A geração que sobreviveu ao HIV agora enfrenta um novo desafio: envelhecer

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Sessão da AIDS 2026 mostra que viver mais com HIV significa enfrentar doenças crônicas, alterações cognitivas, fragilidade física e desigualdades acumuladas ao longo da vida. Especialistas defendem um novo modelo de cuidado, capaz de acompanhar crianças, adolescentes, adultos e idosos que vivem com o vírus.

Há pouco mais de três décadas, chegar à velhice era um sonho distante para quem recebia o diagnóstico de HIV. Hoje, graças à terapia antirretroviral, milhões de pessoas vivem décadas com o vírus. O sucesso da ciência, no entanto, abriu um novo capítulo da epidemia: como envelhecer com qualidade de vida.

Essa foi a principal discussão do simpósio “Envelhecer com HIV ao longo da vida”, realizado nesta quinta-feira (30), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro.

Ao longo de uma hora, pesquisadores do Brasil, Estados Unidos, Austrália, Argentina e África do Sul apresentaram evidências de que o envelhecimento em pessoas vivendo com HIV não pode ser entendido apenas pela idade cronológica. O vírus, a inflamação persistente, décadas de tratamento, as condições sociais, o estigma, a identidade de gênero e o acesso aos serviços de saúde moldam uma trajetória de envelhecimento diferente daquela observada na população geral.

O resultado é um aumento do risco de doenças cardiovasculares, diabetes, alterações metabólicas, declínio cognitivo, fragilidade física, isolamento social e perda da capacidade funcional, muitas vezes aparecendo anos antes do esperado.

Mais do que discutir idosos vivendo com HIV, a sessão propôs uma mudança de paradigma: o envelhecimento começa ainda na infância e acompanha toda a vida.

A primeira geração que nasceu com HIV está chegando à vida adulta

O infectologista Jorge Pinto, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), abriu as apresentações mostrando que uma das maiores conquistas da resposta ao HIV também criou um dos maiores desafios da atualidade.

Graças aos avanços do tratamento, milhares de crianças infectadas por transmissão vertical sobreviveram, cresceram e hoje chegam à adolescência e à vida adulta. Mas essa transição acontece justamente em uma das fases mais delicadas da vida.

Segundo o pesquisador, esses jovens deixam para trás equipes multiprofissionais que os acompanharam desde a infância para ingressar em serviços destinados aos adultos, perdendo vínculos construídos durante anos. Ao mesmo tempo, enfrentam todas as transformações típicas da adolescência: construção da identidade, sexualidade, autonomia, relacionamentos e inserção social.

Os dados apresentados durante o simpósio mostram que essa fase pode comprometer diretamente o tratamento. Entre os jovens que fazem essa transição, as taxas de falta de supressão viral podem chegar a 30%.

Jorge Pinto também mostrou que quem nasceu com HIV enfrenta uma exposição muito precoce à inflamação crônica, justamente quando o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento. Essa combinação pode acelerar processos biológicos relacionados ao envelhecimento e favorecer o aparecimento de doenças em múltiplos órgãos ainda na juventude.

Os números impressionam. Em uma das coortes apresentadas, aproximadamente metade dos participantes já apresentava diabetes tipo 2 e colesterol elevado aos 30 anos de idade. Hipertensão também aparecia em frequência elevada para essa faixa etária, revelando um perfil de envelhecimento muito diferente do observado entre adultos jovens sem HIV.

O pesquisador também chamou atenção para o peso da saúde mental nessa geração, marcada por perdas, estigma, vulnerabilidade social e dificuldades na manutenção do cuidado contínuo.

O HIV deixou de ser apenas uma doença infecciosa

A infectologista Maria Eugenia Negro, da Fundação Huésped, mostrou como a prática clínica mudou completamente nas últimas décadas. “A infecção pelo HIV mudou do manejo de doenças infecciosas para um cuidado cardiometabólico integrado”, afirmou.

Segundo ela, controlar a carga viral continua sendo essencial, mas já não é suficiente.

