50 anos do PNI: A imunização de pessoas vivendo com HIV é fundamental para a prevenção de infecções oportunistas e manutenção da saúde

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O Programa Nacional de Imunizações (PNI) completou 50 anos de existência com um histórico de vitórias e desafios para continuar enfrentando as doenças transmissíveis. Atualmente, o programa oferece 32 vacinas na rede pública, mas o Brasil só produz metade das vacinas que usa.

A criação do PNI, em 1973, foi um marco na saúde pública brasileira, pois centralizou as várias ações de vacinação que, naquele momento, eram adotadas pelos estados com critérios diferentes, com calendários vacinais diferentes. 

Foi com essa centralização que o programa erradicou a poliomielite e eliminou doenças como o sarampo, que acabou voltando mais recentemente por conta do negacionismo e mentiras espalhadas nas redes sociais, o que ressalta a necessidade de novas estratégias de comunicação e investimento.

Calendário nacional de vacinação 

Um dos elementos do PNI é o calendário nacional de vacinação, que é responsável por orientar as pessoas sobre as vacinas que devem ser aplicadas ao longo da vida, desde o nascimento até a chegada da velhice. 

Um grupo prioritário no acesso à imunização é o de pessoas vivendo com HIV. Para essa população, a vacinação é fundamental para a prevenção de infecções oportunistas e para a manutenção da saúde. No entanto, muitos ainda têm dúvidas sobre a segurança e a eficiência das vacinas para esse grupo. 

Em entrevista à Agência Aids, o infectologista Maiky Prata, médico do Centro de Referência em HIV/Aids e do Ambulatório de Atendimento à Saúde Integral da População de Travestis e Transexuais do Município de Diadema, explicou como funciona o calendário de vacinação para pessoas vivendo com HIV. “Nós vivemos em um meio ambiente vulnerável a muitas infecções, e com a tecnologia descobrimos que muitas dessas doenças são imunopreveníveis, por isso precisamos de um calendário para nortear os profissionais de saúde e auxiliar na prevenção dessas doenças que já são sabidamente transmissíveis”.

Segundo o especialista, o governo acompanha através de dados epidemiológicos se há alguma população que está historicamente mais vulnerável a um tipo de infecção e por isso é prioridade que ela seja vacinada em relação a outras populações. 

Por isso, pessoas vivendo com o HIV possuem um calendário de vacinação com algumas especificidades. “O HIV mesmo com o tratamento e com a carga viral suprimida é um vírus que tem interferência nas células de defesa de algum modo, então pode ocorrer um aumento da vulnerabilidade com algumas infecções específicas”, diz.  

Quais vacinas podem ser aplicadas em pessoas vivendo com HIV?

As recomendações da Sociedade Brasileira de Imunização para vacinação de pessoas com HIV sãos as seguintes:

BCG – para todas as crianças logo após o nascimento, independente da exposição ao HIV;

Tríplice viral – SCR (sarampo, caxumba e rubéola) e varicela –  não é recomendada para pessoas com HIV com evidência de imunossupressão grave;

Febre amarela – a recomendação depende da avaliação imunológica do paciente e do risco epidemiológico de adquirir a infecção;

Difteria, tétano e coqueluche – podem ser administradas às pessoas infectadas pelo HIV, independente do estado imunológico;

Haemophilus influenza e tipo b – crianças infectadas pelo HIV devem receber o mesmo que é oferecido para crianças com funções imunológicas normais;

Influenza e anti-pneumocócica – indicada para todos os pacientes com HIV;

Hepatite B – indicada para todos os pacientes com HIV. Mas, antes da vacinação, é aconselhável realizar testes sorológicos para hepatite B;

Hepatite A – indicada para todos os pacientes com HIV em risco de infecção;

HPV – indicada para homens e mulheres, independentemente da contagem de células CD4. Mesmo que previamente infectadas pelo HPV, pessoas com HIV se beneficiam da vacinação;

O médico explicou que as vacinas são produzidas a partir de componentes do próprio agente agressor ou de um agente semelhante para que o organismo “aprenda” a combater essa ameaça.

Por causa da imunossupressão, as pessoas vivendo com HIV podem apresentar respostas menos eficientes a essas substâncias ou sofrer com efeitos colaterais mais fortes. Por isso, é importante fazer uma avaliação com o médico para saber que tipo de vacina deve ser aplicada. Ele deve considerar a contagem das células CD4, que são linfócitos que combatem as infecções e são peças-chave do sistema imunológico. Existem duas opções de vacinas:

Vacinas atenuadas – o vírus ou bactéria é atenuado, diminuindo o poder infeccioso;

Vacinas inativadas – os microrganismos são mortos, o que elimina o poder infeccioso dessa substância. É a vacina para pessoas com HIV mais indicada, com o inconveniente de que, às vezes, é preciso aplicar mais de uma dose.

“Algumas vacinas, como as de vírus vivo, dependendo dos níveis de célula CD4 do indivíduo, apresentam um certo risco ao ser exposto a essa vacina, porque se o vírus está vivo atenuado ele tem um potencial de causar doenças se a pessoa não tiver um sistema imune para responder a essa vacina.” 

Se a pessoa apresenta um nível maior que 350 não há contraindicações, em nível menor que 300 deve ser avaliado cada caso de forma individual e abaixo de 200 há contraindicações, como a tríplice viral (vacina do sarampo, caxumba e rubéola), vacina da febre amarela, e a vacina da poliomielite, como exemplifica o doutor. 

Vacina previne doenças

O médico ressalta ainda que se vacinar corretamente é um jeito de prevenir doenças graves que podem levar à morte. “Isso vai impactar grandemente na vida dessas pessoas, melhorando a qualidade de vida e evitando as recorrentes doenças”. 

 “Eu acho que esse é o grande marco da vacinação, nós podermos proteger a população de doenças que são previníveis”, afirma. 

Pandemia de Covid-19

Na pandemia de Covid-19, às pessoas vivendo com HIV foram incluídas no grupo prioritário para se vacinar, alguns estudos que são citados no site da UNAIDS apontaram que essa população estava mais sujeita à morte decorrente da infecção do vírus (SARS-CoV-2). Não havendo contra indicação referente ao número de CD4 do paciente, sendoindicada para todos os indivíduos com HIV.

“A gente sabe que é possível ter covid mesmo vacinado, mas foi comprovado que a vacina previne formas graves do covid, e o que leva a óbito são somente essas. Uma coisa é ter um quadro gripal leve após a vacinação e outra coisa é ter uma doença grave como foi no início da pandemia quando as pessoas morriam e não tinha o que ser feito.”, diz. 

Onde se vacinar

Importância e benefícios da vacinação — Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe

Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) são disponibilizadas mais de 20 tipos de vacinas de forma gratuita. Além das campanhas anuais contra a gripe e contra o sarampo. Além disso, é possível se vacinar nos CRIEs (Centros de referência para Imunobiológicos Especiais).

O CRIE é um dos braços Programa Nacional de Imunização. O serviço, criado em 1993, disponibiliza vacinas específicas de forma gratuita para pacientes em condições especiais, como aqueles que têm doenças crônicas, que foram transplantados, que passaram por quimioterapia, que perderam um orgão como o baço, entre outros.

Também são oferecidos soros e imunoglobulinas que não estão nas Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) ou são restritos.

Sâmylla Rocha (samylla@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista:

Dr. Maiky Prata

E-mail: maikycprata@gmail.com

Instagram: @maiky_prata

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