À espera de uma resposta: atraso na comunicação de exame de HIV transforma a vida de Ítalo Ribeiro da Costa

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Quase seis meses separaram Ítalo do diagnóstico de HIV. O tempo entre um exame inconclusivo, a ausência de comunicação e o início do tratamento transformou sua vida e deu origem a uma luta pelo direito à informação

Quem acompanha o trabalho de Ítalo Ribeiro da Costa nas redes sociais dificilmente imagina que a trajetória do idealizador do Bixcoitando começou muito antes de o primeiro vídeo ser publicado ou de milhares de pessoas passarem a acompanhar suas reflexões sobre direitos humanos, diversidade, HIV, autismo e cidadania. O comunicador que hoje transforma informação em instrumento de acolhimento nasceu de uma experiência profundamente marcada pelo silêncio. Durante quase seis meses, ele procurou respostas para um corpo que adoecia sucessivamente sem saber que a explicação para tudo aquilo já havia passado por suas mãos, ainda que nunca lhe tivesse sido entregue.

Sete anos se passaram desde então. O vírus tornou-se indetectável graças ao tratamento, a Justiça da Bahia reconheceu que houve falha na prestação do serviço hospitalar ao concluir que o resultado do exame não foi comunicado adequadamente e a vida seguiu outro rumo. Ainda assim, quando decide falar sobre aquele período, Ítalo não começa pelo processo judicial, tampouco pela indenização fixada pelo Tribunal. Prefere voltar a uma lembrança aparentemente banal: um enfermeiro entrando no quarto do hospital com um formulário nas mãos.

“Foi o único documento que eu precisei assinar durante toda a internação”, recorda.

Naquele outubro de 2018, ele havia sido internado no Hospital Português, em Salvador, depois de apresentar um conjunto de sintomas que intrigava a equipe médica. Havia febre, cansaço intenso, alterações na pele e um quadro infeccioso que exigiu diversos exames para afastar diferentes hipóteses diagnósticas. Em meio à rotina de coleta de sangue, exames de imagem e avaliações clínicas, um enfermeiro explicou que seria realizada uma testagem para HIV e pediu sua autorização formal antes da coleta da amostra. Nada naquele momento despertou preocupação.

Formado em Biotecnologia, Ítalo conhecia o funcionamento dos testes diagnósticos, realizava exames periódicos e sabia da importância da testagem para quem mantinha vida sexual ativa. Pouco tempo antes da internação, inclusive, havia feito outro teste para HIV, cujo resultado fora negativo. Hoje sabe que provavelmente ainda estava na janela imunológica. Naquele momento, porém, a possibilidade de um diagnóstico positivo parecia distante.

Recebeu alta antes que o resultado do exame fosse liberado pelo laboratório. Disseram que seriam necessários alguns dias para a conclusão da análise. Voltou para casa convencido de que, caso houvesse qualquer alteração importante, seria comunicado. “Se tivesse alguma coisa, eles iam me chamar”, diz.

Durante algumas semanas, Ítalo disse que chegou a consultar o sistema do laboratório para verificar se o resultado já estava disponível. Como o exame não aparecia e nenhuma ligação foi feita, deixou de procurar. A rotina retomou seu ritmo habitual. Voltou ao trabalho em Feira de Santana, onde começava a construir uma carreira em uma empresa na qual havia ingressado havia pouco tempo.

“Era um momento importante para mim. Eu estava crescendo profissionalmente e muito focado em fazer o meu melhor”, lembra.

Quando o corpo começou a falar

Foi justamente quando acreditava que a vida começava a entrar nos trilhos que o corpo passou a seguir outra direção. As primeiras manchas apareceram poucos dias depois da alta. Desapareceram com um antialérgico. Voltaram semanas mais tarde. Vieram, então, infecções de garganta, problemas de ouvido, alterações intestinais e um cansaço persistente que parecia nunca desaparecer completamente. Nada acontecia de forma explosiva. Os sintomas surgiam aos poucos, desapareciam, retornavam sob outra forma e davam a impressão de pertencer a doenças diferentes.

“Eu estava tratando as coisas assim. Não era tudo de uma vez. Eu tive a reação na pele, procurei um dermatologista. Depois tive uma infecção de garganta e fui a um otorrino. No mês seguinte aparecia outra coisa.”

Cada especialista enxergava apenas o fragmento da história que lhe cabia tratar. Nenhum deles parecia reunir aquelas manifestações em um único quadro clínico.

Hoje, com o conhecimento adquirido ao longo dos anos e em tratamento para o HIV, Ítalo consegue reorganizar mentalmente aquela sequência de acontecimentos. Na época, porém, o raciocínio era outro. “Eu cheguei a pensar que estava com câncer, Eu não sabia o que estava acontecendo comigo.”

