A cada 2h, uma mulher sobrevive a uma tentativa de feminicídio, diz Anuário – UOL

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O Brasil registrou queda de 8,2% nas mortes violentas intencionais em 2025, mas os feminicídios cresceram 4% no período. Ao todo, 1.571 mulheres foram assassinadas por razões relacionadas à condição de mulher, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado hoje pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Outras 4.189 sobreviveram a tentativas de feminicídio — quase três casos para cada morte consumada.

O que aconteceu
Dados do Anuário mostram que foram registrados 3.539 homicídios de mulheres em 2025. Desse total, 1.571 são feminicídios, entendidos como a morte de mulheres em razão da condição do sexo feminino, seja no contexto de violência doméstica e familiar, seja por discriminação à condição de mulher.

Para cada feminicídio consumado registrado no país, houve quase três tentativas. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio, segundo o Anuário. O número representa um aumento de 5,9% em relação a 2024. Isso significa que, em média, uma mulher sobreviveu a uma tentativa de feminicídio a cada duas horas no país.

Isso mostra que o crime de feminicídio não pode ser lido como um fato isolado. Ele é a culminância de várias violências que ocorrem antes da violência fatal, como ameaças, agressões e perseguições.
Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Segundo Brandão, os feminicídios apresentam uma tendência de alta desde que passaram a ser monitorados pelo Fórum. “Temos que colocar essa lente com muita centralidade nos feminicídios porque mesmo com políticas públicas e 20 anos da vigência da Lei Maria da Penha, o crime não recuou. Em 2016, no início da série histórica, foram 969 registros.”

Crimes que antecedem o feminicídio continuam crescendo. “Isso acontece porque a violência de gênero costuma se manifestar em escalada, raramente começando pelo ato mais grave, mas tendendo a progredir ao longo do tempo, às vezes lentamente, às vezes, de forma abrupta”, diz a pesquisadora.

Aumento dos feminicídios é reflexo de um cenário estrutural, avalia a pesquisadora. “Quando a resposta a esse fenômeno vem exclusivamente da Justiça criminal, vem do polo da repressão. Essas respostas precisam vir com medidas de prevenção, de questionamentos de roteiros de masculinidades violentas premiadas que não encontra limites”, ressalta.

Perfil das vítimas
Mulheres negras continuaram sendo as principais vítimas da violência letal contra as mulheres no Brasil em 2025, aponta estudo. Entre as vítimas de feminicídio, 65,1% eram negras e 34% eram brancas. A faixa etária mais atingida foi a de mulheres entre 25 e 29 anos, que representaram 17,2% das vítimas. Segundo o Anuário, os números sugerem que o feminicídio está particularmente associado ao período do ciclo de vida em que as mulheres se encontram mais inseridas em relações conjugais ou afetivas estáveis, na convivência doméstica e processos de separação de relacionamentos.

Companheiros e ex-companheiros foram apontados como autores de 79,8% dos feminicídios registrados no país em 2025. Nas demais mortes violentas intencionais, essa proporção foi de apenas 7%. Armas brancas, categoria que inclui facas e objetos que perfuram e cortam, continuam como o principal instrumento usado nos crimes, presente em 50,8% dos casos.

Escalada da violência de gênero
Os dados do Anuário mostram uma escalada de diferentes formas de violência antes dos assassinatos. Para cada feminicídio registrado em 2025, houve 501,9 registros de ameaça, 182,2 ocorrências de agressão física, 84 descumprimentos de medidas protetivas de urgência, 78,8 casos de perseguição e 38,7 registros de violência psicológica. Também foram registradas 2,7 tentativas de feminicídio para cada morte consumada.

Números mostram que as mulheres estão chegando para registrar as denúncias, diz Brandão. “Elas estão conseguindo vencer essa barreira, estão sendo ouvidas. O poder público deveria olhar esses registros como pistas de um cenário de violência que está se agravando, ou seja, essas ocorrências deveriam ser acompanhadas com mais proximidade”, acredita.

Os números mostram que é possível interromper o ciclo da violência contra as mulheres. “Quando ela registra um boletim de ocorrência por ameaça, o caso está no começo e deveria ser acompanhado como uma janela de oportunidade para impedir que outros crimes ocorram”, ressalta a pesquisadora. “Elas não estão em estado de inércia, essa barreira de fazer a denúncia é a mais difícil de vencer, e o poder público tem desprezado esse grande esforço”.

Medidas protetivas
Em 2025, 18 estados informaram quantas vítimas de feminicídio tinham medida protetiva ativa no momento da morte, diz Anuário. Entre os estados que não informaram esse dado estão São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, que, segundo o Fórum, foram responsáveis por mais de 40% dos feminicídios registrados no país. “Nove estados, portanto, não sabem ou não informaram quantas mulheres foram mortas depois de o Estado ter se comprometido a protegê-las formalmente”, diz a pesquisa.

Nas 18 unidades federativas que informaram os dados, 70 mulheres foram assassinadas enquanto tinham medidas protetivas ativas. O número representa 8,8% dos 797 feminicídios registrados nessas unidades da Federação. Em 2024, a proporção havia sido de 8,6%.

Descumprimento de medidas protetivas é o único crime que cresceu nas 27 unidades da federação em 2025, segundo o Anuário. O levantamento mostra que foram 132.025 registros de descumprimento de MPU (medidas protetivas de urgência) no ano, uma taxa 16,7% superior à de 2024. Isso representa 362 descumprimentos por dia, 15 a cada hora. As mais altas taxas de descumprimento no ano passado foram registradas no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Rondônia.

Taxas elevadas podem ser compreendidas de duas formas, diz a pesquisa. Segundo Isabella Matosinhos, pesquisadora da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões (Rede Femjusp) e consultora do Fórum, e Juliana Brandão, uma delas é entender o dado como “falha do sistema em conter o agressor”. Outra forma é ver as taxas como “um sinal de que o sistema tem conseguido fiscalizar e registrar a violação com mais eficiência”.

“Repressão à violência doméstica é muito centralizada nas medidas protetivas”, afirma Brandão. “Não se trata de uma ausência de legislação, mas um colapso na forma de monitorar um mecanismo que o próprio Estado oferece”, diz a pesquisadora. “Quando a mulher finalmente consegue denunciar e anuncia que precisa de ajuda, o Estado não consegue responder àquela mulher”.

Números revelam necessidade de o Estado manter o compromisso e o engajamento com o monitoramento das medidas, avalia pesquisadora. “Ainda temos um monitoramento insuficiente do agressor, existem fragilidades na integração institucional entre delegacias de polícia e sistema de Justiça”, alerta Brandão. Além disso, a pesquisadora afirma que o Estado precisa focar nas necessidades dos territórios. “Temos uma baixa resposta institucional em termos de equipamento de proteção, há um subdimensionamento do risco que essas mulheres correm”.

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