“A guerra às drogas fabrica doenças”, dizem especialistas ao defender redução de danos na AIDS 2026

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Especialistas reunidos na AIDS 2026 afirmam que políticas punitivas ampliam o estigma, dificultam o acesso à saúde e defendem a redução de danos como estratégia baseada em evidências, direitos humanos e cuidado. 

A sessão “O poder transformador da redução de danos”, realizada durante a AIDS 2026, promoveu um amplo debate sobre os impactos da política global de combate às drogas e apresentou evidências de que estratégias baseadas em direitos humanos, cuidado e participação comunitária são mais eficazes para enfrentar o HIV, as hepatites virais e outras consequências associadas ao uso de drogas.

Na abertura, os moderadores Jessica Whitbread, da AWID, e Anton Basenko, da Alliance for Public Health, lembraram que, após décadas de “guerra às drogas”, permanece a pergunta central da sessão: proteger pessoas e reduzir seu sofrimento ou manter políticas punitivas que falharam em seus próprios objetivos.

Guerra às drogas fracassou, afirma especialista

O primeiro palestrante, Alexei Lakhov, da EuroNPUD, iniciou sua apresentação homenageando três amigos que morreram por overdose e lembrou que pelo menos três milhões de pessoas perderam a vida da mesma forma na última década.

Lakhov defendeu que a política proibicionista precisa ser julgada pelos resultados que prometeu alcançar. “A guerra às drogas prometeu menos drogas, menos pessoas usando drogas e menos danos. Mas os números mostram exatamente o contrário”, afirmou.

Para embasar sua avaliação, apresentou dados das Nações Unidas que apontam que 331 milhões de pessoas usaram drogas em 2024, um aumento de 34% em relação a dez anos atrás. No mesmo período, mais de 755 novas substâncias sintéticas passaram a circular no mercado ilícito. Para o especialista, a repressão não reduz o consumo nem o tráfico, mas impulsiona um mercado cada vez mais perigoso e imprevisível.

O especialista destacou ainda que pessoas que injetam drogas enfrentam risco 34 vezes maior de adquirir HIV, segundo o UNAIDS, e que quase metade vive com hepatite C. Também chamou atenção para o crescimento das infecções por HIV na Europa Oriental, Ásia Central, América Latina e região do Oriente Médio e Norte da África.

Embora existam tratamento para HIV, cura para hepatite C, PrEP, vacinas, naloxona, seringas estéreis e terapia agonista opioide, Lakhov afirmou que o maior obstáculo continua sendo o estigma.

“Quando a sociedade criminaliza alguém que usa drogas, construímos um muro entre essa pessoa e o cuidado que ela merece. As pessoas se afastam das clínicas, dos testes e dos profissionais de saúde por medo”, afirmou. Para Lakhov, “é assim que uma política fabrica doenças”.

O especialista também chamou atenção para a ausência de programas de redução de danos nas prisões. Enquanto 93 países oferecem programas de troca de seringas na comunidade, apenas 11 disponibilizam esse serviço em unidades prisionais. Como exemplo, citou a experiência do Canadá, onde um espaço supervisionado para consumo de drogas dentro de uma prisão registrou nenhuma morte por overdose, reforçando que medidas de redução de danos podem preservar vidas mesmo em ambientes de maior vulnerabilidade.

Ao abordar a população LGBTQIA+, lembrou que pessoas LGBT+ apresentam risco duas a três vezes maior de desenvolver dependência de drogas devido à discriminação, violência e rejeição familiar. Também defendeu a descriminalização do uso de drogas como parte da resposta ao HIV, ressaltando que países como Portugal já demonstraram resultados positivos.

Encerrando sua fala, afirmou que a reforma precisa ir além da criação de mercados legais para determinadas substâncias.

“A guerra às drogas não está terminando, mas cabe a nós escrever o que vem depois. Não devemos entregar a caneta às pessoas que lucraram com os últimos 50 anos.”

Prazer também precisa fazer parte da discussão

Na segunda apresentação, Dr. T Charles Witzel, da University College London, propôs um olhar pouco explorado nas pesquisas sobre drogas: o prazer.

Dr. Witzel afirmou que a principal motivação para o consumo de drogas continua sendo a busca por prazer, intimidade, confiança e redução das inibições. “Não acho que seja controverso dizer que a principal razão pela qual as pessoas usam drogas é o prazer”, afirmou. O pesquisador destacou, porém, que essa dimensão costuma desaparecer das pesquisas, dominadas pelo chamado “paradigma do risco”.

“O paradigma do risco apaga o prazer ao tratar o uso de drogas como um problema a ser medido e reduzido.”

Ao apresentar resultados de estudos realizados na Tailândia com homens gays e bissexuais que praticam uso sexualizado de drogas, o pesquisador mostrou que as próprias comunidades desenvolvem estratégias sofisticadas para conciliar prazer e redução de riscos. Na avaliação dele, ignorar essa dimensão dificulta a formulação de políticas públicas mais efetivas.

“O paradigma do risco apaga o prazer ao tratar o uso de drogas apenas como um problema a ser medido e reduzido”, afirmou.

O pesquisador também criticou a exportação de agendas de pesquisa produzidas em países de alta renda para contextos completamente diferentes, sem considerar especificidades culturais e sociais.

