São Paulo 470 anos: Conheça a Clínica da AHF em São Paulo, dedicada a saúde sexual e preventiva de pessoas em situação de vulnerabilidade

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Ao chegar na Clínica Comunitária de Saúde Sexual da AHF (Aids Healthcare Foundation) Brasil, em São Paulo, você se depara com uma enorme e colorida mandala da prevenção combinada, que indica o leque de opções disponíveis no SUS quando assunto é autocuidado e prevenção ao HIV e outras ISTs. Dentro do espaço, uma tela digital mostra informações de conscientização e chama os pacientes pelo nome que preferem ser chamados. Passando pela catraca, o caminho colorido no chão, com bolinhas, ajuda a encontrar a sala de atendimento. Há muitos cartazes e folhetos espalhados pela Clínica, todos falando sobre direitos, prevenção e respeito.

Na sala de aconselhamento, diferentes mensagens sobre inclusão e respeito às diferenças enfeitam o espaço junto com camisinhas internas e externas, gel lubrificante, cards informativos sob as mesas, muitos livros e outros materiais e objetos lúdicos. Em homenagem aos 470 anos de São Paulo, a Agência Aids traz histórias de serviços e iniciativas que fazem a diferença na luta contra aids na cidade de São Paulo, uma delas é justamente da Clínica da AHF.

Localizada no coração da cidade, na Rua Pedro Américo, 52, próximo a Estação República do Metrô e ao Largo do Arouche, locais de grande circulação da comunidade LGBTQIAP+ e profissionais do sexo, a Clínica foi inaugurada em dezembro de 2022, há pouco mais de um ano. Desde então, vem se tornando um importante pilar da resposta ao HIV/aids na maior e mais populosa metrópole da América Latina.

Mantida pela matriz AHF, presente nos EUA, Europa, África, América Latina, Caribe e Ásia, a missão da Clínica em São Paulo vai de encontro com o trabalho que a AHF vem realizando pelo mundo, que é oferecer atendimento multidisciplinar gratuito e acessível, especialmente para as populações mais vulneráveis.

Em São Paulo, o trabalho vem colhendo bons frutos, é o que conta o diretor da AHF Brasil, Beto de Jesus. Ele reforça que o compromisso da clínica é ser um serviço de saúde sexual para todos. “Essa democratização parte desde testes rápidos de HIV até os programas de prevenção que ofertamos.” Além disso, Beto destaca que “a Clínica é um espaço onde as pessoas podem acessar informações e conhecer seu estado sorológico de forma confidencial e rápida, sem medo de estigma.”

Beto de Jesus | Gerente da Aids Healthcare Foundation do Bra… | Editora Brasil 247 | Flickr

Ao contar como foi estabelecida a clínica na capital, Beto destaca que a região onde está situada tem uma forte presença de grupos mais vulnerabilizados, a exemplo das pessoas em situação de rua. “O desenho de intervenção só pode ser factível e sucesso na medida que se tem escuta da realidade local, se não seguimos uma perspectiva colonialista. Temos as coisas que a gente acredita, e quando ouvimos o território e dialogamos com este território, levantamos questões importantes. Nos últimos 7 anos temos tentando desenhar o desenho da AHF no Brasil considerando a dinâmica de cada território, porque se você quer de fato mudar algo, isso tem que ser feito com quem vive, com quem faz gestão da política local, junto com profissionais de saúde que estão na linha de frente, entre outros. Nossos projetos de intervenção não são nossos, são do coletivo.”

Impulse

O projeto Impulse é um exemplo prático do compromisso da instituição com a qualidade de vida. Sendo um braço da prevenção da AHF, a Impulse é uma iniciativa que promove ações territoriais de prevenção no contexto das necessidades de gays e HSHs (homens que fazem sexo com homens), com estratégias de prevenção modernas, com facilitação de acesso a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e gerenciamento de riscos com estratégias de redução de danos para quem faz uso de alguma substância psicoativa, o que pode agravar a vulnerabilidade de exposição ao vírus da aids e outras ISTs na cena do sexo.

Paulo Barão, que está à frente da iniciativa, destaca que São Paulo é uma cidade de imensa dimensão e pluralidade. Entretanto, a metrópole com maior PIB do Brasil e da América do Sul, de acordo com ele, também é conhecida pelas desigualdades sociais. Paulo enfatiza o pioneirismo de São Paulo na resposta à epidemia de HIV e afirma que sempre foi referência na política de aids em todo o país, mas lamenta retrocessos em muitos sentidos. “São Paulo não pode deixar de aceitar a pluralidade dela mesma, se ela é plural tem que ser inclusiva e não julgadora. Meu desejo para este aniversário é que ela continue sendo uma cidade acolhedora. Assim como muitas pessoas vinham para cá em busca de maiores oportunidades de trabalho, que também seja por oportunidades de viver de uma forma melhor, melhores amores, melhor saúde, melhor qualidade de vida. Ainda há muito trabalho pela frente!”, afirma.

Na mesma linha de raciocínio, Beto escolhe a palavra crescimento para descrever o que deseja, ainda mais, para a AHF e para a cidade de São Paulo.

