Por que os avanços contra o HIV ainda não chegam a todos? Especialistas apontam os caminhos para transformar ciência em acesso

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Da comunicação nas redes sociais às parcerias comunitárias e à reorganização dos serviços de saúde, especialistas reunidos no AIDS 2026 discutiram como fazer com que as inovações científicas alcancem, de fato, as populações mais afetadas pela epidemia.

Da comunicação nas redes sociais às parcerias comunitárias e à reorganização dos serviços de saúde, especialistas reunidos no AIDS 2026 discutiram como fazer com que as inovações científicas alcancem, de fato, as populações mais afetadas pela epidemia.

Durante décadas, a resposta global ao HIV foi impulsionada por descobertas capazes de transformar o curso da epidemia. A terapia antirretroviral, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), os testes rápidos e, mais recentemente, os medicamentos de longa duração mudaram o cenário da prevenção e do tratamento. Mas, diante desse novo momento, especialistas reunidos na sessão Traduzindo a ciência em ações sustentáveis: Parcerias inovadoras que funcionam, durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), defenderam que o maior desafio já não é produzir conhecimento científico, e sim garantir que ele chegue às pessoas que mais precisam.

Ao longo do debate, pesquisadores, gestores e representantes de organizações internacionais reforçaram que inovação, por si só, não encerra uma epidemia. Para que os avanços científicos se traduzam em impacto na saúde pública, é preciso investir em políticas públicas, comunicação acessível, participação comunitária e modelos de implementação capazes de reduzir desigualdades históricas no acesso aos serviços.

Logo na abertura da sessão, o diretor executivo da Unitaid, Philippe Duneton, lembrou que a história da resposta ao HIV mostra que descobertas científicas só transformam realidades quando caminham lado a lado com vontade política e capacidade de implementação.

Ao recordar a expansão mundial do tratamento antirretroviral, destacou que o desafio nunca foi apenas comprovar a eficácia de uma tecnologia, mas criar condições para que ela chegasse aos países e às populações que mais necessitavam dela.

Segundo Duneton, essa lógica permanece atual diante das novas tecnologias de prevenção e tratamento. “Inovação sem acesso gera injustiça.”

O diretor também chamou atenção para o papel central das comunidades na construção das respostas ao HIV. Experiências acumuladas nas últimas décadas, afirmou, mostram que intervenções desenvolvidas sem diálogo com quem vive a epidemia tendem a produzir menos impacto e menor sustentabilidade.

Como exemplo, citou a expansão do autoteste para HIV, inicialmente recebida com desconfiança por parte de profissionais de saúde, mas que acabou alcançando populações que jamais haviam realizado um teste. Para ele, o sucesso da estratégia demonstrou que ampliar o acesso exige novas formas de comunicação e confiança na autonomia das pessoas.

Comunicação também salva vidas

A necessidade de aproximar a ciência do cotidiano apareceu de forma prática na apresentação do médico e comunicador Vinicius Borges, criador do canal Doutor Maravilha.

Segundo ele, o ambiente digital tornou-se um espaço estratégico para enfrentar a desinformação sobre HIV e saúde sexual, especialmente em um cenário marcado pela circulação de conteúdos falsos nas redes sociais.

Para isso, explicou, utiliza memes, referências da cultura pop e uma linguagem acessível para traduzir informações científicas sem abrir mão do rigor técnico.

Na experiência do médico, porém, o público raramente busca respostas apenas sobre medicamentos ou exames. As dúvidas mais frequentes envolvem sexualidade, relacionamentos, envelhecimento, qualidade de vida e culpa.

“Achamos que as pessoas vão perguntar sobre CD4 ou sobre medicamentos. Mas elas querem saber se podem viver relacionamentos, envelhecer bem, sentir prazer e construir uma vida sem medo”, resumiu.

Borges defendeu que profissionais de saúde ocupem os espaços digitais justamente porque é nesses ambientes que a desinformação circula com mais intensidade.

Ao comentar a resistência que ainda existe em torno de temas como PrEP, sexo sem preservativo e o conceito de Indetectável=Intransmissível (I=I), afirmou que o enfrentamento não deve ocorrer por meio do julgamento moral, mas da construção de confiança.

“As pessoas se protegem melhor quando se sentem respeitadas do que quando se sentem julgadas.”

Além da atuação nas redes sociais, destacou a importância das parcerias com organizações da sociedade civil, serviços voltados para pessoas trans, eventos comunitários e iniciativas de educação sexual para ampliar o alcance das informações e fortalecer a prevenção.

