“A ciência precisa chegar na ponta”: João Geraldo Netto é escolhido como embaixador da Aids 2026 e quer transformar ciência em acesso real

João Geraldo Netto
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Entre os dias 26 e 31 de julho de 2026, o Rio de Janeiro receberá a maior conferência sobre HIV/aids do planeta: a Aids 2026. Mais do que um encontro científico, o evento simboliza um momento histórico para o Brasil, que volta a ocupar o centro das discussões globais sobre prevenção, tratamento, direitos humanos e futuro da resposta à epidemia.

É neste cenário que o comunicador e ativista João Geraldo Netto foi escolhido pela International Aids Society como um dos cinco embaixadores globais de prevenção da conferência. Ao lado de representantes da África, Europa, América do Norte e América Latina, ele terá a missão de traduzir a complexidade da ciência para uma linguagem acessível, humana e compreensível para milhares de pessoas de língua portuguesa.

Também integram o grupo de embaixadores: Alexandre Putti, Doreen Moracha, Princess Jauan Durbin e Yuliia Holub.

A escolha de João não acontece por acaso. Há quase duas décadas, ele constrói uma trajetória marcada pelo compromisso em democratizar informações sobre HIV, prevenção combinada, sexualidade e combate ao estigma através do canal Super Indetectável. Em um tempo atravessado pela desinformação, pelo crescimento de discursos moralistas e pela circulação acelerada de notícias falsas, seu trabalho se consolidou como referência para milhares de pessoas recém-diagnosticadas, profissionais de saúde, ativistas e usuários do SUS.

Mas a entrevista que você vai ler a seguir vai muito além da celebração por uma conquista internacional.

Ao longo da conversa, João fala sobre os desafios de transformar ciência em acesso real, critica a lentidão política na incorporação de novas tecnologias, defende o SUS como patrimônio coletivo e faz um alerta contundente: não basta produzir inovação científica se ela não chega às periferias, às populações vulnerabilizadas e às pessoas que mais precisam.

Ele também fala sobre o impacto devastador do estigma, sobre o “autopreconceito” que ainda destrói vidas silenciosamente e relembra uma das histórias mais dolorosas que ouviu desde que começou a falar publicamente sobre viver com HIV.

Em tempos em que a comunicação se tornou um campo decisivo na disputa entre informação e desinformação, entre acolhimento e medo, a presença de um brasileiro ocupando esse espaço global representa mais do que reconhecimento individual. Representa a possibilidade de fazer com que a ciência atravesse os muros dos congressos e alcance quem realmente precisa dela.

“A ciência precisa deixar de ser privilégio”

Agência Aids: O que representa, para você, ser escolhido como um dos cinco embaixadores globais da Aids 2026 justamente em um momento em que a desinformação sobre HIV ainda cresce no mundo?

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João Geraldo Netto: Para mim, é uma grande honra e uma imensa responsabilidade. Há muitos anos eu vou às conferências internacionais e sempre faço questão de trazer informações importantes para todos os falantes de português no meu canal, o Super Indetectável. Ser escolhido como um dos cinco embaixadores da prevenção é o reconhecimento de quase 20 anos de trabalho focado em democratizar a informação. Meu objetivo sempre foi combater a desinformação crescente traduzindo os avanços científicos para uma linguagem humana e livre de estigmas. Minha missão é garantir que a ciência deixe de ser um privilégio e se torne uma ferramenta de autonomia para todos que puderem ter acesso ao meu conteúdo.

Historicamente, as conferências de aids sempre foram espaços de ciência, mas também de mobilização política e pressão social. Que papel você acredita que a comunicação terá dentro da Aids 2026?

Eu acredito que o papel mais importante da comunicação nesta conferência será quebrar as paredes do Riocentro e traduzir a ciência para uma linguagem que seja compreendida por todos. Infelizmente, a ciência do HIV e outras ISTs sempre foi muito restrita à academia, a ativistas e especialistas. A comunicação precisa descentralizar esse poder. Meu objetivo é promover o que chamo de “autonomia da escolha”: dar às pessoas conhecimento sobre todas as ferramentas de prevenção combinada para que decidam o que é melhor para suas realidades. Além disso, a comunicação precisa ser interativa, uma via de mão dupla. Através das minhas redes sociais pessoais, do Super Indetectável, do Instituto Multiverso e do chatbot Synô Milía, eu quero não apenas transmitir o que os cientistas estão dizendo, mas também levar as dúvidas, as dores e a realidade das nossas comunidades para dentro das discussões da conferência.