A hipótese do HIV permanecia distante justamente porque o silêncio do hospital funcionava como uma falsa garantia de normalidade. Se ninguém telefonava, imaginava, era porque não havia motivo para preocupação.

Os meses passaram e os sintomas tornaram-se mais difíceis de ignorar. A situação mudou definitivamente quando percebeu sangue nas fezes. Pela primeira vez, deixou de acreditar que se tratava de episódios isolados. “Eu só fiquei realmente assustado quando vi sangue nas fezes. Aí pensei: alguma coisa muito séria está acontecendo.”

A consulta com a proctologista marcaria o início da mudança. Depois de examiná-lo e acompanhar a repetição das infecções, a médica interrompeu o atendimento para fazer uma pergunta que parecia simples, mas que mudaria completamente o rumo daquela história. — Ítalo, você sabe qual foi o resultado daquele exame de HIV?

Ele respondeu que não. Nunca havia recebido aquele resultado. E, pela primeira vez desde a alta hospitalar, começou a admitir a possibilidade de que a resposta para tudo o que seu corpo tentava dizer durante meses talvez estivesse justamente naquele exame do qual nunca tivera notícia. A pergunta da médica permaneceu ecoando durante todo o caminho de volta.

Até aquele momento, Ítalo nunca havia relacionado a sucessão de sintomas ao exame realizado meses antes durante a internação. A hipótese do HIV parecia incompatível com tudo o que acreditava saber sobre a própria vida. Fazia testagens periódicas, usava preservativo na maior parte das relações e, poucas semanas antes de ser internado, havia recebido um resultado negativo. Mais do que isso, confiava que, se o exame solicitado pelo hospital tivesse apontado qualquer alteração, alguém teria feito contato.

“Eu falei: ‘Não é possível que seja HIV. Se fosse, o hospital ia mandar o diagnóstico. Se fosse alguma coisa, eles iam entrar em contato comigo.'”

Naquela altura, a médica já havia solicitado uma nova testagem em um serviço especializado, mas Ítalo decidiu voltar primeiro ao Hospital Português. Não queria apenas repetir um exame. Precisava compreender por que jamais recebera qualquer notícia sobre um procedimento realizado durante a internação. A sensação era de que havia uma parte da história que permanecia escondida.

“Se tivesse alguma coisa, eles iam me chamar”

O retorno ao hospital não trouxe as respostas que esperava. Depois de aguardar atendimento no laboratório, ouviu que sua amostra não estava sendo localizada e que seria necessário assinar um novo termo para realizar outra coleta. A explicação, longe de tranquilizá-lo, produziu ainda mais dúvidas.

“Eu disse: ‘Mas eu assinei o termo. Não entendi o que foi que aconteceu. Vocês descartaram a minha amostra? Vocês perderam o termo? Alguma coisa aconteceu.'”

As perguntas se acumulavam na mesma velocidade com que desapareciam as respostas. Ninguém explicava o que havia acontecido com o exame realizado meses antes. Ninguém dizia por que ele não fora procurado. Ninguém esclarecia por que uma segunda coleta, considerada necessária, jamais lhe fora comunicada.

Ítalo deixou o laboratório e foi até a ouvidoria do hospital. Dali, acabou encaminhado para uma reunião com a direção do laboratório. A conversa, que ele decidiu gravar, mudaria definitivamente sua percepção sobre aqueles meses de incerteza. “Ela disse que teve uma falha. Que não deu seguimento na testagem do paciente.”

Mais do que admitir um erro administrativo, aquela frase reorganizava tudo o que ele havia vivido desde a alta hospitalar. Pela primeira vez, a sequência de consultas, antibióticos e sintomas recorrentes deixava de parecer um acaso. “Eu realmente perdi completamente a fé ali no hospital. Eu não sabia o que estava acontecendo.”

Anos depois, ao analisar o caso, a Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça da Bahia chegaria à mesma conclusão de que houve falha na prestação do serviço. O acórdão registra que a instituição deixou de convocar o paciente para a segunda coleta necessária à conclusão do exame e reconhece que a omissão atrasou o diagnóstico e o acesso ao tratamento, mantendo a condenação do hospital e elevando a indenização por danos morais para R$ 25 mil.

Mas, naquele dia, o processo ainda não existia. Existia apenas a espera. Enquanto tentava entender o que havia acontecido no hospital, o novo exame solicitado pela proctologista seguia seu curso. Cerca de duas semanas depois, ele voltou ao serviço especializado para buscar o resultado.

