A construção de novas ferramentas de comunicação para o enfrentamento da sífilis foi tema central do workshop “Produção de Conteúdo para a Criação da Mandala de Prevenção da Sífilis”, realizado durante o 13º Encontro de Relações Humanas em HIV/Aids, promovido pelo Instituto Vida Nova em São Paulo.
Inspirada na já consolidada Mandala de Prevenção do HIV, a proposta é desenvolver um recurso educativo que reúna, de forma integrada e visual, as múltiplas estratégias de prevenção da sífilis, articulando informação, cuidado e acesso.
Comunicação estratégica para prevenir
A jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids, destacou que falar de sífilis exige uma abordagem inovadora e acessível:
“Se a informação não chega antes, a sífilis chega primeiro. Precisamos comunicar prevenção de forma lúdica, clara e nas plataformas onde as pessoas estão, como o TikTok e o Instagram. O desafio é tornar o tema próximo, leve e possível.”

Para Edmar Borges Ribeiro, técnico de comunicação da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo, a experiência mostra que adaptar a linguagem ao público é decisivo:
“A comunicação não pode ser única. Cada público demanda estratégias próprias. A rede social é um espaço fundamental para quebrar barreiras, reduzir estigmas e levar informação sobre testagem, tratamento e direitos.”
A Mandala e a prevenção combinada
A Mandala deve reunir os princípios da prevenção combinada, isso inclui desde intervenções biomédicas (como testagem rápida e tratamento imediato), até ações comportamentais (educação em saúde sexual, incentivo ao uso de preservativos) e estruturais (redução do estigma, combate à discriminação e ampliação do acesso aos serviços de saúde).

Entre os eixos apontados pelos especialistas para compor a mandala estão:
* Testagem ampliada: autoteste e testagem rápida em serviços e em populações-chave;
* Tratamento imediato: garantia de acesso ao tratamento para a pessoa diagnosticada e seus parceiros;
* Prevenção da transmissão vertical: fortalecimento do pré-natal para impedir novos casos de sífilis congênita;
* Uso de preservativos e insumos: preservativo interno, externo e gel lubrificante;
* Educação sexual e em gênero: especialmente nas escolas e junto à população jovem;
* Redução de barreiras de acesso: horários ampliados, acolhimento humanizado e respeito ao nome social;
* Busca ativa de casos: estratégias comunitárias, inclusive em contextos de vulnerabilidade, como população em situação de rua e pessoas privadas de liberdade;
* Redução de danos.
O papel das mídias sociais
Gugãa Thaylor, especialista em mídias sociais e ativista vivendo com HIV, reforçou que a internet é um espaço estratégico para alcançar públicos que ainda desconhecem os riscos e formas de prevenção:
“Muita gente nem sabe que a sífilis existe ou que pode ser transmitida. Por isso, precisamos de conteúdos criativos, pensados com estratégia e linguagem adequada. As redes sociais podem transformar informação em ação.”
Acolhimento e direitos
Para Beto de Jesus, da AHF Brasil, é fundamental que a Mandala também traga o componente do acolhimento e da garantia de direitos:
“Não basta testar e tratar. É preciso assegurar que a pessoa se sinta respeitada, que não sofra preconceito e que encontre nos serviços de saúde acolhimento e continuidade do cuidado. Se o paciente é maltratado, ele não volta.”
O presidente do Instituto Vida Nova, Américo Nunes Neto, lembrou que a Mandala será mais do que um material gráfico:
“A ideia é que ela se torne um guia de ação coletiva, capaz de dialogar com profissionais de saúde, ativistas, gestores e principalmente com a população. Um recurso que oriente práticas, amplie a informação e fortaleça o enfrentamento da sífilis.”
Próximos passos
O Instituto Vida Nova irá consolidar as contribuições do debate para produzir a primeira versão da Mandala de Prevenção da Sífilis. O material deverá ser disponibilizado tanto em formato digital, para redes sociais, quanto em versões impressas, visando alcançar populações com menor acesso à internet.
A expectativa é que a Mandala ajude a integrar esforços e a dar visibilidade a uma epidemia ainda negligenciada. Como sintetizou Roseli Tardelli:
“Se conseguimos transformar a prevenção do HIV em uma linguagem viva e colorida, também podemos fazer isso com a sífilis. O que não podemos é aceitar que, em 2025, crianças ainda nasçam com sífilis congênita no Brasil.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
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