Médicas que conheceram Paulo Roberto Teixeira quando haviam iniciado suas carreiras, fizeram questão de prestar homenagens ao amigo. Elas destacaram a importância de Paulo em vários aspectos da construção da resposta brasileira. Se juntou ao coro feminino que reverenciou Paulo Teixeira, o diretor do CRT/ Aids Alexandre Silva.
No ano 2000, quando dirigiu o Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, Dr. Paulo passou a denunciar que os preços dos medicamentos eram inviáveis para a manutenção do acesso universal ao tratamento de Aids pelo SUS no Brasil. Defendeu a decretação da licença compulsória. Fez reuniões com o movimento social explicando detalhadamente processo jurídico para que os países pudessem ter acesso a um preço mais compatível das medicações protegidas pelas patentes.Uma entre as várias colaborações que fazem parte de seu legado. Você acompanha mais depoimentos sobre o sanitarista que morreu na tarde de sábado, 19/09 em São Paulo.
Dra.Mariângela Simão, Relatora Especial do Direito à Saúde, do Conselho de Direitos Humanos da ONU : “Foi muitíssimo importante na construção da política nacional contra o HIV/AIDS e também nos rumos da política global, porque o enfrentamento desse vírus vai muito além do Brasil”.

O Paulo Teixeira foi uma figura que nos inspirou a todos e todas que trabalharam ou continuam a trabalhar na luta contra o HIV/AIDS. Apesar de muito se falar da enorme contribuição que ele deu à SP, o que é absolutamente memorável, o Paulo foi influente muito além de São Paulo. Foi muitíssimo importante na construção da política nacional contra o HIV/AIDS e também nos rumos da política global, porque o enfrentamento desse vírus vai muito além do Brasil. Sempre foi muito forte na defesa do acesso universal ao diagnóstico precoce e tratamento contra o HIV, aos meios de prevenção e do aspecto fundamental de qualquer resposta que é a inclusão de grupos mais vulneráveis ao HIV nos processos decisórios.
Dra. Valéria Petri, dermatologista: “Tenho a certeza de que não seríamos o melhor programa público de tratamento e prevenção Contra o HIV, no mundo, se não fosse o SUS e o empenho de Paulo Roberto Teixeira””

Conheci Paulo em 1975, quando ele foi fazer especialização em Dermatologia na Escola Paulista de Medicina, vindo da Faculdade de Botucatu.Convivemos alguns anos e nos reencontramos após o surgimento dos primeiros casos da doença desconhecida que vitimava pessoas com a imunidade bem prejudicada. Não se sabia se era um vírus ou uma bactéria e qual seria, se fosse um vírus. Era uma época de grandes enigmas porque até se presumia que fosse uma doença similar à sífilis – havia inclusive livros nesse sentido. O Paulo foi se envolvendo e, sempre muito agregador, passou a trabalhar intensamente com a nova doença.Fomos juntos representar o Brasil na primeira conferência de AIDS em Washington, em meados de 1983.E a partir de então Paulo passou a ser um ativista em tempo completo, bem no tempo do Herbert de Souza e Herbert Daniel. Que tempos!
Trabalhávamos, ora juntos ora em terrenos diferentes, ele sempre muito ativo no sentido de resolver as questões do ponto de vista sanitário e de conseguir medicamentos que pudessem ser acessíveis por todos. Foi sempre um grande divulgador de formas de prevenção e tratamento Praticamente dedicou a vida a isso e tinha um grande talento político. Se integrava bem nos vários espaços em que a militância era voltada aos projetos que beneficiassem os desprotegidos.Tenho a certeza de que não seríamos o melhor programa público de tratamento e prevenção Contra o HIV, no mundo, se não fosse o SUS e o empenho de Paulo Roberto Teixeira.
Professora Dra Maria Cecilia Dellatorre . Médica Sanitarista e professora de medicina da faculdade de Marília : “Ele liderou um movimento que de forma inédita uniu profissionais de saúde, pacientes e ONGS”

Para entender a importância do Paulo Teixeira temos que voltar ao início dos anos 80. Não existia tratamento e predominava a falta de conhecimento e a discriminação em relação à aids. Eram tempos duros . As organizações internacionais e países desenvolvidos consideravam que responder à AIDS poderia comprometer outros programas de saúde. O Paulo era então um jovem médico atuando em São Paulo. Ele liderou um movimento que de forma inédita uniu profissionais de saúde, pacientes e ONGs para oferecer assistência digna e não discriminação como pilares da resposta à pandemia. Foi este movimento que construiu as bases para que nos anos 90 o tratamento da AIDS se tornasse uma opção realista para os países em desenvolvimento. Recordo uma reunião de países em Genebra nesta época onde o Paulo foi o único na sala a defender que era viável tratar em escala mundial. A resistência era grande pelos custos e claro porque a pandemia afetava predominantemente países no Sul. A realidade do acesso universal à tratamento hoje , onde o Brasil segue sendo um exemplo, tem uma história única em saúde pública. A complexidade da pandemia de AIDS coloca riscos a generalizações mas não tenho dúvidas de afirmar que o Paulo Teixeira no Brasil e mais tarde como diretor do Programa de AIDS da Organização Mundial da Saúde foi o agente iniciador desta história.’
Dra.Maria Eugênia Fernandes Pedroso de Lima é médica infectologista, especializada em saúde pública . Fez parte da primeira equipe de atendimento a pacientes com AIDS na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo . Atualmente e superintendente da Organização Social Associação Saúde da Família : ‘Corajoso, enfrentou durante a sua vida pessoal e profissional, situações delicadas. “

Dr. Paulo Roberto Texeira era médico sanitarista e trabalhou no Instituto de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo. Inquieto intelectualmente, empreendedor, visionário e inteligente dirigiu o primeiro programa de Prevenção e Controle do HIV/AIDS na América Latina em resposta aos primeiros casos em São Paulo.
Foi o grande responsável pelo delineamento da resposta a um problema de saúde pública sem precedentes em nosso país.
Corajoso, enfrentou durante a sua vida pessoal e profissional, situações delicadas. Formou e liderou profissionais de saúde em conformidade com o conhecimento técnico de cada período histórico no manejo dos casos da AIDS.Ao longo dos anos, ocupou diversos cargos de liderança como Coordenador do Programa Estadual de AIDS da Secretaria Estadual da Saúde do Estado de São Paulo , Coordenador do Programa Nacional de DST/AIDS do Ministério da Saúde e colaborador destacado do Programa de Prevenção e Controle da AIDS das Nações Unidas para dar acesso ao tratamento do HIV/AIDS globalmente.
Realizou destacadíssimo trabalho de políticas públicas. Deixou muitos amigos e colaboradores.Dr. Paulo Teixeira partiu nos deixando a certeza que lutou um bom combate.
Alexandre Gonçalves Diretor CT/Aids de São Paulo: “O nosso compromisso continua sendo a luta diária pela defesa da saúde pública,”

Assumo a diretoria do CRT em 2017 no momento em que os alicerces fundamentais deste programa já haviam sido construído. Grande parte da resposta ao HIV/Aids existe graças à dedicação, ao empenho e à visão estratégica daqueles que me antecederam.
É com profunda honra e senso de responsabilidade que hoje coordeno o Programa Estadual DST/Aids-SP seguindo os princípios que Paulo Teixeira nos ensinou. O nosso compromisso continua sendo a luta diária pela defesa da saúde pública, pelo respeito e garantia dos direitos humanos para a população LGBTQIA+, e pelo fortalecimento contínuo de um SUS público, equânime e de excelência para toda a população brasileira.



