Milhares de mulheres lésbicas e bissexuais tomaram a Avenida Paulista neste sábado (6) em um ato marcado pela resistência, pela visibilidade e pela cobrança de justiça por Luana Barbosa, assassinada há dez anos após sofrer violência policial em Ribeirão Preto.

A cidade de São Paulo foi tomada por bandeiras, cartazes, palavras de ordem e manifestações culturais durante a 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, realizada neste sábado (6), véspera da Parada do Orgulho LGBT+. Com o tema “Justiça por Luana Barbosa”, a mobilização reuniu coletivos, ativistas, movimentos sociais, artistas e representantes de organizações da sociedade civil em um percurso que saiu do MASP, na Avenida Paulista, e seguiu até a Praça Roosevelt.
A escolha do tema marca os dez anos da morte de Luana Barbosa dos Reis, mulher negra, lésbica e periférica que morreu após ser espancada por policiais militares em Ribeirão Preto, em abril de 2016. Uma década depois, familiares e ativistas seguem cobrando responsabilização dos envolvidos e o reconhecimento da violência sofrida por Luana como expressão do racismo, da lesbofobia e da violência de Estado.
Ao longo da caminhada, a memória de Luana esteve presente em praticamente todas as falas. Familiares, lideranças e participantes reforçaram que a busca por justiça permanece aberta e que a história da jovem continua mobilizando mulheres lésbicas e bissexuais em todo o país.

Ocupação das ruas em tempos de conservadorismo
Representando a Marcha Mundial das Mulheres, Debora Dias destacou a importância da presença coletiva nas ruas em um contexto de avanço conservador.
“Estamos ocupando a rua num período em que o conservadorismo está tentando tirar a gente da rua. Nós estamos aqui para mostrar que as mulheres têm poder e têm potência e nós não vamos voltar para o armário. Nós vamos botar bem a nossa cara no sol e na rua”, afirmou durante o ato.
A fala também ressaltou a necessidade de fortalecer candidaturas de mulheres lésbicas, bissexuais e trans, ampliando a presença dessas populações nos espaços de poder.

Do ABC para a Paulista
Entre os coletivos presentes estava o Ocupa Sapatão ABC. Em sua intervenção, a ativista Fran lembrou a trajetória de resistência das lésbicas da região do Grande ABC, historicamente marcada pela violência de grupos extremistas.
“Mesmo diante dessas ameaças, seguimos existindo, seguimos ocupando as ruas, criando espaços de afeto, cultura, acolhimento e organização política”, declarou.
Ela também homenageou mulheres lésbicas invisibilizadas ou vítimas de violência, destacando a importância da memória coletiva para fortalecer a luta atual.
Mulheres migrantes também reivindicam visibilidade
Outro momento de destaque foi a participação da Rede Mil Bi+, representada por Patrícia, mulher lésbica argentina residente no Brasil. Em sua fala, ela chamou atenção para a invisibilidade enfrentada por mulheres lésbicas e bissexuais migrantes.
“Se não somos contadas, não somos consideradas. Se não aparecemos nas pesquisas, seguimos ausentes das políticas públicas”, afirmou, defendendo a produção de dados que permitam compreender melhor as realidades dessas populações.
A ativista também relacionou as pautas migratórias à justiça climática, racial e de gênero, reforçando que as diferentes formas de opressão estão interligadas.
Mães lésbicas e o direito de formar família
A caminhada também abriu espaço para discutir maternidade lésbica. Em um discurso emocionado, Marcela, mãe lésbica, relembrou os obstáculos enfrentados para constituir uma família.
“Quando eu decidi que a gente ia ter filho, que a gente ia construir uma família, a luta começou. A luta nunca acabou, a luta não vai acabar”, disse.
Sua fala foi recebida com aplausos e simbolizou uma das bandeiras históricas do movimento: o reconhecimento e a proteção das diversas configurações familiares.

Visibilidade para as mais velhas
A presença de mulheres lésbicas idosas também marcou a programação. Representando o coletivo Eternamente Soul LGBT+ 50+, Dora destacou a importância de envelhecer sem retornar ao silêncio imposto por décadas de discriminação.
“Não tenham medo de mostrar quem somos nós. Porque fizeram nós ficar caladas. E hoje eu não tenho mais medo”, afirmou.
O discurso emocionou participantes ao abordar o impacto da invisibilidade e da violência ao longo da vida de mulheres lésbicas mais velhas.
Comunicação, cultura e memória
A importância de produzir narrativas próprias também esteve entre os temas centrais da caminhada. Marê, da coletiva Comunica Sapatão, destacou o papel da comunicação lésbica na preservação da memória e no enfrentamento ao apagamento histórico.
“Por muito tempo falaram de nós sem nos ouvir falar, contaram nossas vidas sem nos ver viver”, afirmou.
Segundo ela, registrar histórias, experiências e conquistas é fundamental para garantir referências às próximas gerações de mulheres lésbicas e bissexuais.
Justiça por Luana e por todas
Ao final da caminhada, uma mensagem se repetia em cartazes, discursos e palavras de ordem: a exigência de justiça por Luana Barbosa.
A 24ª edição da Caminhada Lésbica reafirmou que a luta contra a lesbofobia, o racismo, a violência policial e a invisibilidade continua sendo urgente. Dez anos após a morte de Luana, milhares de mulheres ocuparam as ruas não apenas para homenagear sua memória, mas para afirmar que suas vidas importam e que nenhuma delas caminhará sozinha.
Além das falas políticas, a programação contou com apresentações culturais de artistas como Ellen Oléria, Luana Hansen e o cortejo do Ilú Obá de Min, reforçando a combinação entre resistência, celebração e construção coletiva que marca a história da Caminhada Lésbica em São Paulo




