
O Instituto Vida Nova (IVN) completa, neste mês de maio, 25 anos de atuação em São Paulo. Um quarto de século de acolhimento, resistência e transformação, construído a partir das dores e dos afetos de quem vive com o HIV/aids.
Ao entrar no Instituto, é possível notar a academia ao ar livre, as salas decoradas com quadros cheios de cores e a mesa que reúne os acolhidos, voluntários e tantos outros durante as refeições e confraternizações, mas as histórias de amor, superação e cuidado, também podem ser sentidas e ouvidas.
“Nós construímos aos poucos a nossa casinha, assentando os tijolos nessa obra e, hoje, estamos aqui no castelo. Cada tijolo nessa obra foi fundamental”, narra Marta Santos, uma das fundadoras do INV que hoje atua como Agente de Prevenção da ONG.

Mais do que um centro de apoio, o Instituto é casa para quem chega. É colo, escuta, cuidado e pertencimento. “Aqui eu me sinto melhor do que na minha própria casa. Ninguém é mais do que ninguém. Estamos todos no mesmo barco”, diz Adilson Batista, voluntário e assistido há mais de 15 anos. Em 2002, ele chegou frágil, tomando 26 comprimidos por dia, enfrentando doenças oportunistas e sem muitas perspectivas. Hoje, vive com o HIV e está indetectável e é uma das tantas provas vivas do que o acolhimento pode fazer.
Hoje, o IVN oferece atendimento psicológico, fisioterapia, atividades físicas supervisionadas e rodas de conversa que fortalecem emocionalmente para 835 pessoas vivendo com o vírus. O cuidado é integral, pensado para o corpo, a mente e as relações.
“Muita gente chega por causa da sorologia, mas permanece por questões como depressão, violência doméstica ou vulnerabilidade social”, explica Vanessa Sodré, psicóloga do Instituto. “Nosso papel é mostrar que ninguém está sozinho. E que viver com HIV é possível, com qualidade e dignidade.”
Leidionir Santos, que frequenta o Instituto há 15 anos, reforça o quanto a informação transforma. “Quando descobri que era soropositiva, achei que ia morrer. Aqui eu aprendi que ter o vírus não é o mesmo que ter a doença. Hoje sou indetectável, sei que não transmito, e vivo normalmente. Essa informação salvou minha vida e pode salvar muitas outras.”
O voluntariado é um dos pilares do Vida Nova. Adilson, além de ser atendido, doa seu tempo e cuidado todos os dias. “Aqui encontrei um propósito. Molho as plantas, ajudo nas atividades, faço musculação com os colegas. Isso aqui me dá sentido. Minha vida é o Vida Nova.”
Esse envolvimento afetivo também move quem trabalha na equipe. José Ferreira Sodré, educador físico do IVN, fala com emoção: “Eu não tô aqui só como profissional. Tô aqui porque acredito. O acolhimento vem antes do exercício físico. O mais importante é fazer com que eles se sintam vivos, pertencentes.”

Projetos
O IVN, em 25 anos, promoveu diversos projetos dedicados há pessoas que vivem com HIV/Aids. Hoje, são quatro os projetos em andamento.
Um deles é o Academia Malhação, que promove saúde física num ambiente seguro e acolhedor. “A gente trabalha o corpo, mas também a autoestima e a mente. Temos um local para que essas pessoas tenham os exercícios pensados para eles. E ninguém aqui se sente julgado.”, conta José.

O Agora Você Tá Pronto leva preservativos e orientação para baladas e regiões vulneráveis, onde a informação e a prevenção ainda não chegam como deveriam.
Já o Qualivida Mais Saúde na Feira une educação em saúde, prevenção de ISTs e doação de alimentos nas feiras populares.
E o Promotoras na Prevenção da Sífilis atua dentro das casas, com rodas de conversa, incentivo a promotoras comunitárias e capacitação de mulheres como agentes de transformação.
“São projetos que alcançam quem mais precisa, de forma direta e respeitosa”, explica Eliane Câmara, diretora do IVN. Ela também destaca as ações com meninas trans, que participam de oficinas de maquiagem, extensão de cílios e outros cursos. “Elas querem aprender, ter uma profissão. O Instituto oferece essa chance e acolhe com respeito.”
Desafios
Mesmo com tantas conquistas, o Instituto enfrenta obstáculos diários. Os principais são a falta de uma sede própria e a captação de recursos financeiros.
“Vivemos de projetos municipais e estaduais, que nem sempre cobrem todos os custos. O aluguel pesa. E isso limita o que poderíamos oferecer”, conta Ariana Wruck, Conselheira Fiscal que faz parte do IVN desde a fundação. Um espaço físico adequado, definitivo, permitiria expandir o atendimento e garantir mais estabilidade para o futuro.
Outro desafio é o preconceito, que ainda persiste, mesmo com décadas de informação disponível. “Tem gente que ainda separa copo, talher, acha que HIV passa em abraço. Isso machuca. É o reflexo de uma sociedade desinformada e excludente”, diz Vanessa. Por isso, o Instituto vai além do cuidado clínico. Ele educa, promove empatia, combate o estigma.
Histórias que resgatam a vida
A força do IVN está nas histórias de quem passou por ele. Gente como Gislaine Sousa, diretora da instituição, que encontrou na fé a chave para a transformação: “A mudança começa dentro da gente. E quando entendi isso, percebi que podia ajudar outras pessoas também.” Ou Ariana, diagnosticada durante a gravidez, que resistiu ao tratamento até entender, com o apoio do Instituto, que cuidar de si era também cuidar da filha. “Hoje estou bem, sou agente de prevenção e passo esse conhecimento adiante.”
A dor também faz parte da caminhada. A ausência de Jorge, ex-presidente do IVN, é sentida até hoje. Mas sua memória continua viva em cada ação. “Ele era o coração do Instituto. Tudo que faço aqui é pra honrar o que ele construiu”, diz Eliane.

O futuro
O Instituto Vida Nova nasceu da urgência, sobreviveu com coragem e chega aos 25 anos com muitos motivos para comemorar — e outros tantos para seguir lutando. O sonho da equipe é que um dia o acolhimento não seja mais necessário, porque o HIV será controlado, prevenido, compreendido. Mas até esse dia chegar, o Vida Nova vai continuar sendo casa, porto seguro e espaço de transformação.
“Nosso maior desejo é que um dia não precisemos mais acolher novos casos. Que o HIV deixe de ser uma sentença e vire só mais uma informação médica. Mas, até lá, a gente segue aqui, firme”, resume Ariana.
O que o Instituto oferece vai muito além de atendimento: ele devolve autoestima, constrói pertencimento e reacende a esperança. Como diz Eliane, com um sorriso sincero: “Vida Nova, pra mim, é amor. Amor ao próximo. Amor ao que eu faço. É isso que transforma o mundo.”
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo, na Agência Aids.
Edição: Talita Martins
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