A primeira pessoa a procurar ajuda não falou com um médico. Não entrou em um consultório nem ligou para um serviço de emergência. Em desespero, recorreu a um chatbot. Durante a conversa, a inteligência artificial identificou sinais de risco iminente de suicídio, acionou um profissional de saúde e, no dia seguinte, recebeu uma mensagem da usuária que resumiu o impacto daquele atendimento em uma única frase: “Você me levou a sério quando eu não conseguia.”
O relato emocionou uma plateia lotada durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), no Rio de Janeiro, mas também sintetizou o grande dilema discutido por pesquisadores, desenvolvedores e especialistas em saúde pública: a inteligência artificial pode representar uma das maiores revoluções na resposta ao HIV desde o surgimento da terapia antirretroviral, mas seu sucesso dependerá menos da capacidade dos algoritmos e muito mais da confiança das pessoas.
Foi justamente essa discussão que norteou o simpósio “Inteligência Artificial para Todos: Construindo Confiança, Equidade e Soluções Mais Inteligentes para o HIV”, que reuniu especialistas da Fundação Gates, Universidade Monash, Audere, Genesis Analytics e pesquisadores africanos para discutir como a IA já está transformando o diagnóstico, a prevenção, o tratamento e o autocuidado de pessoas vivendo com HIV — ao mesmo tempo em que levanta questões urgentes sobre privacidade, discriminação, vieses algorítmicos e direitos humanos.
Ao contrário do entusiasmo quase irrestrito que costuma cercar a inteligência artificial, o debate foi marcado por um tom de cautela. A mensagem central foi clara: a tecnologia, sozinha, não resolverá os desafios da epidemia. Sem regras claras, supervisão humana e participação ativa das comunidades, ela poderá ampliar justamente as desigualdades que deveria combater.
“Nesta era de escassez de recursos, vemos a IA como uma promessa real para ampliar o acesso seguro e livre de estigma aos serviços de HIV, especialmente para as pessoas que os sistemas frequentemente deixam para trás”, afirmou Maaya Sundaram, da Fundação Gates, responsável pela moderação da sessão. “Mas essa promessa é totalmente condicional. As populações mais vulneráveis são as que mais têm a ganhar — e também as que mais têm a perder caso seus dados sejam utilizados de forma inadequada.”
Segundo ela, confiança não pode ser tratada como um detalhe tecnológico, mas como a base sobre a qual qualquer solução de inteligência artificial deverá ser construída.
“Precisamos garantir que os dados estejam seguros e, principalmente, que as vidas dessas pessoas também estejam seguras. Se usuários, profissionais de saúde, gestores e comunidades não confiarem nesses sistemas, simplesmente deixarão de utilizá-los.”
A urgência do tema, destacou Sundaram, já não pertence ao futuro. Ela lembrou que cerca de 40 milhões de pessoas utilizam diariamente o ChatGPT para fazer perguntas relacionadas à saúde, e que aproximadamente 70% dessas consultas ocorrem durante a madrugada, justamente quando serviços de saúde e profissionais não estão disponíveis. Para ela, esse comportamento evidencia que a inteligência artificial já faz parte do cotidiano da população e exige respostas rápidas dos sistemas públicos de saúde.
A IA já começou a transformar os serviços de HIV
Se há poucos anos a inteligência artificial era vista apenas como uma ferramenta promissora para pesquisas científicas, hoje ela já ocupa um espaço concreto na assistência.
Eric Pui Fung Chow, pesquisador da Universidade Monash, na Austrália, apresentou uma série de projetos que utilizam grandes modelos de linguagem e aprendizado de máquina para apoiar profissionais de saúde e usuários em diferentes etapas do cuidado, desde a orientação inicial até o diagnóstico de infecções sexualmente transmissíveis.
Segundo ele, a IA já é capaz de auxiliar na triagem clínica, responder dúvidas frequentes sobre HIV, estimar riscos individuais de infecção e sugerir exames mais adequados a partir das características apresentadas pelo usuário.
