“A desigualdade não é um fato da natureza. É o resultado de escolhas políticas”: Especialistas defendem novo paradigma para enfrentar HIV e futuras pandemias durante a AIDS 2026

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Sessão da AIDS 2026 reuniu especialistas internacionais para defender que reduzir as desigualdades sociais e econômicas é tão importante quanto investir em tecnologia e infraestrutura para prevenir futuras pandemias.

A preparação técnica para futuras pandemias não será suficiente se os governos não enfrentarem as desigualdades econômicas e sociais que determinam quem adoece, quem tem acesso ao tratamento e quem sobrevive. Essa foi a principal conclusão da sessão “Quebrando o ciclo da desigualdade que impulsiona Ebola, AIDS, COVID e outras pandemias”, realizada durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026).

Promovido pelo Conselho Global sobre Desigualdade, AIDS e Pandemias, o debate apresentou um novo relatório que propõe o conceito de “ciclo desigualdade-pandemia”, segundo o qual as desigualdades estruturais tornam os surtos mais longos e letais, enquanto as próprias pandemias ampliam ainda mais essas desigualdades, alimentando novas crises sanitárias.

Na abertura da sessão, Muleya Florence Mwananyanda, da UNAIDS, chamou atenção para o contraste entre os avanços científicos e a persistência de mortes por doenças evitáveis.

“Temos grande capacidade tecnológica, podemos desenvolver vacinas em velocidades notáveis e sequenciar novos patógenos em horas. Ainda assim, tantas pessoas continuam morrendo de doenças evitáveis.”

Para Mwananyanda, a principal lacuna não está na ciência, mas na desigualdade, que determina quem está mais exposto às doenças e quem consegue acessar medidas de prevenção e tratamento.

“A desigualdade molda quem está exposto à doença, quem pode se proteger e quem pode acessar medicamentos. A descoberta central do Conselho é que a desigualdade não apenas piora as pandemias; ela cria um ciclo.”

Nobel de Economia: desigualdade é uma escolha política

O economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel e copresidente do Conselho Global sobre Desigualdade, AIDS e Pandemias, argumentou que o debate sobre preparação para pandemias tem ignorado fatores econômicos fundamentais.

Para o economista, a desigualdade dentro dos países passou a ser um dos principais fatores que influenciam tanto o bem-estar social quanto a capacidade de resposta às crises sanitárias.

“Nosso Conselho focou em outro conjunto crítico de determinantes: fatores socioeconômicos, muitos deles impulsionados pela desigualdade persistente.”

Stiglitz argumentou que sociedades mais desiguais tendem a investir menos em bens públicos, enfraquecem a confiança nas instituições e dificultam respostas rápidas e eficazes diante de emergências de saúde. Na avaliação do economista, esse cenário compromete desde a adesão da população às medidas de controle até a capacidade dos governos de enfrentar novas pandemias.

“Quando uma pandemia atinge, a desigualdade mina a confiança e a coesão social… A desigualdade não é um fato da natureza. É o resultado de escolhas políticas.”

Ao abordar o cenário internacional, o economista criticou o modelo atual de financiamento global da saúde e o sistema de patentes, defendendo mudanças estruturais.

“A AIDS continua sendo uma pandemia. Exige soluções globais, sistemáticas e sistêmicas.”

Estudo aponta desigualdade como melhor preditor dos resultados das pandemias

O cientista político Dr. Matthew Kavanagh, do Centro para Política e Política Global em Saúde da Universidade de Georgetown, apresentou uma análise global divulgada durante a sessão.

Ao apresentar os resultados da pesquisa, Dr. Matthew Kavanagh explicou que a equipe comparou os indicadores tradicionalmente utilizados para medir a preparação dos países para pandemias com os desfechos observados durante a COVID-19 e a epidemia de HIV. A análise revelou que os países considerados mais preparados nem sempre apresentaram melhores resultados.

“Os países com maior segurança global em saúde não apresentaram melhores taxas de mortalidade por COVID, tiveram piores taxas de infecção por COVID e não obtiveram melhores respostas ao HIV.”

Para Dr. Kavanagh, o fator que mais influenciou os resultados não foi a capacidade técnica dos sistemas de saúde, mas o nível de desigualdade econômica. O estudo mostrou que, quanto maior a desigualdade de renda, piores foram os indicadores relacionados às pandemias analisadas.

