Dia Mundial de Enfrentamento à Tuberculose: Infectologista Mateus Cardoso alerta para impacto da doença em pessoas vivendo com HIV   

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A tuberculose (TB) continua sendo uma das principais causas de morte entre pessoas vivendo com HIV. A relação entre as duas doenças é preocupante, já que o HIV enfraquece o sistema imunológico, tornando o organismo mais vulnerável à infecção pelo Mycobacterium tuberculosis. No Dia Mundial de Enfrentamento à Tuberculose, celebrado em 24 de março, especialistas reforçam a importância da prevenção e do diagnóstico precoce da infecção latente de tuberculose (ILTB), especialmente em populações mais vulneráveis.

A Agência Aids conversou com o infectologista Mateus Cardoso, médico do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT/Aids-SP), que destacou os desafios e avanços no combate à tuberculose no Brasil.

A tuberculose é considerada uma doença determinada socialmente, afetando desproporcionalmente populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua, imigrantes e trabalhadores com baixa renda. A pobreza, a falta de acesso à saúde e as condições precárias de moradia aumentam o risco de transmissão e dificultam o tratamento.

O Brasil segue as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para eliminação da tuberculose até 2030. No entanto, ainda enfrenta desafios como diagnóstico tardio, abandono do tratamento e resistência medicamentosa. Para vencer a tuberculose como problema de saúde pública, Dr. Mateus, que também trabalha com infectologista no Ambulatório de retenção e vinculação da AHF e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, reforça que é necessário investimento contínuo em políticas intersetoriais, ampliando o acesso ao diagnóstico precoce e garantindo suporte social para os mais afetados.

Confira a entrevista a seguir:

Agência Aids – O que é a Infecção Latente de Tuberculose (ILTB)? 

Dr. Mateus Cardoso: Chamamos de Infecção Latente de Tuberculose o estado clínico no qual o indivíduo está infectado pela bactéria da tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), mas o organismo não está apresentando sinais ou sintomas ativos da doença.  Nessa condição, as bactérias estão em um estado “adormecido” no corpo e o sistema imunológico do indivíduo as controla.

É importante deixar claro que pessoa com ILTB não é contagiosa, ou seja, não pode passar a doença para outras pessoas, uma confusão bastante comum no dia a dia.

No entanto, se o sistema imunológico enfraquecer no futuro, como pode acontecer em pessoas com HIV, diabéticos, ou em casos de uso de imunossupressores, a bactéria pode se tornar ativa e causar a tuberculose doença.

Agência Aids – Quem deve ser testado para ILTB?

Dr. Mateus Cardoso: Trata-se de importante estratégia de prevenção, principalmente para evitar que a infecção latente evolua para uma forma ativa da doença, especialmente em grupos de risco. Está recomendada para pessoas com maior risco de desenvolver a forma ativa da doença, como:

  • Indivíduos com contato próximo e prolongado com pessoas com tuberculose ativa.
  • Pessoas com sistema imunológico comprometido, como pessoas vivendo HIV com células de defesa (Linfócito T CD4 > 350), usuários de medicamentos imunossupressores, ou aqueles que passaram por transplantes de órgãos.
  • Indivíduos com histórico de doenças respiratórias crônicas, como doenças pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC) ou diabetes não controlada.
  • Trabalhadores da saúde, especialmente aqueles em ambientes de risco, como hospitais ou unidades de atendimento a pacientes com tuberculose.

Agência Aids – Como a ILTB é diagnosticada? 

Dr. Mateus Cardoso: O diagnóstico é feito por meio de dois principais testes imunológicos que detectam a exposição ao Mycobacterium tuberculosis, ajudando a identificar se a pessoa foi exposta à bactéria da tuberculose, mesmo que não tenha sintomas

  • Teste tuberculínico (PPD – Derivado Proteico Purificado): Um teste cutâneo onde uma pequena quantidade de antígeno de tuberculose é injetada na pele. A reação é medida após 48 a 72 horas. Uma reação positiva (pele inchada e vermelha) pode indicar infecção latente, ou seja o sistema imunológico reconheceu a bactéria, mas a pessoa não está doente e não pode espalhar a doença.
  • Testes de liberação de interferon-gama (IGRA): Esses testes, como o QuantiFERON®-TB Gold, medem a resposta imunológica a antígenos do Mycobacterium tuberculosis. Ao contrário do PPD, o IGRA não é influenciado por vacinas como a BCG, sendo mais específico para detectar a infecção por tuberculose.

A escolha entre os testes depende do contexto clínico e da disponibilidade de recursos.

Agência Aids – O IGRA é melhor que o PPD?