Atendimento integral e multidisciplinar

De acordo com Beto, a Clínica conta com equipe multidisciplinar de saúde, que inclui enfermeiros, médicos, aconselhadores, farmacêuticos, entre outros.

Todos os serviços oferecidos – testagem para HIV, hepatite B e C, além de diagnóstico e tratamento de sífilis e outras ISTs, aconselhamento, e encaminhamento para tratamentos mais específicos em serviços do SUS (Sistema Único de Saúde), além da dispensação de insumos de prevenção (camisinhas internas, externas e gel-lubrificantes) – são fornecidos gratuitamente, sem qualquer custo.

O local tem capacidade para atender 50 pessoas por dia, mas atualmente estão sendo realizados em média 30 atendimentos diários. Mesmo sendo uma iniciativa não governamental, a AHF mantém uma relação próxima com os serviços públicos de saúde e com o movimento social, promovendo atividades de conscientização, letramento em direitos humanos e educação em saúde.

Luta contra o estigma e o preconceito

Segundo o aconselhador Cadu Oliveira, um dos valores inegociáveis é a luta contra o estigma e preconceito. Por isso, além de ser um centro de cuidados médicos, a Clínica Comunitária se envolve ativamente em atividades, colaborando estreitamente com a parte sociocultural.

Sobre o perfil majoritário de quem acessa o serviço, ele descreve: “as pessoas estão em situações bastante distintas. Vemos jovens aqui e também vemos pessoas mais velhas. Além disso, pela nossa região, acessamos pessoas que fazem conteúdo adulto. As questões então variam muito, e quando falamos disso, estamos falando que precisamos de abordagens individuais.”

Um ano de conquistas, compromisso e esperança

Dados de levantamento interno indicam que, desde que a AHF abriu suas portas até hoje [de 01/12/2022 até 24/01/24], a clínica realizou 4.117 atendimentos.

Já foram feitos 14.309 procedimentos [entre procedimentos de enfermagem: 3.344; 2.426 procedimentos médicos; 6.108 procedimentos de testagem; 40 procedimentos de vinculação; e 2.391 procedimentos de acolhimento].

Um total de 8.105 testes rápidos foi realizado para detectar Hepatite B, Hepatite C, sífilis e HIV. Dentre esses testes, 205 apresentaram resultados reagentes. Especificamente em relação ao HIV, 27 testes foram reagentes. Da soma dos testes positivos (Hep B e C, Sífilis e HIV), 3,15% foram em pessoas trans e 3,05% refere-se a homens cis.

Com pouco mais de um ano de funcionamento, a Clínica da AHF em São Paulo celebra seu papel que tem desempenhado na resposta à epidemia de aids em São Paulo, mas reconhece os muitos desafios ainda persistentes.

O primeiro contato acontece sempre na recepção. A recepcionista Sheila Wudrev, conta que aposta na gentileza e simpatia para receber os pacientes. “Gosto de sorrir e olhar nos olhos de quem chega, para que se sinta abraçado. Ouço primeiro a queixa e depois explico por quais procedimentos vão passar e quanto tempo irão permanecer na clínica. Geralmente brinco quando percebo se estão nervosos, isso os deixa um pouco relaxados para o próximo atendimento.”

Sheila destaca que a principal procura é por testes, geralmente são pessoas que tiveram uma exposição de risco e precisam ser avaliadas. “Outra demanda comum é de pessoas buscando tratamento para HPV (verruga genital) e outras infecções sexualmente transmissíveis”, diz ela.

Além disso, conta: “Eu poderia enumerar vários casos aqui de pessoas que sofreram algum tipo de violência, buscando informação sobre prevenção, sobre tratamento de HIV, hepatites, vacinas, assistência social… mas, um caso [que me marcou bastante] foi de uma profissional do sexo que nunca havia se testado na vida. Ela veio encaminhada pela cafetina que já conhecia o serviço e nos avaliou muito bem, essa mulher teve um resultado positivo para sífilis e achou que iria morrer, chorou muito e não conseguia compreender que só precisava fazer o tratamento que estaria curada. Isso me deixa preocupada porque mostra que a mensagem de prevenção não está chegando adequadamente a quem precisa.”

Wilson César, é psicólogo e também responsável pelo aconselhamento; o profissional reforça que o objetivo do espaço é oferecer um cuidado integral. “Se a gente focar só na parte técnica, vamos acabar fragilizando a questão”, diz.

“Aqui no espaço de aconselhamento, a gente traz o conteúdo de acordo com cada uma das pessoas que procuram a gente. Olhamos de forma integral a parte humana e da saúde […] aqui elas podem conversar sobre tudo, desde relacionamentos, vida sexual, práticas…”

“Trabalhar a questão unicamente técnica, deixa de lado a oportunidade, inclusive, de a pessoa se empoderar no seu autocuidado. Então, por tudo isso, o espaço do aconselhamento é um espaço rico.”