Mas os avanços vieram acompanhados de uma constatação importante: modelos genéricos de inteligência artificial ainda cometem erros relevantes quando utilizados em saúde.
Ao analisar estudos publicados recentemente, Chow mostrou que o ChatGPT apresentou bom desempenho ao recomendar práticas de sexo seguro, vacinação contra HPV e medidas gerais de prevenção. Em contrapartida, deixou de recomendar adequadamente o uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) em diversas situações clínicas e nem sempre enfatizou a importância da testagem para infecções sexualmente transmissíveis.
Em outro exemplo, um chatbot especializado em HIV falhou ao responder uma pergunta simples sobre mpox porque interpretou incorretamente a forma como a doença foi digitada pelo usuário.
“O problema não é apenas tecnológico”, explicou o pesquisador. “Também precisamos considerar os diferentes níveis de alfabetização em saúde e a enorme diversidade linguística das pessoas que utilizarão essas ferramentas.”
Quando a IA entende o contexto, ela acerta mais
Para enfrentar essas limitações, pesquisadores australianos desenvolveram um chatbot próprio, alimentado exclusivamente com protocolos clínicos e conteúdos especializados em HIV e infecções sexualmente transmissíveis. O desempenho foi significativamente superior ao de modelos genéricos.
Em um dos testes apresentados durante a conferência, uma pergunta envolvendo a sigla “MG” — referência à bactéria Mycoplasma genitalium, causadora de uma infecção sexualmente transmissível — foi corretamente interpretada pelo sistema especializado, que apresentou orientações clínicas compatíveis com as recomendações médicas.
Já o ChatGPT interpretou a mesma sigla como deficiência de magnésio. “O usuário comum dificilmente conseguirá identificar quando uma resposta da inteligência artificial está errada”, alertou Chow. “Esse talvez seja um dos maiores desafios que enfrentamos hoje.”
Os pesquisadores também desenvolveram uma ferramenta capaz de calcular automaticamente o risco individual para HIV e outras ISTs. Após responder perguntas sobre comportamento sexual e características demográficas, o usuário recebe uma estimativa personalizada de risco, recomendações de exames e indicação sobre a necessidade de iniciar a PrEP.
Outro projeto utiliza fotografias de lesões para auxiliar na identificação de doenças sexualmente transmissíveis. Apesar do potencial, os resultados mostram que ainda há um longo caminho pela frente.
Ao comparar três dos principais modelos de inteligência artificial disponíveis atualmente — ChatGPT, Gemini e Claude — os pesquisadores observaram que nenhum deles apresentou desempenho suficientemente confiável para substituir a avaliação médica baseada em imagens clínicas.
Mesmo o sistema com melhor desempenho acertou apenas cerca de 40% dos diagnósticos, enquanto, em testes realizados com imagens de mpox, nenhum dos modelos conseguiu identificar corretamente todos os casos apresentados.
Para Chow, a conclusão é inequívoca. “A inteligência artificial oferece oportunidades extraordinárias para ampliar o acesso aos serviços, tornar a prevenção mais personalizada e aumentar a eficiência dos sistemas de saúde. Mas sua implementação precisa ser segura, baseada em evidências científicas, culturalmente adequada e sempre acompanhada de supervisão humana.”
Quando a inteligência artificial salva vidas
A apresentação mais emocionante do simpósio veio da norte-americana Sarah Morris, diretora de produtos da Audere, organização que desenvolve plataformas de inteligência artificial para ampliar o acesso aos serviços de HIV em países africanos.
Ela abriu sua palestra sem gráficos ou estatísticas. Preferiu contar uma história. Era a mensagem enviada por uma mulher que havia sobrevivido a uma tentativa de suicídio depois que um assistente virtual identificou sinais de risco durante uma conversa e acionou imediatamente um profissional de saúde.
“Você me levou a sério quando eu não conseguia”, escreveu a paciente. Para Morris, aquela frase resume aquilo que nenhuma métrica consegue medir completamente. “A confiança.”
Segundo ela, as questões mais difíceis da vida raramente aparecem na primeira conversa.
