
Sexo e substâncias. Quando esses dois elementos se encontram de maneira intencional, falamos de Chemsex — também conhecido nos aplicativos como sexo aditivado —, uma prática que envolve o uso de drogas para potencializar o prazer sexual, especialmente em contextos urbanos e entre populações em situação de vulnerabilidade, incluindo pessoas LGBTQIA+. O tema foi o centro das discussões do encontro realizado nesta sexta-feira (25) no Centro de Referência e Treinamento (CRT) DST/Aids de São Paulo, com foco na redução de danos e nas estratégias de eliminação do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Sob o título “Fortalecendo as Estratégias da Redução de Danos para Eliminação do HIV e outras IST em São Paulo”, o evento reuniu profissionais da saúde, gestores públicos, sociedade civil e especialistas, que discutiram formas mais eficazes de acolher, escutar e cuidar de pessoas que vivem a experiência do Chemsex, muitas vezes atravessadas por vulnerabilidades sociais e estigmas. A atividade foi organizada como parte do Projeto ResPire, da ONG É de Lei, referência nacional em ações de redução de danos (RD), em parceria com o Unaids Brasil e o CRT.

Durante a abertura, Alexandre Gonçalves, diretor técnico do CRT da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, destacou a importância da construção coletiva e da escuta sobre as necessidades dos territórios. “O Chemsex não é uma novidade, mas seguimos buscando formas mais eficazes de acolher e cuidar dessa população. Nosso desafio é pensar nos insumos necessários, nas estratégias possíveis e como o Estado de São Paulo pode agir de maneira mais integrada. Sabemos que saúde não se faz só com a Secretaria da Saúde. A resposta à aids já nos ensinou isso. Precisamos ampliar parcerias e pensar grande, com todos os setores juntos por um cuidado real e eficaz.”
Carina Bernardes, do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde (Dathi) também participou da abertura e reforçou o interesse do governo federal em se aproximar das experiências dos territórios. “A questão da redução de danos é um tema sensível para a gente. O Chemsex ainda é relativamente novo na discussão do governo federal, mas temos tido diálogos importantes. Eu acho que hoje estamos aqui para escutar as experiências de São Paulo, que é o epicentro do tema e onde de fato tem sido feito algo no território. Queremos pensar como o Ministério pode atuar mais próximo, proporcionar insumos, pensar ações, estratégias e políticas públicas. É uma oportunidade para refletir e nos aproximarmos mais dos territórios.”

A diretora do Unaids Brasil, Andrea Boccardi Vidarte, reforçou o papel da escuta e do respeito às vulnerabilidades:
“Em 2024, o Unaids se comprometeu a promover a saúde comunitária e aprofundar o diálogo sobre a redução de danos. A prática do Chemsex exige respostas coordenadas, empáticas e baseadas em evidências. Dados recentes mostram que mais de 20% das pessoas que usam drogas evitaram os serviços de saúde por conta do estigma e da discriminação. Isso reforça a importância de promovermos um ambiente seguro, onde a prevenção combinada, o cuidado e o respeito às vulnerabilidades sejam prioridade.”
Redução de danos como prática educativa

