
Este sábado (1º) a 22ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais (Cis e Trans) de São Paulo marchou pelas ruas da cidade sob o tema “Pelo fim do Lesbocídio e Bifobia. Justiça por Carol e Luana” como uma denúncia sobre os crimes de ódio contra mulheres lésbicas e bissexuais, entre eles o assassinato de Carol Campelo, de 21 anos, morta no Maranhão que teve até a pele arrancada, e Luana Barbosa, assassinada por 3 policiais militares aos 31 anos.
A concentração aconteceu a partir das 13h na Praça da República, onde o trio elétrico foi o palco de discursos de ativistas dos direitos da comunidade LBT, entre elas as deputadas Érika Hilton e Carolina Iara, do PSOL. A caminhada, nascida em 2003, seguiu em cortejo pelo centro da cidade ao som do Bloco Siga Bem Caminhoneira até o Largo do Arouche.
Segundo Cinthia Abreu, militante do movimento de mulheres lésbicas há mais de 15 anos e uma das coordenadoras da manifestação, a Caminhada foi criada a partir das críticas da invisibilidade dentro da Parada SP para lésbicas e bissexuais e a ausência dessas pautas e bandeiras de luta. Ela alerta para o fato de que o ataque a mulheres lésbicas tem aumentado em larga escala no Brasil. “Isso acontece por causa da onda crescente da extrema direita. Precisamos dar visibilidade a esse casos e mostrar o quanto nós lésbicas e Bi sofremos violência com requinte de ódio”, ressalta.
Confira os depoimentos de participantes do evento.

Érika Hilton, deputada estadual: “Estar aqui é mostrar que todas as letras importam e que nós temos o papel de nos fortalecer. A luta de mulheres lésbicas e bissexuais têm uma particularidade diferente da luta de homens gays, de mulheres e homens trans, mas nós somos uma comunidade e a partir desse senso de coletividade que a gente se une, que a gente se fortalece. Estar aqui hoje é lembrar que mulheres lésbicas estão na linha de frente desde sempre no nosso movimento, que resistem, que existem e que precisam do nosso endosso, do nosso apoio, assim como o movimento trans precisa das mulheres lésbicas. Obviamente a gente sabe que existe uma parcela dentro dessa comunidade que ainda quer usar o movimento para atacar os direitos de pessoas e mulheres trans, portanto estar aqui hoje é dizer que não há espaço para essa cisão. Estamos do mesmo lado, estamos juntas, marchando contra o ódio, contra o lesbocídio, contra a bifobia, contra a homofobia, a transfobia e contra a violência que atinge a nossa comunidade.
Acho que as eleições deste ano trarão boas surpresas, mas também números muito tristes, porque a extrema direita está mobilizada pelo senso comum, se organiza nas comunidades terapêuticas e religiosas, e isso acaba movimentando um sentimento nas pessoas muito forte. Mas eu acho que as urnas já vêm mostrando que há espaço para a democracia, para a diversidade, para a pluralidade, para as pessoas que têm compromisso com pessoas, não com agendas de retrocesso, com agendas conservadoras. Nós, apesar de tudo que enfrentamos nos últimos anos para cá, nos fortalecemos enquanto movimento. Acho que quando ameaçam a nossa vida e ameaçam os nossos direitos, a gente se organiza, a gente se mobiliza e eu espero muito e tenho trabalhado para que nessas eleições a gente consiga tirar muitos bons frutos, até porque as eleições municipais serão um termômetro do que serão as eleições de 2026, e nós estamos numa guerra contra o ódio, numa guerra contra a intolerância, numa guerra contra o preconceito e contra o retrocesso. E é hora de mostrar a nossa força, a nossa união, e que nós temos sim pessoas capazes de ocupar espaços nos locais de poder e mudar a cara da política brasileira.”

Beatriz Cruz, artista multidisciplinar e idealizadora do Projeto Sapatrônica: “Eu acho que a caminhada lesbi é muito importante para a cidade, tem gente até que diz que é um patrimônio de São Paulo, porque de alguma maneira fala das nossas existências, da existência lésbica, das lesbianidades na sua forma mais ampla e isso é fundamental. Eu acho que esse tema é muito acertado, pois recentemente teve uma pesquisa do Instituto Polis que mostrou que as agressões e violências aqui em São Paulo cresceram contra LGBTs. Esses dois casos da Luana e Carol ficaram bastante conhecidos, mas tem uma série de outras violências que acontecem e que a gente não fica sabendo, não entram como estatística porque não é considerado lesbocídio, que é um crime de ódio, um crime que tem a ver com a nossa orientação sexual. Isso precisa ser falado, porque exige medidas e políticas públicas específicas. Não é simplesmente tratar tudo como um crime, como uma violência, como um homicídio ou como um feminicídio. Isso tem raiz no ódio, no lesbo-ódio. Então, precisamos falar sobre as nossas existências e sobre isso especificamente, porque isso impacta que política pública.”

Morim Lobato, artista visual: “É importante estar aqui porque é uma das caminhadas mais políticas que tem dentro dessa semana da diversidade. O ponto mais importante é que as mulheres, em todo o tempo da história, sempre foram muito apagadas, independentemente da sexualidade. Estar aqui é legitimar a história das mulheres. Eu sou uma pessoa não-binária e tenho um questionamento muito grande em relação a mim porque já me perguntaram várias vezes sobre ser um homem trans, mas eu nunca quis assumir esse posto ainda. Eu acho que nunca vou querer. Ser mulher é uma coisa tão potente, tão bonita, que eu quero estar sempre nesse lugar.”

Débora Dias, Co-vereadora do Quilombo Periférico: “O dia de hoje é para lembrar que infelizmente os nossos corpos ainda são alvo de mortes violentas. E quem está na linha de frente desse processo infelizmente ainda são as mulheres lésbicas que não performam aquilo que é esperado como feminilidade. Lésbicas desfem, negras, de periferia são os alvos constantes das violências lesbofóbicas. Nessa última quarta-feira, Jaqueline e Gilmara também foram assassinadas no Ceará porque estavam de mãos dadas andando na rua e foram executadas à luz do dia. A lesbofobia é uma questão extremamente concreta que vem atormentando paulatinamente as mulheres lésbicas e se a gente não tiver uma política pública que de fato consiga fazer com que o lesbocídio seja enfrentado, notícias como essa continuarão a acontecer. Botar esse bloco na rua hoje é fazer barulho sobre todas essas questões que nós como mulheres lésbicas e bissexuais vivenciamos, além de também celebrar a nossa vida porque eles querem nos matar, eles fazem de tudo para nos matar, mas a gente tem respondido com política pública. Tem um bonde na Câmara Municipal que organizou um protocolo de atendimento contra a lesbofobia. É fundamental. Esse bonde constrói política pública, bota o bloco na rua e também consegue construir felicidade, consegue construir festa, consegue celebrar. É isso que a gente está fazendo aqui hoje, é isso que a gente vai seguir fazendo. Importante dizer que em agosto tem a visibilidade lésbica e vai acontecer uma janela de atividades até o final de agosto, fortalecendo, conversando com grupos que são diferentes de mulheres lésbicas. Acho que é importante dizer que a idosidade é um tema importante para a lesbianidade e para a bissexualidade. A questão da moradia é importante para as mulheres lésbicas, além da política de drogas. Então, é fundamental colocar o bloco na rua, celebrar a felicidade e continuar construindo política pública que contenha as necessidades que precisamos”.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)



