Novo relatório da UNAIDS mostra que o mundo tem ferramentas para acabar com a epidemia, mas a redução do financiamento, as desigualdades e os retrocessos nos direitos humanos colocam a meta de 2030 em risco.
A resposta global ao HIV vive um paradoxo histórico. Ao mesmo tempo em que a ciência oferece ferramentas capazes de tornar possível o fim da AIDS como ameaça à saúde pública, cortes sem precedentes no financiamento internacional colocam em risco décadas de avanços conquistados. Esse foi o principal alerta do novo relatório “United to End AIDS”, lançado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) na 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.
Durante a coletiva de imprensa de abertura da conferência, a diretora executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, afirmou que o documento conta “duas histórias”: uma de extraordinário progresso científico e outra de retrocessos provocados pela redução do financiamento, pelo aumento das desigualdades e pelos ataques aos direitos humanos.
“O fim da AIDS não está mais limitado pela ciência. Está limitado pela desigualdade e pelas escolhas políticas”, afirmou.
Progresso existe, mas está ameaçado
De acordo com o relatório, desde o pico da epidemia as novas infecções por HIV diminuíram 65% e as mortes relacionadas à AIDS caíram 73%. Atualmente, 32,1 milhões de pessoas recebem tratamento antirretroviral em todo o mundo — o maior número já registrado.
Mesmo assim, os números permanecem preocupantes. Em 2025:
- 1,2 milhão de pessoas adquiriram HIV;
- 570 mil morreram por doenças relacionadas à AIDS;
- 8,9 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda estavam sem acesso ao tratamento;
- quase 45% das crianças vivendo com HIV continuavam sem terapia antirretroviral.
O documento reforça que o mundo segue fora da trajetória necessária para atingir a meta de eliminar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030. Em 2025 houve cerca de um milhão de novas infecções e 400 mil mortes relacionadas à AIDS a mais do que seria esperado caso o planeta estivesse no caminho para cumprir os objetivos globais.
Corte de recursos é o maior já registrado
O relatório aponta que 2025 marcou uma ruptura sem precedentes no financiamento da resposta ao HIV.
Na abertura da conferência, a presidente da IAS, Dra. Beatriz Grinsztejn, destacou que análises da UNAIDS e da KFF mostram que o financiamento dos governos doadores para países de baixa e média renda caiu 25% em 2025 — a maior redução anual desde que esse tipo de monitoramento começou.
Segundo Winnie Byanyima, essa crise já produz efeitos concretos:
- organizações comunitárias estão fechando;
- programas de prevenção estão sendo reduzidos;
- profissionais de saúde estão perdendo seus empregos;
- pessoas já começam a perder acesso aos serviços de cuidado.
“Quando a prevenção desaparece, as infecções aumentam. Quando o tratamento é interrompido, as pessoas morrem”, afirmou.
O relatório estima que, em 2025, havia US$ 17,6 bilhões disponíveis para a resposta ao HIV em países de baixa e média renda — valor US$ 4,3 bilhões inferior ao necessário para atingir as metas de 2030.
Ciência avança rapidamente
Apesar do cenário preocupante, o UNAIDS destaca que a ciência nunca esteve tão próxima de transformar o controle da epidemia.
Entre os principais avanços estão as tecnologias de prevenção de longa duração, como comprimidos mensais e injeções semestrais de PrEP, capazes de oferecer proteção prolongada contra o HIV.
Segundo Byanyima, aproximadamente 20 milhões de pessoas precisam ter acesso a essas novas tecnologias para alterar significativamente o curso da epidemia mundial. Para isso, será necessário ampliar o licenciamento voluntário, produção de medicamentos genéricos, transferência de tecnologia e redução de preços.
Direitos humanos continuam no centro da resposta
Outro ponto de destaque do relatório é o retrocesso observado nos direitos humanos.
Pela primeira vez desde que o UNAIDS começou a monitorar os ambientes legais, aumentou o número de países que criminalizam populações-chave e restringem direitos.
De acordo com o documento apresentado durante a coletiva:
- 66 países criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo;
- 168 criminalizam aspectos do trabalho sexual;
- 152 criminalizam o uso de drogas;
- 14 criminalizam pessoas trans;
- 50 países exigem consentimento dos pais para que adolescentes tenham acesso aos serviços relacionados ao HIV;
- 159 países restringem o espaço de atuação da sociedade civil.
“O HIV se espalha quando os direitos são negados. Direitos humanos não são separados da resposta ao HIV; eles são a própria resposta ao HIV”, afirmou Byanyima.
Brasil é citado como exemplo
Durante a coletiva, a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Dra. Mariângela Simão, destacou conquistas recentes do Brasil.
Ela lembrou que o país foi certificado pela Organização Mundial da Saúde pela eliminação da transmissão vertical do HIV e informou que, pela primeira vez em muitos anos, houve redução consistente da mortalidade relacionada ao HIV.
Segundo a secretária, entre 2014 e 2024 a mortalidade caiu 20%, representando cerca de 1.300 mortes a menos em comparação ao ano anterior. Ela ressaltou, entretanto, que ainda existem desafios importantes relacionados à sustentabilidade do financiamento, ao combate à desinformação e ao acesso equitativo às novas tecnologias.
O relatório também cita o Brasil como um dos países que ampliaram o acesso à PrEP mesmo em um cenário de retração global dos investimentos, passando de aproximadamente 165 mil para 233 mil pessoas utilizando a profilaxia pré-exposição entre 2024 e 2025 — aumento de 41%.
Escolha política
O UNAIDS conclui que acabar com a AIDS até 2030 continua sendo possível, desde que os governos mantenham os investimentos, fortaleçam os sistemas de saúde, garantam acesso às novas tecnologias e preservem os direitos humanos.
Na avaliação da agência, a ciência já demonstrou que a epidemia pode ser controlada. O que falta agora é vontade política.
“O mundo está numa encruzilhada. A pergunta não é mais se podemos acabar com a AIDS. A pergunta é se escolhemos acabar com a AIDS”, resumiu Winnie Byanyima durante o lançamento do relatório.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