O discurso de João toca em um ponto central da atual resposta global ao HIV: o desafio de transformar produção científica em ferramenta concreta de cidadania. Em um mundo hiperconectado, onde teorias conspiratórias circulam com velocidade recorde, a comunicação deixou de ser apenas divulgação. Ela passou a ocupar um papel estratégico na saúde pública.

Entre a informação e a desinformação

Você costuma falar sobre democratização da informação. Na prática, qual é o maior desafio de transformar linguagem científica em comunicação acessível sem perder responsabilidade?

É estudar, estudar e estudar. Vivemos tempos de uma verdadeira overdose de informação chegando por todos os lados. Filtrar o que é fato ou fake se torna uma tarefa muito complexa, especialmente porque as notícias falsas e as teorias da conspiração têm um apelo emocional muito forte e engajam com muito mais rapidez do que a verdade científica. Precisamos falar de sexualidade, prevenção e até temas mais sensíveis, como a redução de danos no chemsex, sem julgamentos morais ou medo. Sem um compromisso com a ciência, com a escuta ativa e com os direitos humanos, o trabalho de falar sobre HIV nas redes sociais se torna um desserviço, levando informações rasas que reforçam o estigma em vez de acolher e apropriar.

Existe uma distância enorme entre o que é debatido nos grandes congressos internacionais e o que chega na ponta, nas unidades de saúde e nas periferias. Como diminuir esse abismo?

Acredito que o primeiro passo é vontade política e poder de negociação. Com nosso SUS gigantesco, temos uma vantagem para negociar preços de novas tecnologias, assim como foi feito com o tratamento de hepatite C. Mas o abismo não é só financeiro, é também de linguagem. Os congressos trazem a ciência, mas cabe a nós, comunicadores e ativistas, “furar a bolha”. Precisamos usar ferramentas inovadoras de comunicação e de tecnologia para garantir que os dados discutidos nos auditórios cheguem às periferias em forma de conhecimento acessível para o dia a dia.

O Brasil segue sendo reconhecido internacionalmente pela oferta gratuita e universal de tratamento antirretroviral através do SUS. Ainda assim, especialistas e ativistas alertam há anos para um cenário de desaceleração nas políticas de prevenção e para as desigualdades no acesso às novas tecnologias.

O futuro da prevenção já existe — mas ainda não chega para todos

Você acredita que o Brasil ainda é referência mundial na resposta ao HIV? Onde avançamos e onde estamos falhando?

Eu acredito que sim. Apesar de termos perdido muito na corrida pela vanguarda nos últimos anos, o Brasil ainda se destaca em todo o mundo pelo acesso gratuito universal e pela medicação ofertada através do nosso SUS. Somos um país acolhedor no tratamento do HIV, atendendo de cidadãos a turistas e migrantes sem documentos. Avançamos muito na ampliação do acesso ao diagnóstico e aos antirretrovirais. No entanto, falhamos na estagnação da prevenção. Trabalhei no Ministério da Saúde e vejo que, por mais que a PrEP tenha crescido no Brasil, ainda existem muitas falhas na sua oferta, preconceito na gestão e nas unidades de saúde e sérios problemas de comunicação. Falhamos em não garantir plenamente em dar autonomia e educação para que as pessoas conheçam todas as tecnologias de prevenção.

Você citou novas tecnologias. O que esses avanços podem mudar concretamente na vida das pessoas?

Desde o surgimento da PrEP oral, eu vi um enorme potencial por ser um método que devolve e respeita a autonomia da pessoa em querer ou não usar a camisinha. Com a chegada da injeção de longa duração, como o Cabotegravir injetável que garante dois meses de proteção, e a promessa do Lenacapavir para até seis meses, essa estratégia se torna ainda mais revolucionária. Na prática, isso tira a dificuldade em seguir o tratamento em algumas situações específicas, como pessoas em situação de rua, profissionais do sexo, entre outros.

Existe o risco de celebrarmos avanços científicos que continuam inacessíveis para boa parte da população?

Esse risco sempre existirá. Nenhuma inovação científica nasce disponível para todos, e vivemos em um mundo onde o mercado e o dinheiro ditam quem vive e quem morre, quem tem acesso e quem não tem. É por isso que, durante a Aids 2026, meu foco na cobertura não será apenas a biologia, mas as dimensões políticas do acesso. O SUS tem recursos limitados, e trazer essas novas tecnologias para as prateleiras dos nossos postos dependerá de muita pressão social, vontade política e negociações agressivas do Ministério da Saúde com a indústria farmacêutica.

O debate sobre novas tecnologias também precisa passar por desigualdade social, racismo e território?

