19/09/2014 – 19h50
Betinho, na missa celebrada nessa sexta (19) pelos 20 anos do Cefran
Cuidar das pessoas vivendo com HIV levando em conta as três dimensões humanas – corpo, mente e espírito. Foi com esse pensamento que o frei Reynaldo Ungaretti, OFM fundou o Centro Franciscano de Luta Contra Aids (Cefran), em São Paulo. Era 3 de setembro de 1994 e, para marcar o início da entidade, ele celebrou uma linda missa em que distribuiu rosas vermelhas para todos os presentes, na igreja do Largo São Francisco.
Dois anos depois, frei Reynaldo morreu. Viveu pouco para ver o resultado de sua obra, mas os princípios que semeou até hoje são praticados. “Tantas pessoas já passaram pelo Cefran e ele mantém o mesmo espírito”, diz José Roberto (Betinho) Pereira, que estava ao lado do frei na inauguração e o ajudou a construir a obra.
“Depois daquela missa, entramos na sala que nos cederam no convento do Largo São Francisco, olhamos um para o outro e perguntamos: ‘Por onde começar?’ O frei disse: ‘Vamos começar varrendo’. E foi o que fizemos”, conta Betinho, hoje ativista do projeto Bem-Me-Quer e do Fórum de Ongs/Aids do estado de São Paulo (Foaesp).
Olhar para os pobres
Cuidar na perspectiva da assistência social sempre foi uma vocação do Cefran, que surgiu com o olhar voltado para as populações pobres vivendo com HIV. “Era a época mais dura da aids. O frei percebeu que a infecção aumentava entre os de mais baixa renda — as pessoas batiam à porta da igreja em busca de alimentos para saciar a fome. “As ONGs, nas quais militávamos, ofereciam vários tipos de assessoria, inclusive jurídica”, continua Betinho. “Mas não tinha uma com foco na perspectiva sócio-econômica. Frei Reynaldo teve a ideia e os frades o apoiaram.”
Compras no Mappin
Betinho e frei Reynado, depois de varrerem o chão, foram às compras. “Não tínhamos apoio, naquela época não existia financiamento para a aids. A gente fazia rifa, pedia doação para dioceses, para a província franciscana.”
Mas a falta de recursos não era empecilho. “Não é porque é para pobre que a ONG vai ser pobre. Eles merecem tudo da melhor qualidade, com o maior conforto.” Eram frases assim que Betinho ouvia do frei, durante as idas de ambos ao Mappin, na Rua Xavier de Toledo, para comprar móveis, tapetes, entre outros artigos. “A gente fazia carnê de prestações”, continua Betinho.
A obra cresceu rapidamente. Já nos primeiros tempos, desenvolvia um amplo trabalho multidisciplinar e transdisciplinar com psicoterapia, assistência social, massoterapia, cromoterapia, capacitação profissional, prevenção, geração de renda, trabalho na penitenciária, ativismo, grupos de autoajuda, entre outros.
“Quando frei Reynaldo morreu, acharam que ia fechar. Mas, que nada! No dia seguinte, estávamos lá, buscando novas alternativas para seguir em frente”, lembra Betinho.
Nova sede
Em 2001, o Cefran tinha mais de 500 pessoas cadastradas e não cabia mais nas sete salas de atendimento, capela e setor de armazenamento de produtos que ocupava nas dependências da igreja. “O frei Jurandir apoiou a compra do prédio de quatro andares no Belém (zona leste), onde o Cefran está até hoje. Em 2002, nos mudamos para lá, também com uito apoio do frei Mário, amigo pessoal do frei Reynaldo e grande incentivador do Cefran.”
A inauguração no novo endereço foi com outra missa, celebrada por Dom Paulo Evaristo Arns, ajudado por franciscanos que renovaram os votos e intenções do nascimento da obra, e com a presença de autoridades.
Hoje, ali no Belém, 95 pessoas, segundo a irmã Benedita de Fátima, contam com café da manhã, almoço e lanche da tarde todo dia. Há atividades como oficinas de bordado, pintura, bijuterias, retalhos, dança, ioga, atendimento psicológico, grupos de teatro e festas de confraternização.
O Cefran também promove ações de prevenção em metrôs, praças e parques, segundo a irmã Fátima. “E palestras, com apoio dos Programas de DST/Aids, visando a formação de agentes multiplicadores.”
“Atualmente, o Cefran coloca mais foco na perspectiva do protagonismo, porque a sociedade mudou e o perfil da doença também”, continua irmã Fátima. “Acreditamos que aqui seja um espaço de luta, de conquista de direitos.”
Veja, a seguir algumas fotos que relembram o surgimento do Cefran
.jpg)
À esquerda, a primeira equipe (frei Reynaldo está de pé, de camisa branca, ao aldo de Betinho)
Abaixo, a primeira convenção da ONG