Planejar o acesso antes da aprovação dos medicamentos

A implementação das novas tecnologias também esteve no centro da apresentação do representante da Fundação Gates, Max Lataillade.

Segundo ele, a chegada dos medicamentos de longa duração representa uma oportunidade inédita para acelerar o controle da epidemia, mas o sucesso dependerá da forma como esses produtos forem incorporados aos sistemas de saúde.

Para o pesquisador, um dos principais erros históricos foi começar a discutir o acesso apenas depois que os medicamentos já estavam aprovados.

A proposta defendida pela fundação é inverter essa lógica: planejar estratégias de acesso global ainda durante os ensaios clínicos, envolvendo governos, pesquisadores, fabricantes, produtores de medicamentos genéricos e organizações comunitárias antes mesmo da conclusão da fase 3 dos estudos.

Essa antecipação, afirmou, pode reduzir o intervalo entre a aprovação regulatória e a disponibilidade dos medicamentos nos países de baixa e média renda, diminuindo desigualdades que historicamente marcaram a resposta global ao HIV.

Lataillade também defendeu que prevenção, profilaxia pós-exposição (PEP) e tratamento deixem de ser pensados separadamente e passem a integrar uma mesma estratégia de enfrentamento da epidemia.

Reduzir barreiras amplia o acesso

O pesquisador Caley Shukalek apresentou a experiência de um modelo de atendimento virtual para prevenção do HIV desenvolvido no Canadá e nos Estados Unidos.

A iniciativa nasceu de uma constatação simples: mesmo sendo médico especializado em HIV, encontrar serviços de PrEP ainda era um desafio. Se isso acontecia com um profissional da área, observou, a dificuldade era ainda maior para a população em geral.

O modelo utiliza telemedicina, exames laboratoriais descentralizados, comunicação digital e acompanhamento remoto para simplificar o acesso à prevenção.

Segundo Shukalek, a proposta não é substituir os serviços tradicionais, mas eliminar barreiras burocráticas que afastam usuários do sistema de saúde.

Outro aspecto destacado foi o investimento permanente na comunicação com os usuários. Iniciar a PrEP, explicou, representa apenas uma etapa do processo. Garantir a permanência no cuidado exige acompanhamento contínuo, diálogo e estratégias capazes de manter as pessoas vinculadas ao serviço.

A experiência também mostrou que parcerias entre universidades, organizações comunitárias e órgãos públicos permitem adaptar rapidamente campanhas de saúde e compartilhar dados que fortalecem políticas públicas.

Quando a inovação não chega à ponta

Encerrando o painel, Agnes Ronan levou o debate para a realidade dos serviços de saúde em países da África Subsaariana.

Apesar dos avanços científicos e dos compromissos internacionais para eliminar a aids como problema de saúde pública, ela alertou que milhões de pessoas continuam sem acesso às tecnologias já disponíveis.

Segundo a pesquisadora, há um contraste evidente entre o cenário global — marcado pelo surgimento de novas ferramentas de prevenção e tratamento — e a realidade da linha de frente, onde profissionais convivem com limitações estruturais, falta de apoio técnico, dificuldades logísticas e demora na incorporação das novas recomendações.

Ronan observou que muitas inovações são desenvolvidas e testadas com sucesso, mas acabam sendo implementadas de forma isolada, sem mecanismos capazes de sustentá-las em larga escala.

Ela explicou que, após a publicação das recomendações internacionais, ainda existe um longo percurso até que essas políticas sejam adaptadas pelos governos, incorporadas aos sistemas nacionais de saúde e, finalmente, alcancem profissionais e usuários.

Nesse caminho, afirmou, surgem atrasos que comprometem a expansão das tecnologias justamente onde elas são mais necessárias.

Para a pesquisadora, fortalecer os sistemas de implementação tornou-se tão importante quanto produzir novas evidências científicas.

Ela defendeu ainda que o fluxo de conhecimento deixe de seguir apenas das instâncias internacionais para os serviços de saúde e passe também a incorporar o retorno das comunidades e dos profissionais que atuam diariamente na linha de frente. Esse movimento, concluiu, permitirá aperfeiçoar continuamente as políticas públicas a partir da realidade dos territórios.

O debate terminou com uma mensagem comum a todos os participantes: o futuro da resposta ao HIV dependerá menos da capacidade de produzir novas tecnologias e cada vez mais da habilidade de transformá-las em acesso, cuidado e equidade. Afinal, quando a ciência não consegue atravessar as barreiras sociais, econômicas e estruturais, seus benefícios permanecem restritos a poucos, e a promessa de controlar a epidemia continua distante justamente para quem mais precisa dela.

Bárbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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