
Estima-se que, atualmente, um milhão de pessoas vivam com HIV no Brasil. Desse total, 650 mil são do sexo masculino e 350 mil do sexo feminino. De acordo com o Relatório de Monitoramento Clínico do HIV, na análise considerando o sexo atribuído no nascimento, as mulheres apresentam piores desfechos em todas as etapas do cuidado. Enquanto 92% dos homens estão diagnosticados, apenas 86% das mulheres possuem diagnóstico; 82% dos homens recebem tratamento antirretroviral, mas 79% das mulheres estão em tratamento; e 96% dos homens estão com a carga viral suprimida – quando o risco de transmitir o vírus é igual a zero – mas o número fica em 94% entre as mulheres.
Para acabar com a aids como problema de saúde pública, a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu metas globais: ter 95% das pessoas vivendo com HIV diagnosticadas; ter 95% dessas pessoas em tratamento antirretroviral; e, dessas em tratamento, ter 95% com carga viral controlada. Hoje, em números gerais, o Brasil possui, respectivamente, 90%, 81% e 95% de alcance. O Ministério da Saúde reafirma que possui os insumos necessários e já aumentou, neste ano, 5% a quantidade total de pessoas em tratamento antirretroviral em relação a 2022, totalizando 770 mil pessoas.
A epidemia de HIV entre as mulheres é mais uma das muitas faces das experiências de violência a que elas são submetidas. Francisca Batista de Souza, integrante do Colegiado Nacional RNP+ no Mato Grosso, ressalta a importância das mulheres dentro do movimento social e que é significativa a participação de cada uma delas, pois ainda faz pouco tempo que elas poderiam ter voz ativa em qualquer organização. “Qualquer mulher que faz parte de uma luta é uma mulher que eu admiro, é de extrema importância a ocupação de espaços que nos envolvem, que envolvem a nossa saúde. Temos que lembrar sempre que, antigamente, éramos proibidas de falar por nós mesmas e hoje podemos nos defender, lutar por nossos direitos.”
A ativista observa que a saúde e a sexualidade feminina sempre foram recriminadas mas que a luta tem trazido, além de espaço, a informação de temas que eram tabus para as mulheres. “Falar sobre a sexualidade sempre foi uma coisa escandalosa, vergonhosa, imagina falar de aids, de prevenção quando não podíamos nem falar sobre sexo sem os olhares tortos ou a censura? Hoje em dia, as mulheres têm um aprendizado muito bom sobre sua sexualidade, sobre as Infecções Sexualmente Transmissíveis, sobre o que o Sistema Único de Saúde nos oferece para tratamento ou para prevenção.”
Fabiana O. de Carvalho, conselheira municipal do Conselho Municipal de Mulheres da cidade de Anchieta, diz que a participação de um grupo de mulheres na luta
contra a aids inspira outras mulheres infectadas a fazer parte. “Conheço muitas mulheres que sentiam vergonha de si mesmas e não queriam de nenhum jeito fazer parte na frente da luta, mas quando enxergavam as outras ativistas ali, firmes e fortes, usando as vozes delas para lutar, se sentiram encorajadas e foram para cima. O papel da mulher em uma das maiores lutas na saúde tem sido de extrema importância pois com isso alcançamos vidas que nem imaginávamos. Meninas, moças, mulheres ou idosas com seus próprios desafios mas com muita vontade de fazer a diferença e abrir caminho.”
Ela comemora o fato de existir muitas mulheres falando sobre HIV/aids, fazendo a diferença dentro do meio e diz que fica emocionada quando uma mulher que, antes não tinha vontade de engajar na luta, resolve participar e mudar a vida de outras pessoas. “É muito bom saber que nós estamos cada vez mais empenhadas em conquistar nossos espaços dentro de uma luta que nos diz respeito, com nossa linguagem, falando daquilo que precisamos. Dentro da minha vida de ativista e trabalhando dentro do Conselho Municipal de Mulheres, muitas vezes consegui ver mulheres que não estavam dentro do ativismo, dentro do combate participar com orgulho e ainda chamar outras moças para as atividades, palestras ou encontros. Nossa meta é conseguir alcançar todas que têm diagnóstico positivo e até as que não têm diagnóstico para lutar por essa causa da qual engajamento é importante.”
Francisca comenta a importância de outras mulheres se identificarem e participarem junto do movimento. “Para atrair mais mulheres ao ativismo, precisamos falar sobre aids de uma maneira que possamos enxergar aquela mulher que nunca falou sobre seu diagnóstico ou que tem insegurança de dizer que tem HIV. Precisamos alcançá-las de tal modo que elas venham conhecer a luta, entender mais sobre seus diagnósticos e chamar outras mulheres para participar. É lindo o movimento feminino dentro da luta no combate à aids, existem vários movimentos e cada uma pode participar daquele que se identificar mais.”
Para Fabiana, o feminismo é um precursor da liberdade feminina e da autonomia sexual, e afirma que muitos lutavam pela saúde, mas ninguém lutava tanto pela saúde das mulheres quanto elas mesmas. “Muitos falam mal do feminismo, inventam que não ajudou nada, mas antes não tínhamos a autonomia sobre nossas próprias vidas, para lutarmos pelo nosso conhecimento na saúde, para termos conhecimento sobre a aids, por exemplo. Obviamente, o âmbito da saúde é uma questão universal para todos, mas a luta destinada aos corpos femininos começou quando as mulheres se juntaram e resolveram pedir por mais atenção em relação à nossa saúde e aos nossos problemas também.”
Lygia Cavalcante
Dica de entrevista
Francisca Batista de Souza
Email: franciscabatistadesouza2019@gmail.com
Fabiana O. de Carvalho
Email: carvalhofabi709@gmail.com



