Enquanto direitos são celebrados, pessoas LGBTQIA+ ainda enfrentam violência, exclusão e medo dentro de casa, nas escolas, nas ruas e até nos serviços de saúde
Em muitas famílias brasileiras, ainda existe um silêncio que machuca. O filho que aprende cedo a esconder a própria voz. A menina que teme ser rejeitada dentro da própria casa. A pessoa trans que abandona a escola para sobreviver. O medo de andar na rua, de demonstrar afeto, de existir plenamente.
Neste 17 de maio, o mundo marca o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, criado após a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1990, deixar de considerar a homossexualidade uma doença. Mais de três décadas depois, porém, milhões de pessoas LGBTQIA+ seguem convivendo diariamente com o preconceito, a violência e a exclusão.
No Brasil, o cenário continua alarmante.
Dados recentes do Atlas da Violência apontam crescimento superior a 1.000% nos registros de violência contra a população LGBTQIA+ na última década, reforçando uma realidade cruel: o país segue entre os que mais matam pessoas LGBT no mundo.
Por trás das estatísticas existem histórias interrompidas, sonhos silenciados e vidas marcadas pela necessidade constante de resistir.

“É importante dar visibilidade à problemática que ainda existe”, afirma Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI+ e ativista há 43 anos. “O dia 17 de maio foi uma grande vitória, quando a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar doença a homossexualidade.”
Para quem atravessou mais de quatro décadas de militância, a data carrega memória, orgulho, mas também urgência.
Direitos conquistados, vidas ainda vulneráveis
Nas últimas décadas, o Brasil acumulou conquistas históricas para a população LGBTQIA+: o reconhecimento do casamento civil igualitário, a adoção por casais homoafetivos, a criminalização da LGBTfobia e o direito à retificação de nome e gênero para pessoas trans.
Mas, longe das decisões judiciais e dos discursos institucionais, a realidade cotidiana ainda é marcada pelo medo.

“A gente conseguiu avanços, mas eles ficaram no campo da conquista e ainda não se efetivaram completamente”, afirma Dimitri Nascimento Sales, advogado e membro consultor da Comissão Especial da Diversidade Sexual e Gênero do Conselho Federal da OAB.
Segundo Dimitri, o país ainda falha em proteger efetivamente a população LGBTQIA+ da violência cotidiana.
“A gente não conseguiu transformar a criminalização da homofobia em um instrumento real de contenção das violências”, afirma.
Enquanto isso, discursos de ódio seguem atravessando famílias, escolas, igrejas e instituições públicas.
“Principalmente hoje, a LGBTfobia é causada pelas interpretações errôneas dos livros sagrados”, diz Toni Reis. “Isso se tornou um problema dentro das famílias, das instituições e até das câmaras municipais.”
A dor de existir em uma sociedade que exclui
Para além das agressões físicas, a LGBTfobia produz marcas emocionais profundas.
“O discurso de ódio impacta na saúde mental e gera o chamado estresse de minoria”, explica Toni. “As pessoas começam a duvidar da própria dignidade.”
É o adolescente que cresce ouvindo que está errado. A mulher lésbica invisibilizada nos serviços de saúde. A pessoa trans tratada sem respeito em hospitais, escolas e ambientes de trabalho.
“Imagina você ser tratado mal na família, na escola, na igreja, na empresa e na sociedade”, diz o ativista. “Isso causa ansiedade, depressão e vários transtornos psicológicos.”
Segundo Toni, 85% da população LGBTQIA+ sofre bullying homofóbico nas escolas. Muitas pessoas trans acabam expulsas simbolicamente dos espaços de ensino e empurradas para situações extremas de vulnerabilidade social.
Dimitri Sales acredita que essa violência não é acidental, mas parte da própria estrutura desigual da sociedade brasileira.
“A nossa sociedade é intolerante com as diferenças sexuais e de gênero”, afirma. “Ela tenta manter o poder concentrado nas mãos do homem branco, hétero, adulto.”
Quando o debate vira instrumento de exclusão
Nos últimos anos, pautas ligadas à diversidade sexual passaram a ocupar o centro de disputas políticas e ideológicas.
Discussões sobre o uso de banheiro por pessoas trans, educação sexual nas escolas e identidade de gênero deixaram de ser tratadas apenas como temas de direitos humanos e passaram a ser usadas como ferramenta de mobilização política.
“Não há interesse real nessas discussões. Elas foram instrumentalizadas para alimentar disputas ideológicas”, afirma Dimitri.
Segundo o advogado, o crescimento da extrema-direita e de movimentos autoritários ameaça diretamente a proteção dos direitos LGBTQIA+. “A principal reflexão que a gente precisa fazer hoje é: como proteger direitos em tempos de neofascismo?”, questiona.
Educação, acolhimento e democracia
Mesmo diante de um cenário duro, Toni Reis insiste na esperança. Para o ativista, a educação continua sendo a ferramenta mais poderosa no combate à LGBTfobia.
“A escola tem que ser um espaço de convivência da diversidade”, afirma. “É ali que as pessoas precisam aprender o respeito.”
Especialista em sexualidade humana, ele defende que crianças e adolescentes cresçam entendendo que diferenças não devem ser motivo de violência. “A criança precisa aprender desde cedo que todos nós somos diferentes e merecemos respeito.”
Dimitri também reforça que falar sobre educação sexual nunca significou incentivar sexualidade, mas proteger vidas. “É ensinar sobre respeito, autonomia do corpo, prevenção da violência e combate ao machismo”, explica.
“A gente precisa gostar de si para continuar lutando”
Depois de décadas enfrentando preconceito, violência e disputas políticas, Dimitri deixa uma mensagem simples, mas profundamente humana, para pessoas LGBTQIA+ que ainda convivem diariamente com a discriminação. “A vida não é fácil”, diz. “Mas vale a pena lutar para que a gente possa ter felicidade.”
E completa: “A gente precisa gostar de si para ter força e lutar para que a nossa vida seja melhor.”
Neste 17 de maio, mais do que lembrar uma data histórica, o movimento LGBTQIA+ volta às ruas, às redes e aos espaços públicos para reafirmar algo básico — mas que ainda segue sendo negado a milhares de pessoas: o direito de viver sem medo.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dimitri Sales
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Toni Reis
Instagram: @toni_reis