Dr. Mateus Cardoso: O teste IGRA tem algumas vantagens sobre o PPD, especialmente em determinados contextos:

  • Não é afetado pela vacinação com BCG (que pode interferir nos resultados do PPD), tornando-o mais confiável para indivíduos que receberam a vacina.
  • O PPD exige leitura do resultado após 48-72 horas, o que pode ser influenciado pela habilidade do profissional de saúde em interpretar a reação cutânea. Já o IGRA é um teste laboratorial com um resultado quantitativo, reduzindo erros de interpretação.
  • O IGRA tende a ter menos falsos positivos, especialmente em indivíduos que já foram vacinados com BCG ou expostos a micobactérias não tuberculosas.

No entanto, o IGRA pode ser mais caro e requer coleta de sangue, o que pode não ser viável em algumas situações. Além disso, ambos os testes têm limitações em relação à sensibilidade, especialmente em pessoas com sistemas imunológicos comprometidos.

Agência Aids – Pessoas vivendo com HIV devem sempre testar para ILTB? 

Dr. Mateus Cardoso: No Brasil, o rastreio da Infecção Latente de Tuberculose (ILTB) em pessoas vivendo com HIV é orientado por uma nota técnica do Ministério da Saúde, que recomenda com base nos níveis de CD4 e quadro clínico.

Indivíduos com CD4 < 350 células/mm³: após a exclusão de um quadro de doença ativa, passa a ser uma indicação do tratamento para Infecção Latente. Já o rastreio de forma rotineira acontece em todas as pessoas vivendo com HIV e com CD4 > 350 células/mm³. Pode ser feito ao diagnóstico de HIV e repetido anualmente em pacientes com CD4 > 350 células/mm³.

Agência Aids – Qual é a relação entre tuberculose e HIV?

Dr. Mateus Cardoso: A relação entre tuberculose e HIV é estreita, pois o HIV enfraquece o sistema imunológico, tornando o indivíduo mais vulnerável à infecção por Mycobacterium tuberculosis e à progressão da ILTB para tuberculose ativa. A Tuberculose é uma das principais causas de morte em pessoas com HIV. A coinfecção pode agravar o quadro clínico, dificultando o tratamento e aumentando a transmissão tanto do HIV quanto da tuberculose. O controle de ambas as condições de forma integrada é essencial para melhorar o prognóstico.

Agência Aids – E se o teste para ILTB for positivo?

Dr. Mateus Cardoso: Isso indica que a pessoa está infectada com o Mycobacterium tuberculosis, mas ainda não apresenta sintomas ou formas ativas da doença, portanto não está doente e não pode transmitir a doença para outras pessoas.

A pessoa deve ser encaminhada para avaliação clínica e para o início de um tratamento preventivo, o qual atualmente pode ser prescrito por médicos, enfermeiros e farmacêuticos.

Esse tratamento é muito importante, principalmente para pessoas com o sistema imunológico enfraquecido

Agência Aids – Qual é o tratamento disponível para ILTB? Ele está acessível no SUS?

Dr. Mateus Cardoso: A escolha do esquema de tratamento deve ser individualizada, levando em consideração a história clínica do paciente, incluindo comorbidades, uso de medicamentos concomitantes

Existem três esquemas de tratamento preventivo disponíveis no Brasil em 2025:

  • Esquema 1: Rifapentina + Isoniazida por 3 meses.
  • Esquema 2: Isoniazida por 6 meses a 9 meses.
  • Esquema 3: Rifampicina por 4 meses a 6 meses.

Estão todos disponíveis no SUS, e o tratamento preventivo é gratuito. O profissional vai te orientar sobre qual esquema é o mais indicado para o seu caso e sobre a duração do tratamento. A adesão ao tratamento é muito importante para garantir que a infecção não evolua para a tuberculose ativa.

Agência Aids – Pessoas vivendo com HIV/aids podem fazer o tratamento normalmente? 

Dr. Mateus Cardoso: O tratamento da Infecção Latente de Tuberculose em pessoas vivendo com HIV é uma estratégia essencial para reduzir a morbimortalidade associada à tuberculose e à coinfecção HIV-tuberculose. O tratamento preventivo reduz significativamente o risco de progressão para tuberculose ativa, melhora os resultados de saúde, e contribui para a prevenção da transmissão de Mycobacterium tuberculosis. Devido ao risco elevado e à possibilidade de rápida progressão da infecção latente para a doença ativa, a adesão ao tratamento e o rastreamento regular são fundamentais, especialmente em populações imunocomprometidas, como as que vivem com HIV.

Agência Aids – O tratamento para ILTB previne totalmente a tuberculose?

