Monja Coen, Fundação Poder Jovem, profissionais da saúde, organizações sociais, ativistas e pessoas que vivem ou convivem com HIV se reuniram na Avenida Paulista para unir paz, meditação, solidariedade e enfrentamento ao estigma no início do mês dedicado à luta contra o HIV e a Aids.
Na manhã ensolarada deste domingo (30), a Avenida Paulista recebeu a 3ª Caminhada Meditativa pela Paz, organizada pela Fundação Poder Jovem. O encontro marcou oficialmente a abertura do Dezembro Vermelho, reforçando a importância de falar sobre prevenção, cuidado, acolhimento e combate ao estigma que ainda cerca o HIV no Brasil.

Fachada do Museu de Arte de São Paulo, o MASP.
Durante a abertura, a infectologista Glória Brunetti, presidente da Fundação Poder Jovem, reforçou que o maior desafio atual não está apenas na ciência, mas na sociedade.
“O preconceito e o estigma matam tanto quanto o vírus. Hoje encaramos o HIV como uma doença crônica que precisa de carinho, cuidado, atenção e muita ciência. Mas a sociedade precisa bradar: acaba com esse preconceito. Vamos fazer prevenção. Vamos fazer tratamento. Essa é a base de uma humanidade sadia, próspera e com paz.”

A doutora Glória Brunetti durante a concentração para a caminhada meditativa.
A atividade começou em roda, no vão livre do MASP (Museu de Arte de São Paulo), com falas de acolhimento e agradecimento às organizações presentes. Glória destacou a força da união entre coletivos, serviços de saúde e voluntariado.
“Tanta gente boa, tantas pessoas do bem… o bem está em todo mundo. Quem trabalha no voluntariado encontra o caminho com mais facilidade”, disse Glória, lembrando a importância das ONGs que atuam diariamente na resposta ao HIV.
Ela citou entidades como Mopaids, Agência Aids, Fórum de ONGs Aids do Estado de São Paulo, GIV, Positividades, Instituto Vida Nova, Coletivo Luminar, Rede de Jovens São Paulo+, entre outras, reforçando que “a gente tem que apoiar quem está na luta e quem está sempre ao nosso lado”.
Ao lado dela, profissionais de saúde que acompanharam a trajetória da epidemia desde os anos 1980 falaram sobre o avanço da ciência e o compromisso público com a prevenção.

Grupo se prepara para partir rumo ao final da avenida.
Monja Coen: paz como cuidado coletivo e inclusão
Condutora da caminhada, Monja Coen, monja zen-budista brasileira, falou sobre sua trajetória ao lado de pessoas vivendo com HIV desde os anos em que atuava como voluntária próxima ao Hospital Emílio Ribas.
“Eles diziam que pacientes infectocontagiosos não podiam ter voluntariado. Mas a doutora Glória insistiu, falou com todos os médicos e diretores e conseguiu. Hoje existe voluntariado no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, e é preciso ver para entender, para cuidar, para saber que somos todos semelhantes”, lembrou.
A monja resgatou histórias marcantes daquele período e reforçou a importância de romper o estigma.
“Não é vergonha viver com HIV. Não torna ninguém um monstro. Faz parte da natureza humana. E como é que a gente faz para divulgar, para que as pessoas não morram? Porque se você toma remédio, você vive bem. Tem tratamento.”

Ela também destacou a necessidade de humanizar o olhar sobre quem vive com HIV:
“A pessoa vivendo com HIV também é um ser humano que pode estar onde quiser e fazer o que bem entender. Ainda tem quem discrimine, quem não queira empregar, quem não queira namorar.”
Para Monja Coen, a caminhada simboliza um compromisso coletivo:
“Estamos aqui numa caminhada para a paz. Que a paz prevaleça na Terra. Que todos encontrem plenitude e bem-estar através da acolhida, da inclusão e do respeito.”

O grupo segue caminhando com cartazes que reforçam a mensagem.
A informação é vida
A médica Rosa Alencar, diretora adjunta do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo, celebrou a parceria com a Fundação Poder Jovem e destacou a importância de iniciar o Dezembro Vermelho com um gesto coletivo de paz e consciência.
“É uma imensa alegria estarmos aqui. O Dezembro Vermelho é um mês de visibilidade, de falar sobre HIV, de falar sobre prevenção, de levar informação — e informação de qualidade, ancorada nas melhores evidências científicas. A informação é vida. Ela salva vidas”, afirmou.
Rosa reforçou que a busca pela paz também nasce da dignidade e da solidariedade:
“Essa paz que buscamos hoje nasce do respeito, da dignidade e do compromisso com a saúde pública. Todas as pessoas têm direito a um cuidado sem preconceito e sem estigma.”

Um domingo de paz, prevenção e comunidade
A 3ª Caminhada Meditativa pela Paz reuniu pessoas de diferentes trajetórias, idades e experiências — muitas delas vestidas de branco e usando laços vermelhos. Entre passos silenciosos, conversas afetivas e momentos de meditação guiada, o ato reforçou que cuidar da vida também é falar sobre HIV com acolhimento, combater o estigma e promover direitos.
No início do Dezembro Vermelho, a mensagem deixada na Avenida Paulista foi clara: é possível unir espiritualidade, ciência, afeto e mobilização social para construir um futuro de menos preconceito e mais dignidade.
A caminhada termina, mas o compromisso segue. Como disse Monja Coen:
“Cada um de nós representa a humanidade. Seres humanos que juntos podem fazer o bem.”
Após o percurso meditativo pela Paulista, a caminhada seguiu em direção ao ato organizado pelo Grupo Mulheres do Brasil, que realizava na mesma manhã a 8ª Caminhada pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas.

Fim da caminhada, e pelo fim do preconceito: grupo reunido!
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Fundação Poder Jovem
Instagram: fundacaopoderjovem