Sempre precisa. Não há como desvincular a ciência dessas barreiras. Esses fatores sociais e de território devem ser a bússola para decidir quem deve ter acesso às novas tecnologias com prioridade. Não podemos permitir que a inovação científica seja um luxo; ela deve ser implementada considerando as vulnerabilidades para garantir que as populações marginalizadas sejam as primeiras beneficiadas, não as últimas.

“O que mais preocupa é a lentidão política”

Ao falar sobre os desafios atuais da epidemia, João desloca o debate da ausência de tecnologia para a dificuldade de transformar conhecimento em política pública efetiva.

O que mais te preocupa hoje: a evolução da epidemia ou a lentidão política para transformar ciência em acesso real?

Hoje, o que mais me preocupa é a lentidão política e burocrática para transformar a ciência em acesso real. Nós temos a inovação científica nas mãos, mas esbarramos na má vontade e estagnação de gestores públicos. Isso vai desde políticas genocidas e conservadoras estadunidenses que dificultam o acesso básico de pessoas vivendo com HIV dentro e fora dos EUA, até a atual lentidão e apatia da gestão do Ministério da Saúde no Brasil para a negociação de novos medicamentos e a implementação ágil dessas novas tecnologias.

Mesmo diante de tantos avanços científicos, o estigma segue extremamente vivo. Por que o preconceito contra pessoas vivendo com HIV ainda resiste tanto?

Eu entendo que todo esse estigma é resultado direto de uma comunicação ineficiente e ultrapassada. Costumo sempre reforçar que o preconceito se divide em dois: o preconceito social (contra o outro) e o autopreconceito. E, sinceramente, talvez o autopreconceito seja o pior, pois é aquele que afeta internamente a pessoa contra ela mesma. Esse sentimento internalizado afeta a percepção de risco, a aceitação do diagnóstico, a adesão ao tratamento e a qualidade de vida no dia a dia com a infecção. Temos ferramentas incríveis, mas essas informações esbarram na desinformação e no moralismo. Da mesma forma que o estigma social, esse preconceito também vem da falta de informação adequada e livre de julgamentos sobre sexualidade e sobre as novas formas de viver com o HIV.

O HIV ainda marcado pelo preconceito

Você acha que o HIV ainda é tratado como um tema associado apenas a determinadas populações?

Sim, com certeza! Ainda é muito forte a associação que se faz do HIV a populações mais marginalizadas. Isso vem da história do início da pandemia de aids e pela forma desproporcional como o vírus afeta certas populações. Mas eu sempre faço questão de deixar claro: essa prevalência não vem de um maior “descuido” ou exposição. Ela vem de uma negligência do Estado e do preconceito que afasta essas pessoas do sistema de saúde e do cuidado. Essa questão envolve uma linha muito tênue entre reconhecer a vulnerabilidade para realizar ações direcionadas, como ações em zonas de sociabilidade, e simplesmente carimbar essas populações com a marca da aids. A diferença está em o Estado reconhecer a vulnerabilidade, desenvolver uma comunicação adequada, empática e eficiente, e realizar ações de prevenção e acolhimento direcionadas, sem estigmatizar ou marcar o HIV como sendo um “problema exclusivo” da população-chave.

Em algum momento você percebeu que comunicar sobre HIV também era disputar afeto, dignidade e humanidade?

Eu nunca encarei o meu trabalho na internet como um espaço de disputa de nenhum tipo. Vivo com HIV há mais de 24 anos e sempre vi tudo o que fiz como uma extensão do que já tinha sido construído por décadas por outros ativistas, porém, usando inovações tecnológicas que eu conhecia e uma facilidade em me comunicar que eu já vinha desenvolvendo. Quando comecei, não existiam outros produtores de conteúdo falantes de português que viviam com HIV relatando suas vidas abertamente no YouTube. Foi tudo muito novo. E mesmo quando surgiram outros criadores, eu nunca os vi como concorrentes; eu os vejo como aliados na construção de uma rede de apoio e acolhimento. Meu objetivo com o Super Indetectável nunca foi ficar famoso, sempre foi levar informação e combater a sorofobia. Nunca vou deixar meu ego ficar maior do que a minha causa. Mantendo o foco na humanidade e na educação, é muito mais fácil continuar.

A história que mudou tudo

Ao longo da entrevista, um dos momentos mais fortes surge quando João relembra a experiência que transformou sua percepção sobre o impacto do estigma.

Qual foi a história mais marcante que você ouviu desde o início do Super Indetectável?