Dr. Mateus Cardoso: O tratamento da ILTB reduz substancialmente o risco de progressão para tuberculose ativa, com taxas de prevenção que variam entre 60% a 90% de redução na incidência de doença ativa, dependendo do regime de tratamento utilizado, mas não oferece uma prevenção absoluta. A terapia reduz a carga bacteriana latente e fortalece o sistema imunológico, mas a possibilidade de desenvolvimento da doença ativa ainda pode existir, especialmente em indivíduos com HIV ou outros fatores de risco. No entanto, com a adesão correta ao tratamento, o risco de tuberculose ativa é substancialmente diminuído.

Agência Aids – Quais fatores os médicos devem considerar ao tratar ILTB em pessoas vivendo com HIV?

Dr. Mateus Cardoso: O acompanhamento ambulatorial exige cuidados especiais e a consideração de múltiplos fatores que podem impactar diretamente a adesão e a eficácia do tratamento.

  • Interações Medicamentosas
  • Efeitos colaterais
  • Quantidade de comprimidos
  • A percepção do individuo quanto a tomar remédio para um quadro clínico assintomático por um período prolongado e o não entendimento da importância

Esses fatores são essenciais para garantir que o tratamento seja eficaz, seguro e, acima de tudo, que a pessoa tenha melhores chances de completar o regime de tratamento.

Agência Aids – O que mais é importante saber sobre ILTB? 

Dr. Mateus Cardoso: É importante entender que a ILTB é uma infecção silenciosa. A pessoa está infectada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, mas o organismo não apresenta sintomas da doença. O corpo “congela” a infecção no sistema, mantendo a bactéria no organismo de forma controlada.

Em áreas com alta prevalência de tuberculose ou em populações de risco (como pessoas vivendo com HIV), é recomendado o rastreamento regular, especialmente porque muitas pessoas não sabem que estão infectadas.

Se a infecção latente não for tratada, ela pode se reativar e causar tuberculose ativa, que pode ser transmitida para outras pessoas. O diagnóstico precoce e o tratamento preventivo são fundamentais para evitar a transmissão e as complicações.

Além disso, é essencial garantir a adesão ao tratamento, monitorando os efeitos colaterais e ajustando o regime terapêutico conforme necessário.

Agência Aids – Por que a tuberculose é considerada uma doença determinada socialmente?

Dr. Mateus Cardoso: A tuberculose é considerada uma doença determinada socialmente porque fatores como pobreza, falta de acesso a cuidados de saúde, condições de moradia inadequadas, desnutrição e desemprego aumentam o risco de contrair a doença e dificultam o tratamento. Além disso, afeta desproporcionalmente populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua, imigrantes, e aquelas com sistemas imunológicos comprometidos.

Estudos recentes produzidos mostraram os custos catastróficos – ônus financeiro para famílias, especialmente aquelas em situação de pobreza. O tratamento da tuberculose, embora necessário, como fator de empobrecimento adicional para quem já vive com dificuldades financeiras. Isso ocorre devido aos custos com medicamentos, transporte para consultas e, em muitos casos, a perda de renda pela incapacidade de trabalhar durante o tratamento relacionados e importante impacto nos programas de transferência de renda no país.

Agência Aids – O Brasil está no caminho certo para eliminar a TB como problema de saúde pública?

Dr. Mateus Cardoso: O Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido fundamental nesse processo, oferecendo gratuitamente o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes. Além disso, o Brasil segue recomendações internacionais para o combate à tuberculose, como a busca ativa de casos, o rastreamento de contatos e o uso de terapias mais eficazes.

O fortalecimento de políticas públicas, como as ações intersetoriais entre saúde, assistência social e educação, é um ponto positivo. Além disso, o Brasil tem aderido ao plano global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o fim da tuberculose até 2030, com objetivos claros de redução da incidência, da mortalidade e da resistência medicamentosa.

No entanto, ainda enfrentamos muitos desafios. A doença continua sendo um problema de saúde pública, com taxas de incidência relativamente altas, especialmente entre as populações mais vulneráveis. A falta de diagnóstico precoce, as dificuldades no seguimento do tratamento e a resistência ao tratamento são alguns dos obstáculos.

A multidisciplinaridade no tratamento e acompanhamento da tuberculose precisa ser fortalecida

Para que o Brasil consiga eliminar a tuberculose como problema de saúde pública, será necessário um esforço contínuo e abrangente. As políticas públicas precisam se concentrar mais nas determinantes sociais da saúde, além de fornecer acesso a tecnologias diagnósticas e educação continua a profissionais e comunitária.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Dr. Mateus Cardoso

E-mail: mateus.cardoso@crt.saude.gov.br

Instagram: @mateus.cardoso43

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