
Américo Nunes, presidente do Vida Nova
No coração do extremo leste de São Paulo, entre desafios urbanos e desigualdades históricas, pulsa há 25 anos um espaço que tem sido abrigo, afeto e resistência para quem vive com HIV/aids. É ali, em São Miguel Paulista, que o Instituto Vida Nova transforma dor em potência, medo em coragem, abandono em acolhimento. À frente desse movimento está Américo Nunes, fundador, presidente e também pessoa que vive com HIV, que fez da própria história uma missão coletiva.
“Não queria que as pessoas sofressem por viver com aids. Vi muita gente abandonada”, relembra Américo, que descobriu sua sorologia há quase quatro décadas, quando o diagnóstico era, muitas vezes, uma sentença de morte. “Naquela época, as pessoas eram largadas em hospitais, desnutridas, sem perspectiva de futuro. Sofriam não só pela doença, mas pelo abandono, pelo estigma, pelo silêncio, pela fome.”
A aids, como lembra Américo, sempre foi uma doença determinada socialmente. Não bastava enfrentar o vírus: era preciso encarar o preconceito, a discriminação e o isolamento. E para muitos, especialmente nas periferias de São Paulo, faltavam políticas públicas, cuidado e empatia.
Foi nesse cenário que nasceu o Instituto Vida Nova, em 2000, fruto de uma inquietação pessoal e de um amor coletivo. Américo havia deixado um projeto social e, motivado por um grupo de voluntários e pelo companheiro de vida, Jorge Eduardo Reyes, decidiu fundar uma organização que fizesse a diferença — e não fosse “apenas mais uma”. As primeiras reuniões aconteceram no CTA de São Miguel Paulista, e logo a ideia saiu do papel.

As dificuldades foram imensas. “A gente não tinha dinheiro para alugar uma sede. E quando falávamos que era para atender pessoas com aids, as portas das imobiliárias se fechavam. As desculpas eram muitas, mas no fundo era preconceito mesmo”, conta Américo. A solução veio da união: voluntários doaram tempo, força, móveis e afeto. A primeira casa, pequena e precária, foi transformada em espaço de cuidado. Ali, o Vida Nova floresceu.
Jorge Eduardo, companheiro de Américo e um dos grandes responsáveis pela existência do Instituto, faleceu há dois anos. Seu nome está cravado na memória de cada parede do lugar. “Ele era o coração da ONG. Foi ele quem me disse, no leito do hospital: ‘não deixa a peteca cair’. E eu prometi que não deixaria”, conta Américo, com a voz embargada.
Desde então, foram mais de 26 projetos executados, impactando diretamente mais de 15 mil pessoas. As ações de prevenção atingiram mais de um milhão. Mas os números não contam tudo. O que faz do Vida Nova um espaço único é o modo como acolhe: com escuta, com respeito, com toque humano. Há grupos de convivência, apoio psicológico, visitas domiciliares, oficinas de geração de renda e lazer. Cada atividade é desenhada para devolver dignidade a quem foi tantas vezes negado.

Hoje, viver com HIV já não significa morrer. Mas ainda significa lutar. “O maior inimigo agora é o estigma. A ciência avançou, mas o preconceito continua matando. Ele exclui, adoece, silencia”, explica Américo. Para ele, a transformação só será completa quando as pessoas vivendo com HIV forem reconhecidas em sua totalidade: com direito à saúde, ao amor, ao trabalho, ao futuro.
Resistir por 25 anos, principalmente em um país onde mudanças de governo e cortes de financiamento ameaçam o terceiro setor, não é pouca coisa. “A gente vende o almoço para comprar a janta”, diz Américo, sorrindo. “Mas seguimos em frente. Porque essa missão é minha, está em mim. O Vida Nova é o que eu sou.”

Entre as maiores conquistas, ele destaca a credibilidade e a visibilidade do Instituto, reconhecido nacional e internacionalmente. E não esconde o sonho que ainda o move: ter uma sede própria, definitiva, que garanta a continuidade do trabalho.
Para quem chega hoje ao Instituto, a mensagem é simples e poderosa: “Você não está só. Estamos aqui para te acolher, escutar e caminhar com você.” E para quem vive com HIV e ainda sente medo, Américo oferece sua própria história como prova viva de que é possível transformar a dor em força. “Eu também tive medo. Mas eu superei. E você também pode.”

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
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