
A sífilis é uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais antigas da história, mas continua sendo um problema de saúde pública de grandes proporções no Brasil. Apesar de existir diagnóstico rápido, tratamento eficaz e cura garantida com penicilina, os casos seguem em alta, sobretudo entre mulheres negras, gestantes, pessoas em situação de rua e populações em maior vulnerabilidade social.
Esse cenário foi debatido no 13º Encontro de Relações Humanas em HIV/Aids, promovido pelo Instituto Vida Nova, que este ano trouxe como tema “Prevenção da Sífilis: Conhecimento e Ação”. A palestra central foi conduzida pela enfermeira Katherine Jeronimo Lima, da Coordenação Geral de Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde.
O que é a sífilis?
Causada pela bactéria Treponema pallidum, a sífilis é transmitida principalmente por via sexual e da mãe para o bebê durante a gestação (sífilis congênita). Essa última forma é a mais grave do ponto de vista de saúde pública, pois pode causar aborto, malformações ou morte neonatal.
Apesar da gravidade, a sífilis é de fácil diagnóstico — testes rápidos estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) — e tem tratamento gratuito e curativo. Ainda assim, o Brasil convive com índices alarmantes, especialmente em relação à sífilis congênita.
Determinantes sociais: muito além da biologia
Em sua fala, Katherine destacou que compreender a sífilis exige olhar para os determinantes sociais da saúde, conceito defendido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que engloba fatores sociais, econômicos, culturais, políticos e ambientais que afetam diretamente a vida e a saúde das pessoas.
“O lugar onde você vive vai fazer muita diferença no sentido de você ter ou não acesso à saúde. No Brasil, saúde é um direito, mas na prática a gente ainda vê muitos obstáculos. Fatores socioeconômicos, tipo de governança, distribuição de recursos, tudo isso influencia”, afirmou.
Ela exemplificou essas desigualdades com situações do cotidiano:
“Pensem em um jovem da periferia de São Paulo e em outro jovem de classe alta. As condições para chegar à universidade são completamente diferentes. O mesmo acontece no acesso à saúde. Uma mulher negra em situação de rua, uma mulher trans com deficiência física em situação de rua — imaginem a marginalidade em que essas pessoas se encontram.”
Esses marcadores sociais — raça, classe, gênero, orientação sexual, condição de moradia — não só aumentam a vulnerabilidade à sífilis, como também dificultam o diagnóstico e o tratamento.
Mulheres no centro da epidemia

Um dos pontos mais preocupantes é o impacto da sífilis sobre as mulheres. A palestrante lembrou que muitas vezes as mulheres não conseguem negociar o uso do preservativo dentro de relações estáveis, o que as deixa expostas à infecção.
“Existe uma crença de que o amor, em uma relação estável, protege. Muitas mulheres em relações fixas não usam preservativos. Além disso, muitas não conseguem negociar o uso, porque esse papel ainda é visto como inferior”, disse Katherine.
O resultado aparece nos números: 46% dos casos de sífilis congênita poderiam ser evitados com melhor assistência pré-natal. Para Katherine, isso evidencia como desigualdades estruturais, raciais e de gênero se traduzem em vidas perdidas:
“Quando falamos de iniquidades, falamos de situações injustas e evitáveis. A primeira morte por covid-19 no Brasil foi de uma trabalhadora doméstica, mulher negra, que não teve acesso à mesma proteção que sua empregadora. O mesmo raciocínio se aplica à sífilis: quem está mais vulnerável, mais pobre, mais excluído, vai ser a população mais atingida.”
Acesso que não chega a todos
Apesar da existência de protocolos definidos para prevenção e tratamento da sífilis, o acesso nem sempre é garantido. Katherine relatou exemplos de barreiras enfrentadas por pessoas em territórios periféricos ou em situação de rua:
“Ainda vemos gestantes diagnosticadas apenas no momento do parto, indígenas sem acesso ao pré-natal, mulheres em situação de rua sem condições de chegar a um posto de saúde. Isso não é falta de remédio, é falta de acesso e acolhimento”, afirmou.
Ela citou ainda casos de mulheres que, mesmo diagnosticadas, não conseguem dar continuidade ao tratamento por questões sociais e econômicas — como a dependência do parceiro, a dificuldade de transporte ou o estigma nos serviços de saúde.
Dados que falam

O boletim epidemiológico do Ministério da Saúde tem mostrado o peso das desigualdades sociais na epidemia de sífilis. Mulheres negras, indígenas, pessoas trans e em situação de rua aparecem com os maiores índices de infecção.
Segundo Katherine, os dados não devem ser apenas números, mas instrumentos para ação:
“Dado é poder. O que eu faço com esse dado? Ele vai direcionar as minhas estratégias. Se sei onde estão as populações mais atingidas, preciso levar até elas campanhas, diagnóstico, tratamento e acolhimento.”
Prevenção, visibilidade e justiça social
A palestrante concluiu sua fala reforçando que o enfrentamento à sífilis depende de muito mais do que campanhas de prevenção. É preciso encarar a doença como resultado de desigualdades históricas e sociais.
“Quando pensamos em quem sofre mais com a sífilis, vemos que são as populações mais vulnerabilizadas. Então, falar de prevenção é também falar de justiça social, de acesso a direitos, de equidade”, destacou.
O enfrentamento à sífilis congênita é hoje uma das principais metas do Ministério da Saúde. O órgão estabeleceu o compromisso de eliminar a transmissão vertical da doença até 2030 e, para isso, lançou a certificação de municípios e estados que adotam boas práticas de prevenção, diagnóstico e tratamento.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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