“As pessoas não revelam imediatamente que estão pensando em tirar a própria vida, que sofrem violência doméstica ou que interromperam o tratamento do HIV. Elas contam isso apenas quando confiam no espaço em que estão.”
Essa constatação levou a Audere a desenvolver plataformas de inteligência artificial desenhadas não apenas para responder perguntas, mas para construir relações contínuas de confiança.
Os sistemas funcionam principalmente pelo WhatsApp e oferecem atendimento permanente para pessoas vivendo com HIV, adolescentes, gestantes, trabalhadoras do sexo e outros grupos em situação de maior vulnerabilidade na África do Sul, Zimbábue e, em breve, Moçambique.
Ao contrário dos tradicionais chatbots que apenas respondem perguntas, essas plataformas acompanham usuários durante semanas ou meses.
Quanto maior o vínculo criado, maior também a probabilidade de identificar problemas que dificilmente apareceriam durante uma consulta convencional.
“Suicídio e violência baseada em gênero normalmente surgem apenas depois da quarta conversa. Às vezes, depois de vários dias. Isso só acontece porque a confiança foi construída pouco a pouco.”
Os números mostram que a IA pode aproximar as pessoas dos serviços de saúde
Os resultados apresentados impressionaram. Mais de 10 mil adolescentes e jovens mulheres utilizaram uma das plataformas desenvolvidas pela Audere.
Entre aquelas que voltaram para uma segunda conversa com o assistente virtual, a probabilidade de realizar o teste para HIV foi cinco vezes maior do que entre quem utilizou a ferramenta apenas uma vez.
Também houve aumento expressivo no início da PrEP, a profilaxia pré-exposição ao HIV. Cada novo dia de interação com o sistema esteve associado a um aumento de aproximadamente 19% na chance de realização do teste para HIV.
Os pesquisadores também observaram que, à medida que as conversas se aprofundavam, o vínculo com os serviços de saúde praticamente dobrava.
Hoje, a plataforma já contabiliza mais de 25 mil testes de HIV relatados, incluindo autotestes cuja leitura é validada por inteligência artificial a partir de fotografias enviadas pelos próprios usuários.
Entre as pessoas que informaram viver com HIV, 83% declararam estar em tratamento, permitindo que a equipe acompanhe os demais pacientes para reforçar estratégias de adesão.
Outro dado chamou atenção. As ferramentas conseguem identificar justamente as pessoas com maior vulnerabilidade.
Usuários que iniciaram a PrEP após utilizar a plataforma apresentavam probabilidade significativamente maior de relatar exposições recentes ao HIV, relações sexuais sem preservativo ou episódios de violência baseada em gênero, demonstrando que os algoritmos podem contribuir para direcionar recursos justamente para quem mais necessita deles.
Segurança antes da inovação
Apesar dos resultados animadores, Morris fez questão de desfazer uma ideia recorrente em torno da inteligência artificial: a de que ela substituirá profissionais de saúde.
Segundo ela, ocorre exatamente o contrário. “A segurança é o nosso produto.” Todas as conversas realizadas pelas plataformas são monitoradas continuamente.
Quando a inteligência artificial identifica sinais relacionados a automutilação, depressão grave, violência doméstica ou outros riscos relevantes, o caso é imediatamente encaminhado para profissionais humanos. “A inteligência artificial faz o trabalho pesado. Os profissionais entram quando realmente são necessários.”
Mesmo assim, a supervisão clínica continua sendo permanente. Após aperfeiçoamentos nos algoritmos, a taxa de falhas na identificação de mensagens relacionadas ao risco de suicídio caiu para menos de 0,1%.
Ainda assim, Morris insistiu que a presença humana continuará sendo indispensável.
“Quatro em cada cinco usuários conseguem resolver suas demandas apenas conversando com a IA. Mas justamente aquele quinto paciente pode estar vivendo uma situação de extremo risco.”
