453 ANOS DE SÃO PAULO: A HISTÓRIA DA PRIMEIRA CASA DE APOIO DE SÃO PAULO E DO PAÍS VOLTADA PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES SOROPOSITIVOS

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24/01/2007 – 18h20

Maior cidade do Brasil, São Paulo completa 453 anos nesta quinta-feira (25/01). Pelo tamanho, história, vocação e crescimento desorganizado, o enfrentamento do HIV/Aids na maior metrópole brasileira revela números impressionantes.Segundo dados disponíveis no último exemplar do “Jornal DST/Aids da Secretaria da Saúde”, no ano passado foram distribuídos 25 milhões de preservativos masculinos. Além da ação direta que cerca de 76 organizações não governamentais realizam na cidade, a Rede Municipal Especializada em DST/Aids atende aproximadamente 50 mil indivíduos. São pessoas que vivem com HIV/Aids, pessoas em investigação de DST e Aids e pacientes em tratamento de DST. São Paulo disponibiliza tratamento para aproximadamente 10 mil pessoas que usam os anti-retrovirais e são atendidas na rede municipal. A cidade com seus cantos e histórias,com sua gente rica e singela, com seus contrastes e ainda oportunidades, tem 20% dos casos de Aids notificados no Brasil. Neste aniversário, vamos lembrar um pouco da história solidária e cidadã que a cidade construíu no enfrentamento da pandemia. No texto que segue, a biografia da primeira Casa de Apoio, dirigida a crianças e adolescentes, da região metropolitana de São Paulo. Aliás, o local foi o primeiro do gênero em todo o país.

São 22 crianças e adolescentes. Cada uma “custa” R$ 2.500,00 por mês. Total: R$ 55.000,00 mensais. Esse é o valor aproximado para a manutenção do “Centro de Convivência Infantil Filhos de Oxum”, localizado em Taboão da Serra, cidade da região metropolitana de São Paulo. Os custos demonstram o trabalho hercúleo promovido pelos voluntários e funcionários da casa. “A gente tem que ter um psicólogo, um pedagogo. Tem que ter uma equipe técnica de acompanhamento, além de uma boa alimentação”, explica a presidente da instituição Salete Cerbam Gasparelo, justificando o custo per capita da entidade que, no ano passado, completou 20 anos. Atualmente, o local conta com 18 funcionários contratados de acordo com as regras da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas).

Salete lembra que o fundador do centro, Laércio Zaniquellei (conhecido como Laerte), “foi o primeiro a cuidar das crianças que nasceram [soropositivas] no Hospital Emílio Ribas”. Isso teve início no ano de 1986. O psicólogo Laerte, que faleceu em outubro de 2005 em decorrência de um enfarte, era voluntário no local e sensibilizou-se com a situação das primeiras crianças nascidas com o vírus HIV. Oficialmente, a casa de apoio seria fundada apenas em 4 de agosto de 1990, mas já funcionava ativamente cerca de quatro anos antes dessa data.

“Quando ele [Laerte] trouxe as crianças [para a primeira sede do centro] houve muito preconceito. O pessoal tem medo. Geralmente por desconhecimento”, avalia Salete. Preconceito até mesmo com o nome da instituição: Filhos de Oxum. A denominação foi motivada pelo culto ao “candomblé”, religião afro-brasileira da qual o fundador da entidade era adepto. Desde a fundação do local, já passaram pela casa mais de 200 crianças e adolescentes. Desses, segundo dados da própria entidade, 50 tiveram a sua sorologia negativada.

Salete Cerban Gasparelo preside a casa desde 2002. Ela começou como voluntária em agosto de 1996. No ano passado, reelegeu-se para mais um mandato de quatro anos. Assim como presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, passa a faixa para o sucessor no ano de 2010.

No momento, residem no centro 22 crianças e adolescentes, com idades que variam de 0 a 18 anos, mas a instituição também auxilia jovens que não moram no local, mas que vivem ou convivem com o HIV. “Nós temos alguns projetos que são empresas que financiam. O ‘Amigo Real’ (do Banco Real) ajuda. E a gente tem convênios com o governo federal, o Estado, o munícipio. A gente também faz eventos e têm os doadores, pessoas comuns e empresas. E também temos um bazar”, explica Gasparelo.

“Pelo menos aqui nunca faltou remédio para nós”, faz questão de ressaltar a ex-funcionária pública Salete Cerban Gasparelo. “Nós somos aposentadas, estamos na linha de frente. Temos todo o tempo do mundo. Trabalhamos juntas na Prodesp [Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo]”, afirma Gasparelo. Quando diz “nós”, ela refere-se a tesoureira da instituição Suelly Aparecida Bortolotti. A presidente do centro comemora o fato de que, desde 2002, o ainda mortal vírus da Aids ter vitimado somente “uma criança”. “Uma das meninas positivas, casou com um negativo. Eles estão pensando em ter um filho, estão tomando todos os cuidados pra isso. Nós também temos algumas vitórias”, comemora.

Quando o centro foi inaugurado, em 1986, o atendimento às crianças e adolescentes era feito em uma casa localizada na Avenida São Paulo, no bairro Parque Assunção, em Taboão da Serra (SP). Agora, os voluntários e funcionários do centro ainda acolhem no mesmo bairro, numa via próxima chamada Rua das Rosas (nº 320). O local é alugado. “Nosso maior sonho é ter uma sede própria”, aspira Gasparelo.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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