroviral, da PrEP oral e, mais recentemente, da PrEP injetável de longa ação.

“Hoje não estamos discutindo se os injetáveis funcionam. Eles funcionam. A questão é se eles são suficientes.”

Para a pesquisadora, a resposta ao HIV sempre avançou por meio da prevenção combinada, e não da substituição de uma estratégia por outra. Ela lembrou que países como Botswana e Zâmbia já atingiram ou se aproximaram das metas 95-95-95, mas ainda registram milhares de novas infecções anualmente, demonstrando que o sucesso no tratamento não significa, necessariamente, o fim da transmissão.

Boitumelo também destacou a complexidade biológica do HIV, capaz de sofrer mutações rapidamente, escapar da resposta imunológica e formar reservatórios virais, o que reforça a necessidade de manter diversas frentes de pesquisa.

“Não se trata de escolher entre vacinas e PrEP injetável de longa ação. Trata-se de construir um futuro em que cada pessoa tenha acesso à opção de prevenção mais eficaz que a ciência puder oferecer.”

Pesquisa em vacinas fortalece toda a ciência

Outro argumento apresentado foi que o investimento em vacinas gera benefícios que ultrapassam o próprio HIV.

Segundo Boitumelo, décadas de pesquisa ajudaram a construir infraestrutura científica, formar pesquisadores, fortalecer laboratórios e impulsionar tecnologias que posteriormente beneficiaram outras áreas da saúde.

Ela lembrou que estudos já demonstraram ser biologicamente possível desenvolver uma vacina contra o HIV e destacou os avanços recentes na indução de anticorpos amplamente neutralizantes, considerados fundamentais para futuras vacinas eficazes.

“Investir na pesquisa de vacinas contra o HIV significa investir em liderança científica, na formação da força de trabalho em saúde e no avanço da pesquisa. A pesquisa em vacinas transcende o HIV e beneficia outras áreas da medicina.”

Prioridade deve ser quem precisa de proteção agora

Na posição contrária, a pesquisadora queniana Dra. Marianne Mureithi defendeu que a prioridade da resposta ao HIV deve ser garantir acesso imediato às tecnologias já disponíveis, especialmente aos injetáveis de longa ação.

Para ilustrar seu argumento, ela descreveu a realidade de uma jovem em situação de vulnerabilidade que precisa de proteção hoje, e não daqui a uma ou duas décadas.

“Essa jovem precisa de proteção agora. Ela não pode esperar dez ou vinte anos até que uma vacina esteja pronta.”

Dra. Marianne reconheceu a importância da pesquisa científica, mas argumentou que, diante da persistência de novas infecções e das desigualdades no acesso à prevenção, os investimentos devem priorizar a ampliação da oferta dos injetáveis de longa ação, tornando essa tecnologia acessível às populações que mais necessitam.

“Enquanto pensamos na vacina, há jovens, mulheres e homens que precisam de proteção agora. A conversa que deveríamos ter é como garantir que essa descoberta seja acessível, financeiramente viável e possa ser usada hoje.”

Vacinas podem erradicar doenças

Representando o grupo favorável às pesquisas, Adaobi Olisa, integrante da Academia de Advocacy para Vacinas contra o HIV da IAS, lembrou que as vacinas foram responsáveis pela erradicação ou controle de diversas doenças infecciosas.

Adaobi Olisa defendeu que uma futura vacina contra o HIV pode representar um passo decisivo para o controle da epidemia. Para ela, além de ampliar as opções de prevenção, a imunização teria potencial para reduzir o estigma frequentemente associado ao uso da PrEP, simplificar a proteção contra o vírus e contribuir para a imunidade coletiva — um benefício que os métodos individuais de prevenção não oferecem.

A ativista também ressaltou que os investimentos em vacinas contra o HIV geraram avanços científicos que ultrapassaram essa área, contribuindo diretamente para o rápido desenvolvimento das vacinas contra a COVID-19 e fortalecendo a capacidade global de pesquisa.

“Investir na pesquisa de vacinas transcende uma única doença. Fortalece a capacidade científica, os ensaios clínicos, a formação de pesquisadores e impacta outras áreas da medicina. Vimos isso com a COVID-19 e continuaremos vendo em outras doenças.”