Um dos momentos mais potentes do evento foi a fala de Dênis Petuco, especialista em redução de danos, membro do Comitê Técnico Assessor de Prevenção do HIV/Aids, Hepatites Virais e ISTs do Dathi, e pesquisador da Fiocruz no Rio de Janeiro. Com o tema “Uso de Drogas, Práticas Educativas e Promoção de Saúde”, Dênis compartilhou não apenas conhecimento técnico, mas uma trajetória de vida atravessada pela experiência com o uso de drogas, a educação popular e o ativismo em saúde.
Natural de Porto Alegre, ele iniciou sua caminhada como redutor de danos no início dos anos 2000, integrando o então Programa de Redução de Danos da prefeitura da capital gaúcha. Na fala, ele resgatou a potência da redução de danos enquanto prática educativa — uma pedagogia radical do cuidado, forjada no território, no vínculo e na escuta.
“Meu encontro com a redução de danos não foi óbvio. Eu vinha de uma experiência de internação, comunitária e clínica, nos anos 90, e decidi transformar o tema do uso de drogas em campo profissional. Comecei como educador popular na periferia de Porto Alegre, e foi ali, em um encontro com os primeiros redutores de danos da cidade, que algo me tocou profundamente.”
Ao relatar uma experiência marcante — quando foi reconhecido por três alunos durante uma intervenção noturna no Morro da Cruz —, Dênis descreveu um momento simbólico de virada: “Eles esconderam o baseado quando me viram como educador. Mas relaxaram quando perceberam que eu estava com os redutores de danos. Ali eu percebi que existia um tipo de vínculo que ainda não tinha sido construído por mim enquanto educador. A redução de danos já era, naquele momento, uma prática pedagógica potente.”
Dênis trouxe ainda reflexões sobre o território da RD como acontecimento, não como delimitação geográfica. “O mesmo espaço pode ter significados completamente diferentes dependendo da hora do dia. O boteco da esquina vira casa de prostituição ao cair da noite. E é nesses lugares em transformação que a redução de danos constrói presença, vínculo e cuidado.”
Ele defendeu o reconhecimento da educação popular em saúde como campo legítimo e estratégico, citando a Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS) como uma chave simbólica para sua virada conceitual:
“Quando entendi que existiam práticas de educação popular em saúde — e que a redução de danos era, sim, uma delas —, caiu a grande ficha. A RD parte da realidade dos sujeitos, dos seus saberes e modos de vida. Isso é Freire puro. E é também resistência, cuidado e política.”
Ele propôs ainda uma leitura histórica das “ondas” da RD no Brasil: da prevenção ao HIV com seringas, passando pela saúde mental e pelo paradigma psicossocial, até a atual fase intersetorial. E lançou a ideia de uma quarta onda: o aquilombamento da RD, feita com e pelas juventudes negras, periféricas e LGBTQIA+, contra o racismo, a violência e o encarceramento em massa.
“A gente não pode mais ser tratado como população-alvo. Queremos ser sujeitos da política — desenhar, fiscalizar, criar passarelas para que nossas vozes não só sejam ouvidas, mas incluídas.”
Dênis encerrou destacando a necessidade de superar tanto o “fascismo pedagógico” — que valida todo saber popular sem crítica — quanto o “elitismo técnico”, que desqualifica esses saberes. Para ele, a educação popular e a redução de danos se encontram justamente no meio do caminho: no diálogo entre saberes, onde conhecimento técnico e experiência de vida se potencializam mutuamente.
Cuidado não se impõe: o vínculo como base da redução de danos

Karin Di Monteiro, do Centro de Convivência É de Lei, destacou que a abordagem em contextos de chemsex deve partir do respeito às escolhas individuais e da escuta qualificada. Segundo ela, o cuidado não pode ser imposto. “Se a pessoa disser ‘prefiro correr o risco de morrer, mas não quero parar de usar’, nossa função é escutar e acolher. A partir disso, oferecemos estratégias possíveis de cuidado, como o uso de piteiras, por exemplo.”
Ela criticou abordagens imperativas, como “use camisinha” ou “não compartilhe seringas”, e defendeu uma linguagem que convide ao cuidado compartilhado. “Mudamos todo o nosso material. Passamos a dizer: ‘cuide de você e de quem faz sexo com você’ ou ‘se não evitar, como ainda pode se cuidar?’. A ética do cuidado é nossa espinha dorsal.”
Karin também apontou que o vínculo é essencial para que práticas de redução de danos funcionem. “Não se cria vínculo sequestrando alguém e internando à força. Isso compromete o cuidado. E o cuidado imposto é muitas vezes punitivo e discriminatório.”
Ela destacou ainda o papel das redes de pares e da sociedade civil na construção de práticas éticas, críticas e não mercantilizadas de cuidado. “Muita gente pergunta por que fazemos isso se não ganhamos dinheiro. Mas o cuidado é uma escolha política, coletiva.”
Sobre a cena do chemsex, reforçou que “não é sobre o insumo, é sobre o que chega como demanda”. E alertou para a invisibilidade de grupos mais vulnerabilizados. “A definição de chemsex veio do contexto de homens gays e HSH cis, mas hoje precisamos olhar com atenção quem está sendo deixado de fora. É uma questão de raça, classe, gênero. A gente precisa de um olhar antirracista em qualquer cena.”
ResPire: cuidado na pista