Apresentando o estudo Vibes, desenvolvido na Tailândia, Dr. Witzel explicou que o projeto coloca o prazer no centro da investigação justamente porque reconhece que essa é uma das principais razões pelas quais as pessoas utilizam drogas. Os primeiros resultados mostram elevada adesão dos participantes e reforçam que prazer sexual, intimidade e socialização aparecem entre as principais motivações relatadas.

Redução de danos é filosofia de vida, afirma ativista latino-americano

Representando a Rede Latino-Americana de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD), Ernesto Cortes, da Costa Rica, relatou sua própria experiência de perseguição policial, apesar de viver em um país onde o porte para uso pessoal não é criminalizado.

Cortes contou que, durante muitos anos, acreditou que o assédio policial e a violência contra pessoas que usam drogas eram inevitáveis. A percepção mudou ao ingressar em movimentos organizados de usuários de drogas. “Percebi que existiam outras formas de lidar com isso. Que somos seres humanos e merecemos ser tratados com direitos e dignidade”, afirmou.

O ativista explicou que, na América Latina, o uso injetável de drogas e de opioides é menos frequente do que em outras regiões, o que fez com que a redução de danos historicamente permanecesse à margem das respostas nacionais ao HIV. “Na maioria dos países que ainda têm Planos Nacionais Estratégicos, as pessoas que usam drogas não estão incluídas e sequer são consideradas populações-chave”, disse.

Ele apresentou pesquisas lideradas pela própria comunidade em dez países latino-americanos mostrando que pessoas vivendo com HIV que usam drogas enfrentam barreiras importantes para acessar tratamento, incluindo exigências de internação compulsória ou reabilitação antes do início da terapia antirretroviral. Também relatou o caso de uma mulher trans da Costa Rica que morreu de AIDS após se recusar a interromper o uso de cocaína para conseguir tratamento.

Para Cortes, a redução de danos precisa ser entendida muito além da distribuição de insumos.

“A redução de danos, para nós, é mais uma filosofia do que uma estratégia; mais uma forma de viver e cuidar uns dos outros do que apenas distribuir seringas, naloxona ou terapia com agonistas opióides.”

Cortes defendeu a redução de danos como um compromisso ético, científico e político com a vida, fundamentado na escuta ativa, no acolhimento, na construção de vínculos, no reconhecimento da autonomia e no respeito às escolhas individuais. “Seu objetivo não é impor a abstinência, mas expandir as possibilidades de cuidado, saúde, proteção e qualidade de vida. Respeitamos o ritmo, os desejos e as escolhas de cada um”, afirmou.

Mulheres enfrentam múltiplas barreiras

Encerrando as apresentações, Rita Gatonye, da Women in Response to HIV/AIDS and Drug Addiction (WRADA), mostrou como a redução de danos transforma trajetórias individuais, comunidades e políticas públicas.

Rita Gatonye defendeu que a redução de danos deve ser compreendida como uma forma de transformar vidas, e não apenas como uma estratégia voltada ao HIV ou ao uso de drogas. “Para nós, é um modo de vida, e a resposta mais lógica, baseada em evidências, para qualquer questão relacionada ao uso de drogas e ao HIV”, afirmou.

Para ilustrar esse impacto, ela contou a história de Anya, uma mulher da Moldávia que vivia em situação de rua, fazia uso de drogas, foi presa diversas vezes e adquiriu HIV antes de acessar um serviço de redução de danos. “Pela primeira vez, ela encontrou acolhimento sem julgamentos. Encontrou pessoas que não exigiam abstinência para que recebesse terapia antirretroviral e outros cuidados”, relatou. Após sete anos no programa, Anya recuperou a guarda do filho e passou a liderar uma organização comunitária. “É impressionante como a redução de danos muda a trajetória da vida de uma pessoa quando seus princípios são aplicados”, destacou.

Ao concluir, Gatonye reforçou que a transformação promovida pela redução de danos ultrapassa o âmbito individual. “Não é segredo algum que a redução de danos é transformadora. Trata-se apenas de aceitá-la e torná-la mainstream como a maneira mais lógica e baseada em evidências de encarar o uso de drogas e o HIV”, afirmou.

A ativista também apresentou exemplos do Zimbábue, onde mulheres passaram a organizar sua própria rede nacional, e do Quênia, onde pessoas que usam drogas lideraram a elaboração de um projeto de lei sobre redução de danos atualmente em tramitação no Parlamento.

Para ela, a principal transformação ocorre quando pessoas diretamente afetadas passam a ocupar os espaços de decisão.

“Não é segredo que a redução de danos é transformadora. Basta aceitá-la e torná-la a forma mais lógica e baseada em evidências de enfrentar o uso de drogas e o HIV.”

A sessão evidenciou que fortalecer a resposta ao HIV entre pessoas que usam drogas exige ir além de intervenções biomédicas. Ao longo das apresentações, os especialistas defenderam que a redução de danos deve ser reconhecida como uma estratégia baseada em evidências, direitos humanos e participação comunitária, capaz de ampliar o acesso ao cuidado e reduzir o impacto do estigma, da criminalização e das desigualdades sociais.

Em comum, os palestrantes sustentaram que políticas construídas com a participação das próprias comunidades, respeitando diferentes contextos e experiências, são fundamentais para que ninguém fique para trás na resposta à epidemia.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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