“Cada aumento de um ponto no coeficiente de Gini esteve associado a cerca de 5,7 mortes excessivas adicionais por 100 mil habitantes e a uma incidência maior de HIV.”

Diante desses achados, o pesquisador defendeu que a preparação para futuras pandemias ultrapasse o fortalecimento da infraestrutura sanitária e passe a incorporar políticas de proteção social e estratégias voltadas à redução das desigualdades como elementos centrais da segurança em saúde.

Dra. Nísia Trindade defende produção regional e acesso equitativo à inovação

Representando a Fiocruz, a ex-ministra da Saúde Dra. Nísia Trindade afirmou que ciência e tecnologia somente produzem inovação real quando acompanhadas de acesso universal.

“Devemos celebrar o progresso científico. Mas, sem foco no problema da desigualdade, não podemos ter inovação real. Não podemos ter inovação real sem acesso.”

Ela destacou a Coalizão para Produção Local e Regional, proposta durante a presidência brasileira do G20, como estratégia para ampliar a produção de medicamentos, vacinas e outras tecnologias em diferentes regiões do mundo.

Segundo Dra. Nísia, a experiência da COVID-19 mostrou que países com capacidade de produção tecnológica responderam melhor às crises sanitárias e que a iniciativa brasileira pode contribuir para fortalecer o futuro Acordo sobre Pandemias da Organização Mundial da Saúde.

Espanha destaca proteção social e participação comunitária

O secretário de Estado da Saúde da Espanha, Dr. Javier Padilla Bernáldez, afirmou que a preparação para futuras pandemias depende menos da tecnologia e mais da preparação política e social.

“Não se trata apenas de tecnologia. Trata-se mais de preparação social e política.”

Dr. Padilla defendeu três prioridades: garantir renda para que trabalhadores possam cumprir medidas sanitárias durante emergências; ampliar a cobertura universal de saúde, incluindo migrantes; e assegurar participação efetiva das organizações da sociedade civil na tomada de decisões.

“As organizações baseadas na comunidade estão presentes nos órgãos governamentais de HIV e ISTs na Espanha. Isso foi muito útil não apenas para a resposta ao HIV, mas também durante a mpox.”

Comunidades são parte da infraestrutura da resposta

Representando o Consórcio de Populações-Chave de Uganda, Richard Lusimbo reforçou que organizações comunitárias não podem ser tratadas como complementares aos sistemas de saúde.

Para Richard Lusimbo, fundador do Consórcio de Populações-Chave de Uganda (UKPC), as organizações comunitárias precisam deixar de ser vistas como estruturas complementares e passar a ser reconhecidas como parte essencial da resposta às pandemias.

“As comunidades não devem ser tratadas como um acréscimo opcional ao sistema de saúde; elas são parte do sistema de saúde.”

Lusimbo ressaltou que a experiência acumulada na resposta ao HIV demonstra o papel estratégico das organizações lideradas pela comunidade na construção de confiança, na identificação de populações excluídas dos serviços de saúde e na garantia da continuidade do cuidado. Para ele, essas lições precisam orientar também a preparação para futuras emergências sanitárias.

“Laboratórios podem detectar um patógeno, mas as comunidades detectam medo, desinformação, estigma e resistência.”

Ao encerrar sua participação, o ativista defendeu financiamento estável e previsível para organizações comunitárias, a inclusão da capacidade dessas instituições nos indicadores nacionais de preparação para pandemias e a participação efetiva das comunidades nos espaços de tomada de decisão.

Um novo conceito de segurança sanitária

Ao longo da sessão, os debatedores defenderam uma mudança de paradigma na forma como o mundo se prepara para enfrentar pandemias. Em vez de concentrar os esforços apenas no fortalecimento de laboratórios, da vigilância epidemiológica e da capacidade hospitalar, o relatório propõe uma abordagem que incorpore a redução das desigualdades, a ampliação da proteção social, o acesso universal à saúde, a produção regional de tecnologias em saúde e o fortalecimento das organizações comunitárias como pilares da segurança sanitária global.

A principal mensagem do encontro foi que enfrentar as desigualdades não é apenas uma questão de justiça social, mas uma condição indispensável para reduzir a vulnerabilidade das populações, prevenir futuras pandemias e fortalecer a resposta global ao HIV.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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