O dia em que tudo fez sentido

Era 1º de abril de 2019. Curiosamente, uma data associada à mentira acabaria se tornando o dia em que, pela primeira vez em muitos meses, ouviu a verdade sobre o próprio corpo.

Ítalo costuma dizer que jamais esquecerá daquela consulta. Não apenas pelo diagnóstico, mas pela forma como ele foi recebido. Em vez de pressa, encontrou escuta. Em vez de silêncio, informação. Em vez de dúvidas, um plano de cuidado. “Eu tive a sorte de ser acolhido por uma profissional incrível.”

A médica explicou que ele vivia com HIV, solicitou exames complementares, iniciou imediatamente o tratamento e permaneceu ao seu lado durante toda a consulta. “Eu sentia alívio e medo ao mesmo tempo. Alívio porque finalmente descobri o que era. Quando ela me explicou que existia tratamento, aquilo mudou tudo.”

Os exames confirmaram uma carga viral elevada. O tratamento precisava começar imediatamente. Pela primeira vez em muitos meses, Ítalo deixava um consultório sem perguntas sobre o que estava acontecendo com seu corpo. A resposta, embora difícil, finalmente existia. O desafio agora era outro: aprender a conviver com ela.

Ao contrário do que imaginava durante os meses de incerteza, o maior peso do diagnóstico não foi o tratamento. A terapia antirretroviral começou rapidamente, os exames passaram a ser acompanhados regularmente e, pouco a pouco, a saúde voltou a responder. O mais difícil foi administrar o silêncio. “Eu não tive coragem de contar para ninguém. Eu achava que ia morrer.”

O silêncio não terminou com o diagnóstico

Quando fala daquele período, Ítalo evita qualquer tentativa de romantizar a própria história. Conta que nunca encontrou, dentro da família, um ambiente onde pudesse falar livremente sobre sua orientação sexual e que, por isso, o diagnóstico de HIV lhe pareceu ainda mais difícil de compartilhar. A preocupação não era apenas explicar uma doença. Era enfrentar, mais uma vez, o preconceito.

“Minha família nunca foi de dar suporte. Eu nunca fui acolhido nesse sentido. Imagina com HIV.”

Durante algum tempo, decidiu guardar tudo para si. O silêncio, porém, não se limitava à vida pessoal.

Poucos dias depois do diagnóstico, outra ruptura aconteceria. Na empresa onde trabalhava, em Feira de Santana, começava a perceber que algo havia mudado. Precisara faltar em algumas ocasiões para consultas médicas e exames relacionados ao início do tratamento. Até então, acreditava que fazia parte de um momento especialmente positivo da carreira. Havia sido promovido recentemente e assumido novas responsabilidades.

Por isso, a demissão foi recebida com surpresa. “Eu fiquei sem entender. Eu tinha acabado de ser nomeado diretor e, pouco tempo depois, fui desligado sem cumprir aviso prévio.”

Ítalo faz questão de não afirmar que a demissão ocorreu em razão do diagnóstico. A reportagem também não dispõe de elementos para estabelecer essa relação. O que ele relata é que, dias depois, ouviu de um superior uma pergunta que jamais esqueceu. “Essa doença que você tem é HIV, não é?”

A frase permaneceu na memória não porque tenha sido acompanhada de qualquer justificativa formal, mas porque condensava o receio que carregava desde o início: o de que o HIV continuasse sendo visto menos como uma condição de saúde e mais como um marcador de estigma.

Se o tratamento devolvia gradualmente o controle sobre a própria saúde, as experiências vividas naquele período ampliavam sua percepção sobre as dificuldades enfrentadas por quem recebe esse diagnóstico no Brasil. Aos poucos, começou a compreender que o vírus era apenas uma parte da história. Havia também o preconceito, a desinformação, o medo e, sobretudo, a dificuldade de acesso a um cuidado verdadeiramente integral.

Quando revisita aqueles meses, uma constatação continua lhe chamando a atenção.

“Eu passei por vários médicos ao longo de vários sintomas. Ninguém solicitou um teste de HIV. A única pessoa que chegou a esse lugar foi uma médica que trabalhava com infecções sexualmente transmissíveis. O sistema de saúde privado não parece preparado para diagnosticar e falar sobre HIV.”

A crítica não se restringe ao caso individual. Para ele, o episódio evidencia como o estigma ainda atravessa a assistência em saúde. Embora o HIV faça parte da rotina de testagem recomendada em diferentes situações clínicas, a hipótese diagnóstica muitas vezes permanece distante, especialmente quando o paciente não se enquadra nos estereótipos historicamente associados à epidemia.