Hoje, pessoas vivendo com HIV apresentam maior frequência de diabetes, obesidade, dislipidemia, doença hepática gordurosa e doenças cardiovasculares. Além dos fatores de risco tradicionais, convivem com um elemento próprio da infecção: a inflamação crônica persistente.

Essa inflamação alimenta um ciclo contínuo de danos ao organismo. “Pessoas vivendo com HIV têm o dobro do risco de doença cardiovascular, e os eventos cardiovasculares podem ocorrer até dez anos mais cedo do que o esperado em comparação com pessoas sem HIV”, destacou a pesquisadora.

Ela também apresentou dados preocupantes sobre doença hepática gordurosa.

Segundo a pesquisadora, aproximadamente metade dos pacientes atendidos em alguns serviços especializados apresenta esteatose hepática, e parte deles evolui para formas avançadas de fibrose, aumentando inclusive o risco de câncer de fígado.

Prevenir é tão importante quanto tratar

Para Maria Eugenia Negro, o acompanhamento clínico das pessoas vivendo com HIV precisa incorporar definitivamente a prevenção das doenças crônicas.

“Precisamos ser mais proativos na avaliação do risco cardiovascular em todos os pacientes”, defendeu.

Entre as estratégias discutidas está o uso de agonistas do receptor de GLP-1, medicamentos que vêm revolucionando o tratamento da obesidade e do diabetes.

Além da perda de peso, eles reduzem gordura visceral, gordura no fígado, inflamação sistêmica e risco cardiovascular. O principal obstáculo, segundo ela, ainda é o acesso.

“O problema é a acessibilidade e a disponibilidade”, observou a pesquisadora ao discutir a incorporação dessas terapias.

Outro tema abordado foi o ganho de peso associado a alguns antirretrovirais.

Maria Eugenia apresentou uma revisão envolvendo 22 estudos clínicos que identificou um ganho de peso modesto associado ao tenofovir alafenamida (TAF). Apesar disso, ela alertou que ainda não existem evidências suficientes para recomendar mudanças rotineiras na terapia apenas por esse motivo.

“Na maioria dos pacientes, acho que não devemos mudar” o tratamento antirretroviral apenas em razão do ganho de peso, concluiu.

O cérebro também envelhece

A neurologista Lucette Cysique, da Universidade de New South Wales, na Austrália, apresentou evidências de que o envelhecimento cerebral é outro grande desafio para quem vive com HIV há muitos anos.

Embora o tratamento antirretroviral tenha reduzido drasticamente as formas mais graves de comprometimento neurológico, alterações cognitivas mais sutis continuam sendo frequentes e podem comprometer memória, atenção, velocidade de processamento das informações e qualidade de vida.

Segundo a pesquisadora, o envelhecimento cerebral resulta da interação entre inflamação persistente, doenças cardiovasculares, fatores metabólicos e aspectos sociais, exigindo acompanhamento multidisciplinar e diagnóstico precoce.

Um desafio que também cresce na África

Encerrando o simpósio, o pesquisador François Venter, da África do Sul, apresentou uma das maiores coortes emergentes de idosos vivendo com HIV na África Subsaariana.

O crescimento dessa população representa uma nova realidade para países que, durante décadas, concentraram seus esforços em reduzir mortes relacionadas à aids.

Agora, os sistemas de saúde precisarão responder a uma população que envelhece convivendo simultaneamente com HIV, hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, limitações funcionais e demandas crescentes por cuidados de longo prazo.

O novo retrato da epidemia

O simpósio deixou claro que o maior desafio da resposta ao HIV já não é apenas prolongar a vida. É garantir que esses anos sejam vividos com autonomia, saúde e dignidade.

Isso significa integrar infectologia, geriatria, neurologia, endocrinologia, cardiologia, reabilitação, saúde mental e assistência social em um mesmo modelo de cuidado.

Porque, quatro décadas depois do início da epidemia, a maior vitória da ciência criou também sua missão mais complexa: cuidar de uma geração que sobreviveu ao HIV e agora precisa aprender — junto com os sistemas de saúde — como envelhecer bem.

Redação da Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

Apoios