Ao defender a continuidade dos investimentos, Adaobi alertou para os riscos de concentrar os esforços apenas nas tecnologias disponíveis atualmente.

“Se pensarmos apenas no presente, como vamos sustentar a resposta ao HIV no futuro? Não podemos considerar deixar de investir na pesquisa de vacinas se realmente queremos acabar com o HIV.”

Acesso é o verdadeiro desafio

Representando o lado contrário, a ativista de Botswana Sekgabo Seselamarumo defendeu que o maior obstáculo para controlar a epidemia de HIV deixou de ser científico e passou a ser político. Para ela, o desafio atual não é desenvolver novas tecnologias, mas garantir que aquelas já comprovadamente eficazes cheguem às pessoas que mais precisam.

Sekgabo argumentou que parte dos recursos destinados à pesquisa de vacinas poderia ser direcionada para ampliar imediatamente o acesso aos injetáveis de longa ação, fortalecer os sistemas de saúde, capacitar profissionais e expandir a oferta da PrEP em países de baixa e média renda.

“Cada dólar investido em vacinas contra o HIV é um dólar que poderia ser gasto na expansão das nossas opções de PrEP, no fortalecimento das nossas clínicas e no treinamento dos profissionais de saúde.”

A ativista lembrou que, em Botswana, embora os injetáveis de longa ação já estejam disponíveis, o acesso ainda é bastante restrito, alcançando apenas um número reduzido de serviços de saúde.

“O problema com os injetáveis de longa ação que temos hoje é o acesso, e não a ciência.”

Em sua avaliação, a prioridade da resposta global ao HIV deve ser garantir que as tecnologias existentes sejam acessíveis de forma equitativa, antes de concentrar novos investimentos em uma vacina que ainda pode levar anos para se tornar realidade.

“Quando se trata de acabar com o HIV, isso depende realmente da política e não da ciência. Precisamos garantir que cada dólar investido seja usado para assegurar acesso equitativo às ferramentas que já temos.”

Comunidades cobram acesso e linguagem acessível

A participação do público ampliou a discussão para além da comparação entre vacinas e injetáveis, trazendo à tona questões sobre preço, estigma, acesso e comunicação com as comunidades. Representantes da sociedade civil perguntaram como uma futura vacina chegaria às populações mais vulneráveis, como trabalhadoras do sexo, e de que forma seria possível traduzir a linguagem científica para torná-la compreensível e útil às pessoas que mais precisam dessas tecnologias.

Uma das participantes questionou se o objetivo da comunidade científica é apenas prevenir novas infecções ou, de fato, acabar com a epidemia de HIV. Também perguntou se o desenvolvimento de uma vacina já considera aspectos como preço e acessibilidade para populações vulneráveis.

Em resposta, Boitumelo Janet explicou que esses fatores fazem parte do chamado Perfil de Produto-Alvo (Target Product Profile), documento que orienta o desenvolvimento de novas tecnologias desde as fases iniciais da pesquisa.

“Quando um novo medicamento ou intervenção está sendo desenvolvido, cientistas e comunidades definem juntos quais são os padrões mínimos que ele deve atender. Ao pensar em uma vacina contra o HIV, a acessibilidade e o preço já foram considerados, assim como a necessidade de reduzir a dependência da cadeia de frio para facilitar sua distribuição.”

Outro participante lembrou que as pesquisas em vacinas preventivas também impulsionam o desenvolvimento de vacinas terapêuticas para pessoas que vivem com HIV, alertando que reduzir os investimentos nessa área pode comprometer avanços científicos que beneficiam tanto a prevenção quanto o tratamento.

O presente venceu — mas o futuro segue em construção

Ao final da sessão, após votação informal conduzida pela moderadora Doreen Moracha, prevaleceu a percepção de que a prioridade imediata deve ser garantir acesso universal às ferramentas já disponíveis, especialmente aos injetáveis de longa ação.

Ao final da sessão, ficou evidente que, embora houvesse divergências sobre onde concentrar os investimentos no curto prazo, prevaleceu a defesa de uma resposta baseada na prevenção combinada.

Os debatedores ressaltaram que o enfrentamento da epidemia exige ampliar e não substituir as ferramentas disponíveis, conciliando o desenvolvimento de novas tecnologias, como uma futura vacina, com a expansão do acesso às estratégias já existentes, especialmente para as populações mais vulneráveis.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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