9,2 milhões seguem sem tratamento e cortes de financiamento podem levar a 6 milhões de novas infecções, alerta novo relatório do Unaids

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Um novo relatório divulgado nesta quarta-feira (10) pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) lança um alerta contundente: a crise histórica de financiamento internacional está colocando em risco milhões de vidas e ameaçando reverter décadas de progresso no combate ao HIV e à aids. A publicação, intitulada “Aids, Crise e o Poder de Transformar”, compõe a Atualização Global sobre Aids de 2025 e pede mudanças radicais nas políticas e no financiamento da resposta ao HIV.

Segundo o documento, cortes drásticos e repentinos por parte de doadores internacionais têm afetado duramente países de baixa e média renda, justamente os mais impactados pela epidemia. Em meio ao cenário desafiador, o Unaids aponta também para sinais de esperança e resiliência: 25 dos 60 países analisados indicaram que irão aumentar seus orçamentos nacionais para a resposta ao HIV em 2026, somando cerca de US$ 180 milhões em recursos adicionais. Apesar de promissor, o montante ainda está longe de compensar a retração do financiamento externo em países altamente dependentes.

Emergência global: “uma bomba-relógio”, diz diretora do Unaids

A queda no consenso internacional sobre a ajuda e os cortes abruptos em 2025 resultaram em interrupções nos sistemas de saúde, demissões em massa de profissionais e paralisação de programas vitais de prevenção e tratamento.

Em Moçambique, mais de 30 mil profissionais de saúde foram impactados. Na Nigéria, a oferta de profilaxia pré-exposição (PrEP) despencou de 40 mil para apenas 6 mil pessoas por mês. O Unaids alerta que, caso os programas de prevenção e tratamento apoiados pelos Estados Unidos colapsem completamente, o mundo poderá registrar mais 6 milhões de novas infecções por HIV e 4 milhões de mortes relacionadas à aids entre 2025 e 2029.

“Não se trata apenas de um déficit de financiamento — é uma bomba-relógio”, afirmou Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids. “Serviços desapareceram da noite para o dia. Profissionais foram mandados para casa. E pessoas — especialmente crianças e populações-chave — estão sendo expulsas do sistema de saúde.”

Avanços sob ameaça

Mesmo antes da atual crise, os números já eram alarmantes. Em 2024, 9,2 milhões de pessoas vivendo com HIV não tinham acesso ao tratamento. Entre elas, 620 mil crianças de até 14 anos viviam com o vírus sem cuidados adequados, contribuindo para 75 mil mortes infantis relacionadas à aids.

No total, 630 mil pessoas morreram de causas relacionadas à aids em 2024, sendo 61% dessas mortes concentradas na África Subsaariana. Adolescentes e jovens mulheres continuam sendo desproporcionalmente afetadas: mais de 210 mil novas infecções foram registradas entre jovens de 15 a 24 anos, o que representa uma média de 570 infecções por dia.

Programas comunitários de prevenção, fundamentais para alcançar populações vulneráveis, também enfrentam um colapso iminente. Mais de 60% das organizações lideradas por mulheres já perderam financiamento ou tiveram que suspender atividades em 2025. O PEPFAR, programa do governo norte-americano, que em 2024 alcançou 2,3 milhões de jovens mulheres com serviços de prevenção e permitiu o acesso de 2,5 milhões de pessoas à PrEP, já sofre interrupções severas.

A situação é agravada por leis punitivas em diversos países. Uganda, Mali e Trinidad e Tobago aprovaram recentemente medidas que criminalizam relacionamentos homoafetivos, identidade de gênero e uso de drogas — decisões que afastam ainda mais as populações-chave dos serviços de saúde e aumentam o risco de infecção.

Respostas nacionais e o poder da transformação

Apesar do cenário crítico, o relatório do Unaids também destaca exemplos de enfrentamento. A África do Sul, que já financia 77% da sua resposta à aids, planeja um aumento de 5,9% nos gastos com saúde e 3,3% nos programas de HIV e tuberculose nos próximos três anos. O país investirá ainda em melhorias tecnológicas, como sistemas centralizados para distribuição de medicamentos e vigilância de estoques.

Outro marco importante foi alcançado por sete países africanos — Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia, Ruanda, Zâmbia e Zimbábue — que atingiram as metas 95-95-95: 95% das pessoas vivendo com HIV sabem seu status, 95% dessas estão em tratamento, e 95% das pessoas em tratamento atingiram a supressão viral.

Também ganham destaque novas tecnologias promissoras, como a PrEP injetável de longa duração, incluindo o Lenacapavir, que demonstrou quase 100% de eficácia em estudos clínicos. No entanto, sua acessibilidade e custo ainda representam barreiras significativas.

Um apelo global por solidariedade

A diretora executiva do Unaids fez um apelo enfático: “Ainda há tempo para transformar esta crise em uma oportunidade. Os países estão assumindo responsabilidades e as comunidades mostram o que funciona. Agora precisamos de solidariedade global para corresponder à coragem e resiliência que estamos vendo.”

O relatório reforça que o enfrentamento da aids não pode depender exclusivamente dos orçamentos nacionais. É urgente que a comunidade internacional preencha as lacunas de financiamento, elimine barreiras legais e sociais e fortaleça as comunidades locais para liderar a resposta ao HIV.

Cada dólar investido, segundo o Unaids, salva vidas, fortalece sistemas de saúde e contribui para o desenvolvimento sustentável. Desde o início da epidemia, 26,9 milhões de mortes foram evitadas graças ao tratamento, e 4,4 milhões de crianças foram protegidas da infecção pelo HIV por meio da prevenção da transmissão vertical.

“Em tempos de crise, o mundo precisa escolher a transformação em vez da retração”, concluiu Byanyima. “Juntos, ainda podemos acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030 — se agirmos com urgência, unidade e compromisso inabalável.”

O relatório do Unaids foi lançado poucos dias antes da IAS 2025 — Conferência Científica sobre Aids, que acontece de 13 a 17 de julho em Kigali, Ruanda.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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