1º GT Unaids de 2025 destaca estigma e novas estratégias de medicamentos de longa duração na resposta ao HIV

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Na segunda-feira, 10 de junho, o Unaids promoveu a primeira edição de 2025 do Grupo Temático Ampliado (GT Unaids). Realizado virtualmente, o encontro reuniu agências, fundos e programas da ONU, sociedade civil, governo federal e representantes da academia.

A pauta principal foi a apresentação do Índice de Estigma 2024 e a articulação de estratégias intersetoriais para fortalecer a resposta ao HIV no país.

Estigma: barreira persistente ao cuidado

Durante a reunião, a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+ Brasil) apresentou os primeiros dados do Índice de Estigma 2024. A pesquisa revela que mais de 50% das pessoas vivendo com HIV relataram discriminação em algum momento da vida. Além disso, o medo de sofrer estigma segue como principal motivo para o adiamento na busca por diagnóstico e tratamento.

“O Índice de Estigma mostra o que vivemos todos os dias. Pessoas com HIV têm fome, e não apenas de comida, mas de remédios, acesso e de políticas públicas que nos respeitem. Estamos morrendo por falta de tudo isso, a gente precisa de resposta agora”, afirmou João Cavalcante, representante da RNP+ Brasil.

As populações trans e de profissionais do sexo foram destacadas como grupos especialmente impactados. Os dados reforçam a necessidade de políticas públicas que promovam acesso digno, respeito e empatia.

Entre as falas de abertura do GT, Florbela Fernandes, diretora e representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil, organização que assumiu a coliderança do GT Unaids em 2025, enfatizou o papel do UNFPA na promoção da saúde sexual e reprodutiva, a igualdade de género, o protagonismo juvenil.

“O UNFPA se soma a este GT para escutar, para propor e para atuar em conjunto com as diversas vozes que constroem a resposta no Brasil. O Índice de Estigma nos traz dados, que é uma importante ferramenta para visibilizar a história de muitas pessoas vivendo com HIV e AIDS no Brasil. Precisamos de uma resposta que seja informada por dados”, destacou.

Brasil Saudável e a força da intersetorialidade

Arthur Kalichman, diretor substituto do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi), apresentou os avanços do programa Brasil Saudável. A iniciativa tem como meta a eliminação de doenças socialmente determinadas, como o HIV, até 2030. Para isso, aposta em uma grande articulação com foco na redução das desigualdades e barreiras de acesso.

Como parte das ações do Brasil Saudável, informou que o país solicitou a certificação do Brasil da eliminação da transmissão vertical do HIV. Agora, trabalha para garantir que todas as pessoas tenham acesso pleno às tecnologias disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).

“A principal barreira é o não acesso das pessoas as novas e as já existentes tecnologias de prevenção e tratamento disponíveis no SUS, e isso é uma realidade devido as desigualdades sociais e o estigma que ainda persistem no país. O Brasil Saudável é uma chance concreta de superá-las”, destacou Arthur Kalichman.

Juventudes e população trans: protagonismo em evidência

As redes da sociedade civil também trouxeram propostas concretas. A Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV (RNAJVHA) defendeu a articulação entre o Índice de Estigma, o estudo “Nós Somos a Resposta” e o Brasil Saudável como base para uma política nacional de resposta ao estigma.

“Uma política nacional de enfrentamento ao estigma deve ser a base, sempre com foco nos determinantes sociais e com protagonismo real das juventudes, porque não há resposta possível sem a nossa presença. E não há presença legítima, sem voz, sem escuta e sem redistribuição de poder. Nós somos a resposta, não como metáfora, mas como uma prática política”, afirmou Katiana Rodrigues, representante da RNAJVHA.

A Rede Nacional de Travestis e Transexuais com HIV (RNTTHP) apresentou o guia de saúde elaborado por e para pessoas trans. A publicação traz dados e vivências que ampliam o entendimento sobre os impactos da discriminação no acesso aos serviços de saúde.

“Nosso corpo ainda causa rebuliço nas unidades de saúde. A resposta tem que vir da escuta de quem vive essa realidade”, destacou Cléo Araújo, representante da RNTTHP.

O Movimento Nacional das Cidadãs Poshitivas (MNCP) reforçou a importância de investir em ações de base. “Ninguém faz nada com boa vontade se não tiver investimento. Se não tiver orçamento ou abertura de editais para que possamos fazer o trabalho de base nos nossos territórios, o trabalho necessário não será feito”, defendeu SIlvia Almeida, que representou a MNCP na reunião.

Já a Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids) chamou atenção para a continuidade do enfrentamento político. “Nas favelas, o estigma vem tanto da comunidade quanto dos serviços de saúde. Precisamos de ações construídas com a população local, com foco em formação, escuta e fortalecimento das lideranças de mulheres negras e pessoas trans vivendo com HIV”, destacou Cleide Jane.

Evalcilene Santos, representante da Coalizão + Brasil no GT, celebrou as falas de todas as organizações participantes e lembrou da importância da redução de danos na vida das pessoas que vivem com HIV.

“Agradeço pelo espaço de fala e celebro a vida de todas as pessoas que vivem com comorbidades e outras questões sociais importantes. Porém, não se fala mais sobre redução de danos, que foi uma estratégia que já salvou muitas vidas. Essa é uma pauta importante para a Coalizão, pois nossa missão é cuidar das pessoas”, finalizou.

Compromisso coletivo

Na abertura da reunião, Andrea Boccardi Vidarte, diretora e representante do Unaids no Brasil, reforçou o papel articulador do Brasil.

“Vamos continuar reunindo as contribuições das embaixadas, das parcerias e, especialmente, da sociedade civil. O Brasil Saudável está em fase de implementação, e queremos identificar, junto às redes, necessidades concretas nos territórios”, disse Boccardi. “Precisamos entender aonde queremos chegar. Por isso, vamos promover encontros diretos entre as redes e as coordenações ministeriais, fortalecendo um trabalho conjunto e articulado com base nas mensagens potentes que vocês trouxeram hoje”, finaliza.

Por fim, a reunião evidenciou a urgência de fortalecer a formação de profissionais de saúde, criar mecanismos para se contrapor ao estigma, inclusive institucional, e garantir orçamento para ações de base. O GT Unaids reforça, mais uma vez, seu compromisso com uma resposta ao HIV baseada em evidências, escuta ativa e respeito à diversidade.

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