A tecnologia também pode reproduzir preconceitos
Se a primeira metade do simpósio mostrou o potencial da inteligência artificial para ampliar o acesso aos serviços, a pesquisadora independente Primrose Matambanadzo, do Zimbábue, concentrou sua apresentação nos riscos.
Segundo ela, algoritmos não nascem neutros. Eles aprendem a partir dos dados disponíveis. E, quando esses dados carregam desigualdades históricas, preconceitos sociais ou ausência de determinados grupos populacionais, a inteligência artificial simplesmente passa a reproduzir essas mesmas distorções. “O risco não é apenas tecnológico. É social.”
Ela explicou que populações historicamente invisibilizadas podem continuar invisíveis dentro dos sistemas de IA caso seus dados estejam sub-representados durante o treinamento dos modelos.
Isso significa que determinadas comunidades podem receber recomendações menos precisas, diagnósticos equivocados ou simplesmente deixar de ser priorizadas.
“O que não podemos permitir é que as desigualdades já existentes na prevenção e no tratamento do HIV sejam perpetuadas pelos algoritmos.”
Segundo a pesquisadora, questões como privacidade, confidencialidade, autonomia dos usuários e responsabilidade precisam acompanhar toda a vida útil dessas ferramentas, desde sua concepção até sua implementação.
Não basta desenvolver um bom algoritmo. É necessário monitorá-lo continuamente. Ela comparou esse processo à farmacovigilância utilizada para acompanhar medicamentos após sua aprovação. “No futuro, talvez precisemos de algo semelhante para os algoritmos.”
As comunidades precisam participar da construção da IA
Uma das principais recomendações apresentadas durante o simpósio foi que pessoas vivendo com HIV e comunidades vulnerabilizadas deixem de ser apenas usuárias dessas tecnologias para se tornarem participantes de seu desenvolvimento.
No Zimbábue, por exemplo, trabalhadores do sexo participaram diretamente da criação de uma plataforma destinada ao seu próprio atendimento.
Eles ajudaram a identificar respostas consideradas estigmatizantes, corrigiram linguagens inadequadas e colaboraram na adaptação do sistema à realidade local.
Segundo Matambanadzo, essa participação foi decisiva para que os usuários passassem a confiar na ferramenta.
“O envolvimento da comunidade precisa começar na fase de desenho da tecnologia, não quando ela já está pronta.”
Ela também destacou outro desafio frequentemente negligenciado: milhões de pessoas sequer possuem acesso à internet, smartphones ou pacotes de dados móveis.
“Se não pensarmos nisso desde o início, corremos o risco de criar uma nova camada de desigualdade justamente para quem mais precisa dos serviços.”
O desafio agora é transformar potencial em política pública
Depois de uma hora de debates, os especialistas chegaram a um consenso: a inteligência artificial já deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade na resposta ao HIV. O desafio agora não é mais desenvolver novas ferramentas, mas criar condições para que elas sejam implementadas de forma ética, segura e sustentável.
Sarah Magni, da Genesis Analytics, lembrou que muitas soluções apresentadas como inovadoras nunca ultrapassam a fase de projeto-piloto. Segundo ela, o problema raramente está na tecnologia, mas na ausência de um ecossistema capaz de sustentá-la. “Sabemos que a IA pode preencher lacunas importantes no cuidado ao HIV. A pergunta é: por que essas soluções ainda não chegam à escala necessária para produzir impacto em saúde pública?”, questionou.
Para a pesquisadora, será necessário construir marcos regulatórios claros, definir quem será responsável pela governança dos dados, garantir financiamento de longo prazo e prever, desde o início, os custos da supervisão humana, considerada indispensável para a segurança dos pacientes.
Os participantes também defenderam a criação de estruturas independentes capazes de orientar governos sobre regulamentação, implementação e avaliação das ferramentas de IA, evitando que cada país ou instituição desenvolva soluções isoladas e incompatíveis entre si.
Durante o debate com o público, uma preocupação apareceu repetidamente: a inteligência artificial poderá substituir profissionais de saúde? A resposta dos palestrantes foi categórica. Não.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