Uma voz que nasceu da ausência de respostas

Foi dessa inquietação que nasceu uma mudança de trajetória. Com o passar dos anos, Ítalo percebeu que a experiência vivida não fazia sentido se permanecesse restrita à esfera privada. O diagnóstico deixou de ser apenas uma questão pessoal para tornar-se também um compromisso com a informação.

Dessa decisão nasceu o Bixcoitando, página criada para discutir direitos humanos, diversidade, HIV, autismo, cidadania e temas relacionados à inclusão. O espaço rapidamente deixou de ser apenas um canal nas redes sociais para transformar-se em um ambiente de acolhimento, troca de experiências e combate à desinformação.

Há uma ironia delicada nessa trajetória. O homem que passou meses esperando por uma informação que nunca chegou escolheu dedicar parte da própria vida a produzir informação para outras pessoas.

Quando pergunto por que decidiu contar essa história apenas agora, sete anos depois, a resposta não passa pela indenização fixada pela Justiça nem pela repercussão do processo. Passa pelo desejo de impedir que outros pacientes vivam a mesma experiência.

“O que aconteceu comigo precisa ser evidenciado para que ninguém mais passe por uma situação como essa.”

Talvez seja essa a principal diferença entre o Ítalo de 2018 e o de hoje. Naquele primeiro momento, ele esperava que alguém lhe trouxesse respostas. Hoje, é ele quem responde diariamente às dúvidas de milhares de pessoas que
encontram no Bixcoitando um espaço de informação, escuta e pertencimento.

Quando a entrevista termina, faço a última pergunta: como ele gostaria de ser retratado nesta reportagem? Ítalo não menciona o processo, a decisão da Justiça, o HIV ou o ativismo. Pensa por alguns segundos e responde: “A melhor forma de me retratar é dizer que eu sou um ser humano lutando pelo direito de outros seres humanos.”

E talvez nenhuma definição seja mais precisa do que essa. Porque, antes de se tornar ativista, comunicador e idealizador do Bixcoitando, houve um paciente que acreditou que seria chamado caso houvesse algo errado. A ligação nunca veio. Anos depois, ele decidiu transformar aquele silêncio em voz — uma voz que hoje insiste em lembrar que informação, acolhimento e cuidado também salvam vidas.

O outro lado

Em nota enviada à Agência de Notícias da Aids, o Hospital Português informou que o processo judicial citado na reportagem ainda está em fase recursal e que, por isso, não há decisão definitiva sobre o caso. A instituição afirmou ainda que, em razão do segredo de justiça e do dever legal de sigilo médico-paciente, está impedida de divulgar informações individualizadas constantes do prontuário e do processo.

Em relação à internação ocorrida em outubro daquele ano, afirmou que a análise inicial do exame mencionado na reportagem apresentou resultado inconclusivo e que, de acordo com os protocolos técnicos vigentes à época, seria necessária uma nova coleta, além de exames complementares, antes da emissão de um resultado conclusivo.

Segundo a instituição, “foram adotadas as providências necessárias para a continuidade da investigação diagnóstica, incluindo tentativas de contato para realização da recoleta necessária”, conforme determinavam os protocolos assistenciais então aplicáveis. Leia a seguir:

NOTA À IMPRENSA

O Hospital Português informa que mantém o posicionamento anteriormente divulgado em 25/06/2026, acrescido dos seguintes esclarecimentos:

O processo judicial permanece em fase recursal, inexistindo decisão definitiva sobre a matéria.

Em razão do segredo de justiça e do dever legal de sigilo médico-paciente, o Hospital está impedido de divulgar informações individualizadas constantes do prontuário ou do processo.

A Instituição esclarece que existem registros de exame realizado em julho de 2018 com resultado não reagente para HIV.

Durante a internação ocorrida em outubro de 2018, foram realizados exames laboratoriais, entre eles o exame mencionado na reportagem. A análise laboratorial inicial apresentou resultado inconclusivo e, conforme os protocolos técnicos vigentes à época, exigia nova coleta e exames complementares antes da emissão de um resultado conclusivo.

Diante disso, foram adotadas as providências necessárias para a continuidade da investigação diagnóstica, incluindo tentativas de contato para realização da recoleta necessária, conforme exigiam os protocolos aplicáveis.

O Hospital Português reafirma seu compromisso com a ética, a segurança do paciente, a qualidade da assistência e o respeito aos direitos de seus pacientes, permanecendo confiante na adequada apreciação dos fatos pelo Poder Judiciário.

Salvador, 7 de julho de 2026.

Assessoria de Marketing e Comunicação
Hospital Português

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dicas de entrevista

Ítalo Costa

Instagram: @bixcoitando

Hospital Português – Assessoria de Imprensa

E-mail: imprensa@hportugues.com.br

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