24/01/2007 – 14h30
Maior cidade do Brasil, São Paulo completa 453 anos nesta quinta-feira (25/01). Pelo tamanho, história, vocação e crescimento desorganizado, o enfrentamento do HIV/Aids na maior metrópole brasileira revela números impressionantes.Segundo dados disponíveis no último exemplar do “Jornal DST/Aids da Secretaria da Saúde”, no ano passado foram distribuídos 25 milhões de preservativos masculinos. Além da ação direta que cerca de 76 organizações não governamentais realizam na cidade, a Rede Municipal Especializada em DST/Aids atende aproximadamente 50 mil pacientes . São pessoas que vivem com HIV/Aids, pessoas em investigação de DST e Aids e pacientes em tratamento de DST. São Paulo disponibiliza tratamento para aproximadamente 10 mil pessoas que usam os anti-retrovirais e são atendidas na rede municipal. A cidade com seus cantos e histórias,com sua gente rica e singela, com seus contrastes e ainda oportunidades,tem 20% dos casos de Aids notificados no Brasil. Neste aniversário,vamos lembrar um pouco da história solidária e cidadã que a cidade construíu no enfrentamento da pandemia. Gapa de São Paulo e Brenda Lee foram as instituições pioneiras no acolhimento às primeiras pessoas que se infectaram pelo hiv.No texto que segue, a biografia de ambas.
Há divergências sobre qual o local que abrigou soropositivos pela primeira vez, mas uma coisa é certa: os paulistanos podem se orgulhar de representarem a vanguarda desse tipo de instituição. Segundo o Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo, a “primeira casa de apoio do país foi a do GAPA-SP”. Fato confirmado pelos integrantes do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids, mas rechaçado por Maria Luiza, presidente da Casa de Apoio Brenda Lee. De acordo com ela, em 1984, num local conhecido como “Palácio das Princesas”, teriam sido prestados os primeiros atendimentos do tipo aos portadores do vírus HIV. “Foi quando surgiram os primeiros casos de Aids no Estado de São Paulo”, recorda Luiza.
“Ela [Brenda Lee] começou cuidando de três pacientes, após três ou quatro anos a Secretaria de Saúde [do Estado de São Paulo] autorizou o nosso funcionamento”, explica a atual presidente da instituição. Voluntária há “dezesseis anos”, o seu mandato teve início em 24 de junho de 2006 e encerra-se em 23 de junho de 2011. Oficialmente, a Casa de Apoio Brenda Lee foi fundada somente em 1988. Mesmo ano de surgimento do lugar mantido pelo GAPA (SP).
Ainda que com alguns poucos meses de diferença, considera-se que a Casa de Apoio do GAPA foi a primeira do país, embora o local fundado por Cícero Caetano Leonardo (nome de batismo de Brenda Lee), seja, sem dúvida, o mais longevo. A casa mantida pelo GAPA da capital paulista durou 1 ano e 9 meses. “Aquilo abalou muito”, lembra Áurea Abbade, advogada do grupo em São Paulo. “A experiência foi muito ruim mesmo. Por mais que a população ajudasse, nós não tínhamos uma renda fixa. É angustiante, a gente enlouquece. Eu cheguei a pedir comida na feira. Foi muito ruim”, lamenta Abbade.
Segundo a advogada, a inflação galopante da época (final dos anos 80) inviabilizou a funcionamento do local. “O valor fornecido [por um convênio com a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo] era fixo. Doze meses de um valor ‘x’. O dinheiro foi corroído em dois, três meses”, recorda Áurea Abbade. Ela explica que a casa, que ficava “no Bairro da Luz, perto da estação da Luz (região central da capital paulista)”, chamava-se apenas “Casa de Apoio do GAPA”.
A advogada e também ativista Áurea Abbade, que participa do GAPA desde a sua fundação em 1985, lembra que a casa precocemente fechada pelo grupo chegou a hospedar “em torno de 20 pessoas”, mas ressalta que a rotatividade era “alta”.
Na época, os integrantes do grupo agiam da seguinte forma: localizavam a família do residente, lhe arrumavam um emprego e, geralmente, os encaminhavam de volta para suas famílias. “Da pena até hoje. Mesmo na época nós conseguimos uma socialização dos pacientes. Nós decidimos que íamos encaminhar aquelas pessoas. Os dois últimos faleceram lá [nas dependências da própria Casa de Apoio]. Foi muito triste”, lembra Abbade.
Além da estrutura, que exigia a presença constante de “médicos, enfermeiras e cozinheiras” (entre outros profissionais), a advogada recorda que, no final dos anos 80, “o medicamento não era gratuito” (a lei que garante o acesso universal e gratuito aos medicamentos anti-retrovirais foi sancionada em 13 de novembro de 1996, ou seja, oito anos após a abertura da Casa de Apoio do GAPA). Áurea Abbade lamenta, mas não vê a “possibilidade” de criação uma nova casa.
Brenda Lee: a casa de apoio mais antiga do país
“Era uma coisa assustadora o número de óbitos. Felizmente no ano passado [2006] não tivemos nenhum”, comemora Maria Luiza, presidente da Casa de Apoio Brenda Lee. Voluntária desde junho de 1990, Luiza vivenciou os momentos mais dramáticos ocasionados pela pandemia da Aids. Os primeiros soropositivos atendidos pela casa foram encaminhados pelo Hospital Emílio Ribas. Quase sempre, eram indivíduos que não tinham para onde ir.
“O governo federal envia o dinheiro para o Estado, que repassa para a Prefeitura, que repassa essa verba para nós”, esclarece Luiza,sobre a principal fonte de financiamento da instituição. A verba é mensal e o contrato se encerra em dezembro de 2007. “Nos ajuda bastante, mas temos de batalhar muito durante o mês para pagar as contas”, explica. Além desse convênio, a Casa conta com “alguns sócios e o brechó”. Maria Luiza faz questão de lembrar: são 22 moradores e “eles precisam de uma excelente alimentação por conta dos efeitos colaterais” provocados pelo coquetel de drogas anti-retrovirais.
Redação da Agência de Notícias da Aids