Cadu aproveita o gancho e exemplifica que são feitas oficinas de racismo estrutural, de combate a LGBTfobia, de redução de danos… “Se não for aqui o lugar que a pessoa se sente segura para falar sobre o uso abusivo de substâncias ou de suas práticas sexuais, não consigo pensar em outro lugar. O que fazemos não é um exercício fácil, mas vamos encontrando maneiras novas”, afirma.

Dentro do consultório, o médico Hugo Kenzo afirma que muitas pessoas chegam sem informação, com várias crenças limitantes do estigma social e tendo diversas relações desprotegidas. “O sexo é tabu e geralmente as pessoas chegam inibidas […] o que a gente tanta fazer é com que as pessoas realmente fiquem mais relaxadas. Nas consultas, a relação é no primeiro momento. Então, quando o paciente chega, tento fazer uma brincadeira para quebrar o gelo, observo como que está sendo a experiência desta pessoa, pois pode ser um momento de tensão […] o mais importante é mostrar que o especialista não está lá para julgá-lo, coisa que acaba acontecendo em muitos outros serviços de saúde. Muitos profissionais julgam a sexualidade, e só frisam o preservativo. Sabemos que o preservativo é sim um instrumento importante, mas não é só sobre isso, temos a prevenção combinada. Temos que falar sempre sobre a PEP e a PrEP, reforço sobre este assunto sempre que sei que o paciente tem indicação e vai se beneficiar destas profilaxias, fazendo o encaminhamento o mais rápido possível. Além disso, falo de vacinação, do uso do gel lubrificante […].”

“Os pacientes que já vivem com HIV acabam frequentando a clínica; não fazemos a distribuição dos medicamentos antirretrovirais, mas sempre estimulamos a adesão ao tratamento, comemoramos juntos… O que quero é que sempre saiam felizes e satisfeitos”, continua o dr. Kenzo.

A enfermagem também incorpora esses princípios. “Nós apoiamos em teorias de enfermagem, baseadas em fundamentos técnicos e científicos, entre elas: a teoria do autocuidado e a transcultural, respeitando a individualidade de cada ser humano. Embora as demandas sejam as mesmas, o cuidado é diferenciado e humanizado; usamos a escuta ativa no acolhimento e na tomada de decisões respeitando o nosso código de ética”, explica o enfermeiro Ederson Renan.

No dia a dia, segundo Ederson, a equipe de enfermagem que é multidisciplinar apoia as atividades da clínica atuando tanto em um núcleo específico como em clínica ampliada, elaborando se necessário planos terapêuticos singulares (PTS).

Já na farmácia, há medicamentos preconizados por PCDTs (Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas) do Ministério da Saúde, e estão disponíveis para quem precisa fazer sua retirada. “Temos a equidade como um dos nossos princípios e assim reconhecemos a necessidade de um grupo específico de pacientes, como as mulheres; temos alguns medicamentos que são de melhor adesão para profissionais do sexo pela facilidade do uso como o Tinidazol e o Fenticonazol, o que facilita muito a eficácia do tratamento, uma vez que são de uso único e com baixa interação”, esclarece Márcia dos Anjos, farmacêutica na AHF.

“Temos ainda anti-inflamatório, analgésico, anti fúngico, antibióticos, ATA (Ácido tricloroacético) e o Nitrogênio líquido, esses dois últimos para tratamento de HPV. São fornecidos em parceria com a secretaria do estado a Penicilina e a Doxiciclina e os insumos de prevenção como: preservativo externo e interno, gel lubrificante e testes rápidos para HIV, Sífilis, Hepatite B e C são fornecidos em parceria pelo município. Temos ainda protocolo para todas as ISTs como Clamídia, Gonorreia e Sífilis. O principal desafio é a não adesão medicamentosa; este é um desafio a cada dia e como profissional de saúde devo reconhecer cada paciente como ser humano único. No momento da dispensação procuro estabelecer uma relação de confiança e é nessa hora que faço a escuta ativa de cada paciente. Procuro sempre ser objetiva nas informações como dose, duração do tratamento, forma de administração, reações adversas e informações mais específicas, como os benefícios do uso e os riscos da não utilização. Cada paciente tem suas peculiaridades e o diálogo facilita a relação entre paciente e profissional […]. Uma das estratégias utilizadas para assegurar a administração correta do uso da medicação é o uso de ferramentas visuais: fitas coloridas, etiqueta de caixas de medicamentos indicando na receita, o horário de cada comprimido que deverá ser tomado… Sugiro ao paciente em criar o hábito ou uma rotina ao tomar o medicamento para ajudar a lembrar-se, por exemplo depois de escovar os dentes, fazer o uso de lembretes sonoro no celular, quando possível, uso de organizador de comprimido ou até calendário posológico impresso”, finaliza.

A Clínica Comunitária de Saúde Sexual AHF está localizada na Rua Pedro Américo, 52 – República, SP.
O atendimento funciona de segunda a sexta (exceto feriados), das 11h30 às 18h30.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

E-mail’s:

info.brazil@aidshealth.org

Fernanda.rick@ahf.org

Beto.jesus@ahf.org

arlos.oliveira@aidshealth.org

Instagram: @ahf.brasil

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