Bem… Infelizmente, a história mais marcante foi uma tragédia que reforçou o meu propósito. Na época em que eu trabalhava no Ministério da Saúde, um rapaz recém-diagnosticado encontrou meu celular na internet e me ligou, desesperado, dizendo que não aceitava o diagnóstico e que não queria viver com aquilo. Saí da minha mesa e dediquei vários minutos escutando e tentando acolhê-lo. Ele desligou o telefone e eu pensei que tudo ficaria bem. Meses depois, tentando responder às mensagens acumuladas no WhatsApp, vi uma mensagem dele. Respondi, mas quem retornou foi a mãe, dizendo que ele não tinha aguentado a pressão do HIV e havia tirado a própria vida. Ela estava devastada e não entendia o porquê, afirmando que certamente o teria acolhido. Foi nesta hora que percebi, da forma mais dura, que não é apenas o preconceito externo que mata; o estigma interno, o “autopreconceito”, é o mais devastador. Esse caso mexeu especialmente comigo e me fez questionar o que eu poderia ter feito de diferente. Mas também me deu a certeza de que precisávamos de redes de apoio mais próximas e imediatas.

O relato evidencia uma realidade frequentemente invisibilizada: embora a medicina tenha avançado profundamente nas últimas décadas, o sofrimento emocional provocado pelo estigma ainda segue produzindo impactos severos na vida de muitas pessoas recém-diagnosticadas.

Quero que as pessoas se sintam na primeira fileira”

O que você quer que as pessoas sintam quando acompanharem sua cobertura da Aids 2026?

Quero que elas se sintam sentadas na primeira fileira das sessões de conferência. Meu objetivo central é fazer com que as pessoas sintam que são dignas de saber exatamente o que está acontecendo. Termos científicos complexos e o idioma inglês/espanhol não podem ser barreiras para que a nossa comunidade fique bem informada. Meu compromisso é usar uma linguagem popular, adequada e com muita empatia. Eu espero demais que essas informações diluam a desinformação, causem mudanças reais nas cabeças das pessoas e as acolham, estejam elas curiosas, receosas, com medo, angustiadas ou com qualquer outro sentimento.

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Você pretende levar pautas brasileiras específicas para dentro desse espaço internacional? Quais discussões do Brasil precisam ser ouvidas pelo mundo?

Com certeza, porque eu acredito muito no nosso SUS. Tendo trabalhado na gestão pública e viajado para muitas conferências internacionais, tive a oportunidade de ver de perto como outros países cuidam (ou não cuidam) das pessoas. Para o público brasileiro, eu quero usar essa cobertura para que compreendam a força do Sistema Único de Saúde, entendam como funciona a incorporação de novas tecnologias e saibam como cobrar o poder público por inovações. Por outro lado, para o público internacional, quero mostrar como o nosso país funciona e como o SUS, mesmo em uma nação atravessada por tantas desigualdades, consegue dar atenção e distribuir medicamentos a toda e qualquer pessoa no nosso território. É inevitável não comparar os sistemas de saúde, e a mensagem que eu quero levar aos “gringos” é clara: se o Brasil consegue fazer isso com o SUS, os outros países também conseguem.

“Estamos vivendo o melhor período da história da ciência”

Se você pudesse deixar uma mensagem para uma pessoa recém-diagnosticada que vai acompanhar a Aids 2026 pela primeira vez, o que diria?

Eu diria: Calma, respira e me escuta. Eu entendo que tudo isso pode estar te deixando com muito medo, mas mesmo diante de tudo isso, estamos vivendo o melhor período da história da ciência para ser diagnosticado com HIV. Temos uma tecnologia incrível, medicações cada vez mais modernas e vivemos em um país com um sistema de saúde público que garante esse acesso. Agora, o que você precisa fazer é se levantar, buscar informação de qualidade e tomar as decisões que vão direcionar a sua vida. Suas escolhas serão o grande divisor de águas entre a saúde e a doença, garantindo que você tenha uma vida longa, plena e feliz.

Ao ser escolhido como um dos rostos globais da Aids 2026, João Geraldo Netto carrega consigo muito mais do que uma credencial internacional. Sua presença representa a continuidade de uma tradição histórica construída por ativistas, comunicadores e pessoas vivendo com HIV que se recusaram a aceitar o silêncio, o abandono e o preconceito como destino.

Em um momento em que a ciência avança rapidamente, mas o acesso ainda caminha em ritmo desigual, sua missão talvez seja justamente lembrar que informação também salva vidas — especialmente quando ela chega acompanhada de escuta, humanidade e acolhimento.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

João Geraldo Netto

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