Karin destacou a importância do projeto ResPire, uma iniciativa do Centro de Convivência É de Lei voltada para a promoção da saúde e a redução de danos em contextos festivos.
“O Respire nasceu na cena das festas. A gente percebia que muitas pessoas faziam uso de substâncias e, em algum momento, se desorganizavam, não estavam bem para continuar curtindo. Criamos um espaço para acolher, para segurar esse corpo que precisa de pausa, de cuidado”, explicou.
Presente em festas universitárias como a Peruada e em eventos de coletivos como Mamba Negra e Bruta, o Respire oferece um lugar seguro — longe do som alto, da fumaça e do tumulto — onde as pessoas podem repousar, hidratar, comer, dormir, respirar. “É um lugar onde você pode vomitar, descansar, comer uma fruta, beber água. Um lugar que respeita o tempo do corpo.”
Mais do que acolhimento, o projeto promove rodas de conversa, orientações sobre o uso de substâncias, apoio em casos de violência, distribuição de insumos e até testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites, em parceria com o poder público.
Para Karin, o Respire é política pública na prática: “É política acontecendo ali, na pista. Não é só dizer o que não pode — é garantir suporte quando o corpo e a mente pedem socorro. Porque cuidado é isso. É estar junto, oferecer apoio, respeitar a escolha do outro. Mesmo que essa escolha envolva o uso.”
RD como política pública efetiva

Entre as falas, ativistas presentes no evento faziam intervenções, enriquecendo a discussão. O redutor de danos Miro Rolim, da Reduc, fez uma reflexão crítica sobre o atual cenário da redução de danos nas políticas públicas. Ele ressaltou que, apesar de a RD fazer parte da política nacional de saúde, ela tem sido gradualmente marginalizada devido a disputas ideológicas que enfraquecem sua implementação prática. “A redução de danos, embora reconhecida oficialmente, é pouco aplicada no cotidiano, especialmente em municípios pequenos e conservadores, onde há uma resistência histórica a políticas que envolvem o cuidado sem julgamentos”, afirmou Miro. Ele desafiou a todos a recolocar a RD no centro das políticas públicas, destacando sua importância nos programas de HIV/aids e propondo a superação das barreiras políticas e estruturais que ainda persistem.
Pierre Freitaz, da ONG Multiverso, complementou a fala de Miro, sugerindo que a articulação da RD com outras áreas da política pública é essencial para o sucesso dessa abordagem. “É fundamental integrar a redução de danos com outras políticas públicas, como cultura, assistência social, esporte e desenvolvimento econômico. Essa integração é especialmente necessária em regiões mais afastadas e conservadoras, onde a resistência ao tema é mais forte”, comentou Pierre.
Um guia para o cuidado
O evento marcou a retomada do Manual Chemsex 2023, elaborado pelo GT do CRT. A cartilha, apresentada por Ivone de Paula, responsável pela área de prevenção do CRT, é voltada a profissionais da saúde e oferece diretrizes sobre acolhimento, prevenção combinada e estratégias de RD com foco nas pessoas que vivenciam o sexo aditivado.
O material detalha o uso de substâncias como GHB, metanfetamina, mefedrona e poppers, comuns em contextos de Chemsex — encontros sexuais longos, intensos e, muitas vezes, sem proteção, que envolvem múltiplas substâncias e múltiplos parceiros. A cartilha está disponível gratuitamente no site do CRT e já é referência nacional sobre o tema.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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