30 anos de ativismo – por Carlos Ebeling Duarte e Liandro Lindner

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Neste junho de 2026, completamos 30 anos de ativismo em HIV/Aids, uma trajetória que, ao longo do tempo, ampliou seu escopo para abranger outros aspectos relacionados à saúde pública e aos direitos humanos. Há três décadas, ingressávamos como voluntários no Gapa/RS, passando por um longo processo de formação até sermos inseridos em uma das frentes de atuação da primeira ONG de Aids do Sul do Brasil. Foram tempos de aprendizado, crescimento, trocas, experiências e profundas vivências.

Em 1996, o enfrentamento da Aids começava a mudar de rumo com o advento dos medicamentos antirretrovirais (ARVs), enquanto a doença ainda ocupava espaço central no debate público e na mídia. A integração das pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA) apresentava-se como um grande desafio, e o processo de pauperização da epidemia ainda dava seus primeiros sinais. Olhando para o presente, percebemos que essa realidade se agravou com o aumento da pobreza, o avanço das coinfecções e a redução da importância atribuída à Aids, tanto na formulação das políticas públicas quanto nas prioridades da sociedade.

Ao longo desses anos, estivemos presentes em diversos espaços de controle social, participamos de debates no Brasil e no exterior, ocupamos representações de destaque e atuamos na gestão federal dos programas de HIV/Aids e outras IST, Tuberculose e Hepatites Virais. Também acompanhamos de perto a construção das políticas do Sistema Único de Saúde (SUS), bem como as constantes tentativas de enfraquecê-lo. Passamos por governos de diferentes orientações ideológicas, debatemos e confrontamos autoridades, cientistas e representantes da chamada visão dissidente da Aids — que teve um núcleo expressivo no Rio Grande do Sul no início dos anos 2000 —, sempre em defesa dos direitos humanos e de uma saúde pública que ultrapassasse uma lógica estritamente biomédica, medicamentosa e burocrática, reafirmando os princípios da universalidade, da integralidade e da equidade do SUS.

Também tivemos o privilégio de acompanhar a valorosa atuação de companheiros e companheiras que, com coragem e determinação, marcaram a resposta brasileira à epidemia de HIV/Aids por meio de organizações, fóruns, redes e da atuação individual. De norte a sul do país, a mobilização comunitária foi decisiva para os avanços conquistados e, hoje, torna-se ainda mais importante para impedir que o retrocesso e o descaso avancem. Mesmo diante da escassez de apoio social e governamental, muitos seguem resistindo na linha de frente, mantendo viva essa história de luta.

Passados 30 anos, constatamos que a mortalidade diminuiu significativamente e que hoje é possível viver com qualidade de vida tendo HIV. Entretanto, esses avanços nem sempre alcançam todas as pessoas. O preconceito, a discriminação, o estigma, o adoecimento e a morte ainda fazem parte da realidade de uma epidemia que persiste e que está longe de atingir a meta de eliminação como problema de saúde pública até 2030, conforme pactuado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ao mesmo tempo, novos desafios, igualmente relevantes, exigem atenção permanente e respostas alinhadas às transformações da realidade.

As novas gerações do ativismo têm o compromisso de conduzir essa luta, inspiradas por todas as pessoas que dedicaram tempo, energia e compromisso a essa causa ao longo dessas três décadas. Mais do que dar continuidade a esse legado, cabe a elas construir novas estratégias, fortalecer alianças e reinventar formas de mobilização diante dos desafios contemporâneos, para que o direito à saúde, à dignidade e à cidadania continue sendo uma conquista de todas as pessoas.

* Carlos Ebeling Duarte é arquiteto, vice-presidente do Gapa/RS e Conselheiro Nacional de Saúde.

** Liandro Lindner é jornalista, professor universitário, doutor em Saúde Pública e membro da Comissão Nacional de Aids (Cnaids).

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